Literatura

A Dança dos Dragões: uma resenha spoilerenta em fúria

É isto mesmo. Essa resenha que estou escrevendo numa insônia feroz que me atormenta nessas últimas semanas é uma resenha em fúria. E a razão dessa fúria se chama George R. R. Martin e a maldita hora que comprei “A Guerra dos Tronos” no (nem tão) distante ano de 2009, enquanto esperava o embarque no aeroporto de Guarulhos com destino a Cuiabá – MT. E só um conjunto literário como se constitui “As Crônicas de Gelo e Fogo” é capaz de despertar tanta raiva e, indubitavelmente, tanta paixão. E, confesso aos leitores e leitoras do Cabaré das Ideias, que padeço de ambos: amor e ódio pela engenhosidade literária criada por George R. R. Martin. E neste último volume das Crônicas, publicada pela Leya, esse ambivalente sentimento mais uma vez veio a tona.

“A Dança dos Dragões” retoma o ritmo frenético de “A Tormenta das Espadas” – diante da pausa de ritmo que se constituiu “O Festim dos Corvos” – e por esse ritmo frenético você, leitor (a), deve entender que “tudo que é sólido mais uma vez se desmancha no ar”, ou melhor, nas páginas deste livro. Tyrion Lannister, Jon Snow (Stark), Arya Stark e Daenerys Targaryen mais uma vez, através de suas histórias dentro de histórias, nos conduzem ao caótico Reino de Westeros, ou melhor, da Muralha e de Meereen e outras Cidades Livres. Outr@s personagens interessantes retornam para enriquecer ainda mais a trama (como Sor Davos, o Cavaleiro das Cebolas) e Bran Stark (que atravessa perigos mortais guiado por um “Caminhante Branco” lúcido e misterioso que o leva até seu destino como aprendiz de warg – ou outra coisa?) bem como somos apresentados a nov@s personagens que, como sempre nas Crônicas de Gelo e Fogo, têm um “papel” a desempenhar. Até a Sacerdotisa Vermelha, Melisandre, ganha “voz” neste volume, bem como Asha Greyjoy. E George R. R. Martin distribui bem, quase em doses “homeopáticas”, as percepções dessas personagens, mas é nos seus “protagonistas” – Tyrion, Jon, Arya e Daenerys – que o velhinho barbudo imprime a maior parte da tensa trama que segura milhões de leitores pelo mundo.

Tyrion Lannister, mais uma vez, é o exemplo literário máximo da sobrevivência. E sobreviver, neste livro, para o anão foi um verdadeiro suplício, enfrentando desde seres humanos acometidos por moléstia mortal (escamagris), até cavalgando uma porca como um anão animador de arena. E escravo. Sim. Escravo. Até essa “pérola” Tyrion Lannister conseguiu agregar a sua pequena, porém robusta vida. E tudo, claro, pela sobrevivência. E em meio a tantos percalços, Tyrion continua sendo um dos personagens mais cativantes, divertidos e honrado das Crônicas. A percepção que tenho é que George R. R. Martin prefere deixar aos deformados, esquecidos e desajustados, a carga da honradez em toda a sua trama. E isso deixa a história cada vez mais interessante. E a inteligência e sagacidade de Tyrion, como nunca, foram utilizadas nesse volume “A Dança dos Dragões”, uma inteligência rápida alimentada pela perspicácia, algo que George R. R. Martin sempre ressalta nesse personagem fundamental à trama de As Crônicas de Gelo e Fogo.

A participação de Arya Stark é breve, comparativamente a Jon, Tyrion e Daenerys, mas é extremamente forte, do ponto de vista da criação literária. Arya se torna cada vez mais uma mulher, mas ainda mais, Arya Stark se torna uma assassina letal, treinada pelo “Homem Gentil” do Templo do Deus de Muitas Faces. Perde a visão, torna-se uma deformada, torna-se uma letal assassina. E diante de tudo isso, em seu treino, ela sempre é Ninguém. Suas tantas vidas são nada perante o presente. E essa percepção a deixa cada vez mais forte. E como disse antes, letal. Imagino que no próximo livro leremos o estágio mais avançado de Arya (embora confiar em George R. R. Martin seja cada vez mais difícil). E, como fã da personagem, estou curiosíssimo.

