Literatura de Ficção Científica/Realidade Overpower

“Mercados Repugnantes” e Ficção Científica

Desde que consigo me lembrar, acompanho notícias relativas aos vencedores do Prêmio Nobel, especialmente de Economia. Quando Elinor Ostrom conseguiu esse prêmio – salvo engano meu, a primeira mulher a vencer o prêmio por um trabalho na área de Economia e Gestão dos Recursos Naturais – meu interesse só fez aumentar. E este ano, 2012, os economistas estadunidenses Alvin E. Roth, da Universidade de Harvard, e Lloyd S. Shapley, da Universidade da Califórnia foram os agraciados – ainda que por trabalhos paralelos que se cruzaram pela revisão metodológica – pelo Prêmio Nobel de Economia e seus US$ 1,2 milhão de dólares para torrar como bem desejarem.

O trabalho que os fez receber toda essa bufunfa e capital social foi, grosso modo, sobre a teoria de alocações estáveis e ao modelo de mercado. A ideia é realmente interessante, devo dizer. Basicamente versa sobre a otimização da oferta e demanda, através da coadunação entre os agentes econômicos que ofertam, por exemplo, órgãos para transplante, e aqueles outros agentes econômicos que demandam, hospitais que necessitem desses órgãos para transplante – aqui, claro, toma-se que existe assimetria informacional, mas as falhas de mercado são pontuais e não estruturais, o que o modelo estabelecido pelos laureados pelo Nobel “corrige” através de sua metodologia inovadora. Como disse, a ideia é bem interessante, prática e útil. Mas daí fui “inventar” de buscar mais informação sobre os laureados e me deparei com algo que me chamou a atenção – no interessante blog da Monica Baumgarten-, na verdade um conceito e dos mais escabrosos possíveis: “mercados repugnantes”. E sim, tem tudo a ver com a ideia vencedora do Nobel de Economia. Basicamente Alvin Roth afirma, numa entrevista dada a Harvard Business Week no nem tão distante ano de 2007, que as pessoas possuem um aversão a determinadas ideias, o que limita a existência de mercados. Exemplo? Bom, como cita textualmente uma reportagem do “El Mundo”: “Además del lanzamiento de enanos (dwarf-tossing) y la polémica idea, resucitada cada poco tiempo, de la creación de un mercado libre de compraventa de órganos, como riñones.” Num mundo sem desigualdade e com simetria informacional, claro, as externalidades seriam reduzidas? Duvido muito. De boas intenções o inferno está lotado.

A ideia em si, para mim, parece ter saído diretamente de um livro do Philip K. Dick. De acordo com o Nobel de Economia: 

“Daqui a 100 anos, drogas que melhoram o desempenho, físico e mental, serão amplamente utilizadas e deixarão de ser tratadas como moralmente aviltantes. Ao contrário, elas serão tão recomendadas pelos médicos e nutricionistas quanto uma dieta balanceada, quanto à indicação de que crianças devam beber leite”. (…) “tecnologias reprodutivas, em que os pais poderão escolher as características genéticas de seus filhos, estarão em pleno uso em vários países. Alguns imporão restrições a estas práticas, o que incitará o surgimento de um mercado internacional, como já existe no caso de barrigas de aluguel na Índia. O “turismo da fertilidade” se tornará algo comum”.

Acompanho o título “Mercado Totalitário” – que pode ser lido clicando aqui – dado pela Monica Baumgarten porque, essencialmente, essa é a premissa que guia toda a ideia acima exposta. Mas o que mais me assustou foi a “antecipação” literária de Philip K. Dick a essas ideias. É sério. Não parece ter saído diretamente de um livro do – literalmente – visionário escritor de ficção científica autor de “O Homem do Castelo Alto”, entre outras histórias? Pois é. Essa foi a impressão que me passou. 

O que temos é o mau e velho totalitarismo travestido de “liberal”. Se na obra de Philip K. Dick é muito mais comum encontrarmos o Estado opressor, o “Mercado” opressor também é factível. Em geral, as pessoas comuns – que são essencialmente as personagens de K. Dick – são esmagadas, presas entre as intenções e ações de um Estado megalomaníaco e um Mercado totalitário, duas faces de uma mesma moeda. Podemos ver essa dualidade no conto que inspirou o filme “O Pagamento”. Ou no clássico “Do Androids Dream of Electric Sheep?” (Blade Runner), no qual pessoas “não-perfeitas” são “perfeitamente” descartáveis num mundo descartável depois da Guerra Mundial Terminus. Ou até mesmo a ideia de “seres humanos descartáveis” contidas no excelente livro “La Chica Mecánica” de Paolo Bacigalupi”  – fortemente influenciado pela literatura de Philip K. Dick – que você pode ler a resenha que fiz clicando aqui.

A ideia de futuro do Nobel de Economia Alvin E. Roth parece ter saído diretamente da literatura de ficção científica da qual Philip K. Dick foi um gênio. E isso me assusta bastante, perceber que nas Ciências Econômicas existe – não em seus subterrâneos acadêmicos – uma “intraliteratura” como essa. Se Philip K. Dick fosse vivo, essa teoria (ou a “previsão” desse futuro pelo vidente ou economista?) seria mais uma a se tornar um de seus fantasmas mais assombrosos. 

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2 pensamentos sobre ““Mercados Repugnantes” e Ficção Científica

  1. Prezado, qual a idéia do artigo? Qual a reflexão proposta ou análise sugerida?

    Sobre a questão da origem da idéia, além de ser apenas uma hipótese especulatória, há algo pra corroborar a conclusão meio infundada? Olha, antes de virarem livro, as idéias que viraram uma história nas mãos do Philip já eram fato. O futuro descrito na obra seria uma exacerbação do presente, pq tudo aquilo já existia. Não creio que a mente do Philip seria abalada com a constatação da presença daquelas idéias em uma literatura científica.

    No que tange à dualidade entre liberalismo e totalitarismo, você tira do baú um lugar comum (a idéia circular e redundante da contradição entre uma ideologia e sua justificativa dissimulada/indireta, fundada nos valores dessa própria ideologia, para atos contradizentes com os princípios determinantes da própria estrutura moral aparente), com pretensão de originalidade e perspicácia. Se não fosse assim, seria mais crítico em relação ao que escreve e publica.

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    • Olá, Gabriel! A idéia do post era mais uma “provocação”. Sobre “hipótese especulatória”, bom, toda hipótese, em si, é uma exploração sobre a factibilidade de algo (ou especulação mesmo em termos mais rústicos) e só ultrapassa a fase de hipótese quando existe comprovação empírica, isso, claro, é uma “fast-Popper” para o caso. Sobre abalar ou não a mente de K. Dick, só podemos conjecturar. Por fim, não pretendi originalidade alguma e muito menos aprofundamento sobre um debate sobre liberalismo (especialmente o econômico, no caso) e totalitarismo. Seria levar a sério demais um post num blog sobre nerdices gerais. O que não inviabiliza que você, aparentemente conhecedor do debate que se estende desde Kautilyia, Mêncio, Hobbes, Locke, Stuart Mill, entre outros, sobre o papel do indivíduo e coletividade possa escrever algo sobre, mas precisaria ter conteúdo e não comentários curtos e rasteiros com pretensão de outorgar alguma espécie de lição.
      Abraço!

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