Literatura

A Trilogia da Escuridão (com spoilers) de Guillermo del Toro e Chuck Hogan

Relutei por um bom tempo em ler os três livros que compõe a obra vampiresca de Guillermo del Toro e Chuck Hogan por um motivo relativamente simples: estou de saco cheio de “reinterpretações” sobre vampiros, seja na literatura ou no cinema ou tv. É muita fanfarronice. É vampiro que brilha de dia feito purpurina ou vampirinhos apaixonados morando em cidades interioranas dos EUA vivendo dilemas dignos de novelas globais. Diria o FHC: “Assim não pode, assim não dá”. E não dá gás nenhum mesmo, ao menos pra mim, ainda fortemente influenciado pelo sentido clássico do vampiro contido no Drácula de Bram Stoker ou o filme homônimo de Francis Ford Coppola. Ali sim há o clássico vampiro. Pode até chorar pela amada, mas não fica agindo feito a porra dum poodle em meio a vida. Retomando o princípio do artigo, relutei em ler a Trilogia da Escuridão justamente por causa disso: receio de que existissem vampiros mequetrefes que, na verdade, se comportavam mais como emopiros.

Mas decidi arriscar. E posso garantir a vocês, leitores e leitoras do Cabaré das Ideias, até que vale a pena a leitura, mas vejam bem, ATÉ que vale a pena a leitura. Este “até” faz toda a diferença no caso. E não sei se é uma diferença pra melhor.

A Trilogia da Escuridão é composta por Noturno (o primeiro volume), A Queda (segundo volume) e Noite Eterna (terceiro e último volume). A premissa da história é relativamente simples (o que já é um ponto positivo): existem vampiros e eles se encontram escondidos da humanidade, se alimentam do sangue humano, mas não se permitem ser visíveis. Contudo, um acontecimento (que poderia ser simples) desencadeia a visibilidades desses seres. Um Boeing 747 vindo de Berlim chega a New York, mas não da maneira habitual. Pousa, mas se encontra com o sistema de comunicação desligado, luzes desligadas, janelas abaixadas, quase lacrado. Na verdade, a melhor metáfora seria considerar esse Boeing 747 um verdadeiro caixão, o que de certa forma é a forma correta, conforme a leitura de Noturno vai se adiantando. E dali, desse acontecimento relativamente simples, há o prenúncio da Escuridão sobre a Terra.

Os protagonistas da história – em seu início e também depois – são o Dr. Ephraim GoodWeather e a Dra. Nora Martinez, ambos epidemiologistas alocados para entender e conter com medidas de biossegurança o possível ataque terrorista com vírus ou qualquer ameaça que seja. O inicio do livro é empolgante, passamos a acompanhar o que realmente aconteceu naquele voo, onde imperam dúvidas que se multiplicam, mas também conhecemos os “vilões” da história, o rico e inescrupuloso Eldrich Palmer e aquele que se mostraria o grande arquiteto e vilão da história, o vampiro milenar chamado de “Mestre”.

O ritmo frenético da história empolga, especialmente quanto outros personagens são apresentados, como Abraham Setrakian, o “van Helsing” da trama, experiente caçador de vampiros e o único na cidade que identificou os sinais de que o plano de dominação vampiresca do mundo se iniciava. Como já disse, Noturno tem um ritmo empolgante, especialmente pela dinâmica de del Toro e Hogan em dar uma característica mais “científica” à praga vampiresca. E, dentro da ficção que lida com ciência, muito coerente. E essa maior “cientificidade” da praga vampiresca (descoberta de forma trágica através dos vermes sanguineos que infestam os vampiros, que permitiu entender o processo de transformação orgânica do corpo hospedeiro e a necessidade de se alimentar de sangue e não de vegetais, por exemplo) me deixou realmente empolgado e disposto a ir até o fim.

É óbvio que a tensão empregada numa praga vampiresca que se espalha por New York “precisaria” ser emendada a conflitos familiares, no caso bem dramáticos. E aí, acredito, começa a degringolar a trama da Trilogia da Escuridão. Seu protagonista, o Dr. Eph, é um sujeito inseguro, mas inseguro por demais. Que, como ressalta os livros, por todo tempo está se lamentando e criando situações dramáticas e, na minha opinião, desnecessárias para a trama. E que vão se ampliar até o volume final, Noite Eterna e vão quebrar toda a expectativa da trama. E acredite, é apenas a ponta do iceberg literário.

Noturno é o livro que trata de nos apresentar a pandemia vampírica se consolidando e muito por ajuda dos próprios humanos, seja pela incompetência, pela incredulidade ou realmente pelo pacto maléfico com o Mestre, o vampiro milenar que orquestrou toda essa pandemia. É interessante ler em Noturno e em A Queda que as pessoas tem dificuldade não apenas em entender, mas em aceitar mesmo após entender, que existe uma praga vampírica. Quebra a racionalidade segura do cotidiano que a ciência nos delegou. E del Toro e Hogan, nos dois primeiros volumes da Trilogia da Escuridão, nos oferecem realmente essa perspectiva e ela é muito bem conduzida. Temos de nos guiar por Abraham Setrakian, que há muito superou esse dilema (sua história em flashback é uma das melhores coisas do livro), para realmente ter a dimensão da situação de imediato, coisa que personagens como Gus e Vasiky e mesmo Nora o fazem (Eph reluta mais uma vez, choraminga demais pelo filho e pela ex-esposa). 

