História em Quadrinhos

Retratos do preconceito e da intolerância nas Histórias em Quadrinhos

As histórias em quadrinhos há muitas décadas retratam – com maior ou menor intensidade – o fanatismo e a intolerância em suas mais diversas perversidades. Ainda que tais retratos (porque são vários) possam ser mais ou menos “impactantes”, mais ou menos metafóricos, mas ainda assim bastante perceptíveis. O preconceito pode ser racial ou por sexo, pode ser étnico ou religioso ou tudo isso somados. Se é possível visualizar esse cenário no mundo, seja pela televisão ou no cotidiano diário, não seria anormal perceber nas HQ’s a incorporação dessa nefasta situação.

Um exemplo: Muitas das garantias civis constitucionais derivam de um Estado laico. Para citar apenas uma: o direito feminino de votar e ser elegida. Leitor e leitora do Cabaré das Ideias, não pense que esse direito hoje gozado pelas mulheres “brotou” e foi uma conquista fácil e com apoio das alas religiosas, cristãs, judaicas ou islâmicas. Ao contrário. Até hoje as mulheres da Arábia Saudita, exemplo de um Estado teocrático e com políticas restringem as liberdades civis e políticas graças a “religiozação” da política, não possuem esse direito político elementar. Talvez e vou frisar TALVEZ somente em 2015 esse direito elementar possa ser exercido.

Nas HQ’s “menos autorais”, preconceito e intolerância foram retratados por diversos autores e artistas nas mais diversas editoras. O exemplo imediatamente mais significativo é X – Men, uma das melhores metáforas para o preconceito racial (ou toda forma de preconceito, na verdade) que podemos encontrar nas HQ’s. A ideia que norteou a criação de Stan Lee é a existência de mutantes em nosso mundo, uma minoria ainda que uma minoria poderosa significativamente. Em meio a década de 1960, auge dos movimentos pelos direitos civis nos EUA, X – Men foi uma verdadeira inovação no mundo dos super heróis. Teríamos, de um lado, os homo sapiens sapiens aflita, desconfiada e nada cooperativa com o homo superior (os mutantes com seus poderes diversificados), mas entre os homo superior haveria uma divisão, representada por Charles Xavier (pró-cooperação com os humanos) e Erik Magnus (pró – conflito com os humanos). Ainda que seja uma divisão “rasteira” e, ao longo dos anos, foi se diluindo bastante, a premissa se manteve integral: há um mundo com pessoas que não estão dispostas ou não priorizam compartilhar desse mesmo mundo com outr@s, diferentes, mas ainda assim seres sencientes. Muitas excelentes HQ’s foram produzidas retratando de forma mais ou menos intensa esse conflito, mas dentro de uma lógica “super-heroística”, o que reduz consideravelmente as possibilidades artísticas de trabalhar temas como preconceito e intolerância.

Uma HQ que tratou do preconceito racial de forma dura e sem delicadeza foi Preacher, com diversos álbuns lançados no Brasil pela Devir e pela Panini (Salvation, lançado pela Panini, é o meu preferido e onde se retrata bem o racismo no sul dos EUA). Como uma das minhas HQ’s preferidas, Preacher retratou um EUA (especialmente o Sul) fortemente impregnado do racismo que resultou na KU Klux Kan (famigerada KKK). Na verdade, o próprio protagonista, Jesse Custer, padeceu de uma criação racista e amplamente preconceituosa e Garth Ennis, o criador da série, não poupou nem um pouco: fez Jesse Custer se tornar xerife da cidade, distribuir porrada entre os racistas da KKK, apresentar diálogos entre personagens caricatos (sim, muito, mas não perde o princípio do preconceito racial como problema, que para eles não é problema, claro), etc. Salvation é o meu álbum preferido, pelo ritmo louco e frenético da história, mas também pela forma como Garth Ennis solta a bomba do racismo e nos deixa rindo com as situações estapafúrdias, mas – comigo, ao menos – um pouco “sem chão” ou furioso em como mais ou menos melanina na pele pode desencadear tanto ódio. E um ódio que recebeu, ao longo da história, as bençãos religiosas.

A forma racista foi alimentada pela religiosidade. E essa relação entre preconceito racial e fundamentalismo religioso é cada vez mais acentuada e forte em nossa realidade. E todo fundamentalismo é perigoso, seja um fundamentalismo de teor religioso – como o cristão, hindu, judeu, muçulmano, etc – como o fundamentalismo ateu – como o experimentado na extinta União Soviética, na Coréia do Norte e na China atuais ou a atrocidade que muitos “cientistas sociais” fizeram da obra genial de Charles Darwin, “A Origem das Espécies”, e que resultou no Darwinismo Social que alimentou “cientificamente” o racismo de Estado e teve como resultado o Holocausto.

Uma HQ, especialmente, retratou bem como o Estado pode promover o preconceito e intolerância graças a divisão da humanidade em “raças” mais ou menos evoluídas e, por isso, mais ou menos detentoras de direitos. E essa HQ é V de Vingança de Alan Moore e Dave Lloyd. A HQ retrata uma realidade na qual uma guerra nuclear dizimou não apenas as vidas de milhões de seres humanos e outros animais, mas também dizimou princípios elementares dos direitos civis, como a liberdade de expressão e organização política (em favor de um partido único ao modo fascista), mas não apenas a liberdade política foi solapada em nome da segurança, mas também as liberdades civis. E dentro de uma lógica de segurança, onde o “outro” é sempre o negativo, milhares e milhares de pessoas de origens étnicas não européias foram trancafiadas em campos de concentração, bem como os “pervertidos” e por “pervertidos” entenda-se os homossexuais. 

Evey, amiga/discípula de V, vive (assim como viveu antes V), através da leitura de uma carta (na verdade, uma carta “diário/testamento” escrita num rolo de papel higiênico por “Jane”)  o fim do sonho de uma mulher que a ama (e essa mensagem na HQ é brilhante, amar sem saber se o outro é negro, branco, verde ou azul, homem, mulher ou mutante, ou o que quer que seja), sim, a ama. Porque ela foi confinada a um campo de concentração e submetida a inúmeras experiencias médicas simplesmente porque amou outra mulher. O texto de Alan Moore é simplesmente arrebatador. Podemos ler e visualizar toda a vida dessa mulher sendo despedaçada pelo Estado totalitário, de braços dados à Igreja, promovendo o extermínio de minorias, mas ainda assim incapaz de destruir a alma dessas pessoas. Acredito que não haja HQ que retratou tanto os perigos do preconceito religioso e da intolerância (qualquer que seja) quanto V de Vingança. Você pode ler uma resenha que escrevi sobre V de Vingança clicando aqui.

Fiz esse post porque hoje é 5 de Novembro e já nos alertava V: “remember, remember”.

Sempre.

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