A transformação das pessoas e da cidade é concomitante e isso é um ponto positivo da trama. O motivo da pandemia vampírica é coerente, até mesmo pelo cúmulo do egoísmo que é encarnado em Eldrich Palmer, mas é o Mestre que realmente inspira o terror, mesmo porque cada humano infectado se torna, na verdade, uma extensão de si mesmo. E em A Queda (na verdade, ao final de Noturno) descobrimos literalmente que há uma classe de vampiros milenares “irmãos” do Mestre e em conflito com ele. A trama, nesse ponto, fica mais interessante ainda e estimula uma leitura voraz. Porque além do conflito entre a praga vampiresca e a humanidade que é dominada e com poucos focos de resistência, temos um conflito entre os vampiros Maiores. E, lamentavelmente, aí começa a degringolar a trama da Trilogia da Escuridão.

Como disse no início do post, o que me deixou animado ao ler os primeiros dois volumes da Trilogia da Escuridão foi o caráter “mais científico” do ser vampiro. Mas em Noite Eterna isso vem por água abaixo. Entra, lamentavelmente um aspecto metafísico que, em minha opinião, parece cair de para-quedas na trama.

Li os volumes Noturno e A Queda de forma voraz, com meus personagens preferidos já definidos (Setrakian, Vasily e Gus) e torcendo, realmente, para que não fossem infectados (um deles, no caso, foi, mas a luta foi muito boa), ansioso por maiores descrições dos cenários e, ao fim de A Queda, ansioso por saber que mundo restou a humanidade. Se é que havia restado. Mas como disse, o elemento metafisico entrou, através da obtenção de um livro ainda em A Queda e foi o mote do fechamento da trama em Noite Eterna. E digo: não valeu a pena.

Se o melodrama do Dr. Eph já enchia o saco, a chegada de “anjos” à trama foi o fim da picada. Quase não acreditei que del Toro e Hogan incluiram, de forma literal, esse elemento (para explicar a origem dos vampiros) à trama que, por si só estava redonda. OBEVEAMENTE não sou o autor da Trilogia da Escuridão, mas achei uma derrapada feroz essa dos dois autores da obra. O drama disney com pitada de horror do filho do Dr. Eph, Zack, me deixava ainda mais desanimado na leitura de Noite Eterna e me perguntando porque raios aquilo era fundamental à trama da Trilogia. Era, de certa forma, descobri depois, mas não pela riqueza de conteúdo a ser adotada, mas simplesmente pelas “fortes emoções” infligidas pela ausência paterna do Dr. Eph à vida de Zack. Veio somar o ruim ao desagradável dos anjos (ou seria o contrário?) do final do livro.

De toda forma, a Trilogia da Escuridão merece ser lida, mas confesso que fiquei com a impressão que a Trilogia da Escuridão se assemelhou ao ilustrativo “cavalo paraguaio”, que inicia a corrida velozmente, mas ao final, chega por último devido ao cansaço exaustivo. Se fosse dar nota, daria uma nota 8,0 à Trilogia da Escuridão. Se você quiser ler o primeiro capítulo de Noturno, clique aqui. E boa leitura! Abaixo uma entrevista do Guillermo del Toro sobre a Trilogia da Escuridão.

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4 pensamentos sobre “A Trilogia da Escuridão (com spoilers) de Guillermo del Toro e Chuck Hogan

  1. Ben, tenho de concordar com vc: Eph é um personagem deveras chato, dramático em excesso. Talvez os autores quisessem dar um toque menos aterrorizante, não sei… Ainda estou no começo do terceiro livro. Com todos os defeitos, a Trilogia serve para apresentar vampiros de um jeito menos “palstificado”… abs, Roberta Ecleide.

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  2. Bem, não sei ao certo por onde começar…
    De qualquer maneira, eu não achei o Dr. Ephraim tão chato assim. É um cara que tem sua crise de meia-idade iniciada quando o mundo ao qual ele está acostumado desmorona… Fica difícil segurar as pontas quando tudo o que você tem como referência deixa de existir.
    Além disso, pareceu-me que o que embasa tal crise na história é o amor de pai e filho e a impossibilidade daquele demonstrar isso para este. Bom, não tenho filhos e tals, mas achei que isso foi posto de maneira extremamente exagerada… Ainda mais se pensarmos que todo o amor de Eph por Zach é um contraponto a necessidade que o transformado tem em ir atrás de seus Entes Queridos. Sinceramente, isso não me desceu; não me pareceu suficientemente convincente… Principalmente no terceiro volume, quando tudo parece degringolar.
    Aliás, em Noite Eterna tudo parece degringolar…
    Como uma história pode começar com uma epidemia virótica e terminar com intervenções divinas? Não que uma seja melhor que a outra, mas, como já dito no texto, a solução religiosa é, sem trocadilhos, algo Deus Ex Machina… Assim como a própria participação de Quilan…
    Também fiquei incomodado com a grande necessidade de se explicar as coisas, principalmente quando se repetiu muito dos acontecimentos dos livros anteriores no começo do livro seguinte.
    Mas, de qualquer maneira, o enredo é envolvente e se desenvolve bem – mesmo em Noite Eterna. E o lance de se colocar capítulos como se fossem diários é uma bela homenagem a Bram Stoker.

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  3. Tendo a concordar contigo. Começa muito bem e no final degringola. Ainda não engoli essa ideia de anjos. Enfim, muito bom o seu texto.

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