Daenerys Targaryen é uma Rainha. No caso, uma Rainha de Meereen. E uma Rainha sedenta pela paz. E para tanto, trancafia seus filhos, os dragões – ainda que Drogon tenha conseguido escapar – e se casa com um “nativo” para selar verdadeiramente a paz e acabar com os assassinatos que ocorriam na cidade. Daenerys é uma personagem extremamente interessante. George R. R. Martin insere nela uma dualidade mortífera, senhora da paz e da guerra. Meereen é cercada de inimigos (outras Cidades Livres que formaram uma espécie de coalizão anti-Daenerys) que juraram a destruir por ela ter combatido vivamente a escravidão, libertando escravos e executando escravizadores. Ler os capítulos dedicados a Daenerys é interessante por diversas razões, mas uma que particularmente me chama a atenção é o constante dilema que a sua realidade impõe: para manter a paz é necessário promover a guerra? E é interessante observar como o tipo de paz que ela constrói é feita de barro e desmorona facilmente. A forma que desmorona foi interessantíssimo, afinal, “de boas intenções o inferno está lotado” e no inferno há fogo e o que os dragões melhor podem oferecer é fogo. E, neste volume de As Crônicas de Gelo e Fogo, finalmente lemos sobre os dragões, em toda a sua magnificência e periculosidade. Que o diga o desiludido e ingênuo Príncipe de Dorne, queimado integralmente enquanto tentava “roubar” um dos dragões presos num calabouço. O que espera Daenerys no próximo livro? Não consigo supor, afinal, podemos confiar pouco no autor das Crônicas, mas ter imaginado Daenerys Targaryen cavalgando um dragão – sem o uso de feitiço valiriano algum, apenas de sua persuasão, foi empolgante.

E agora Jon. Jon Snow agora é o Comandante da Patrulha da Noite e tem de arcar com a pesada responsabilidade que esse cargo lhe confere. Decisões amargas que ficam cada vez mais difíceis de serem tomadas em conformidade a dificuldade política de se negociar com Stannis Baratheon, um dos Reis em Westeros,  e toda a sua comitiva alocada na Muralha depois de sua providencial chegada e auxílio no momento da batalha contra as forças de Mance Rayder, o Rei-Para-Lá-Da-Muralha. Além, claro, do perigo dos “Outros” que mais do que nunca é um perigo real e letal. Jon Snow negocia, articula e planeja ao máximo para enfrentar não apenas os rigores do Inverno que está chegando, mas também possíveis conflitos com a comitiva de Stannis, os irmãos da Patrulha da Noite e os “selvagens”, recém-aceitos para cá da Muralha. E nesse ponto, exatamente neste ponto, um conflito se instala e o preço que Jon paga é alto, quase mantendo a tradição de matar um Stark por livro que George R. R. Martin imprimiu nos últimos volumes. Fiquei sem chão ao chegar ao fim do livro. Mais uma vez. Meio que desesperançado e crente que de tod@s personagens, apenas Tyrion Lannister (e talvez Arya, pela mesma ser, enquanto serve o Deus de Muitas Faces, apenas “Ninguém”), saia ileso ao final do último volume das Crônicas de Gelo e Fogo. A última vez, na literatura que senti isso, foi ao ler “O Messias de Duna” de Frank Herbert, quando o Muad’ib, o Mahdi dos Fremen, fica cego e precisa rumar sozinho pelo Deserto de Arrakis para morrer de forma honrada, de acordo com a tradição fremen.

Estou realmente enfurecido com George R. R. Martin. Senti cada um dos golpes sofridos por Jon (metaforicamente dizendo, claro). E nem sei o que dizer. Não consigo acreditar e de certa forma aceitar que mais um Stark morreu – talvez o filho de Lyanna Stark e Rhaegar Targaryen. Creio que de alguma forma Melisandre irá salvar Jon, até mesmo porque em suas visões no fogo de seus deus, o rosto de Jon constantemente surge, talvez como aquele que ela aguarda – já que sabemos que não será Stannis Baratheon. Mas temos de aguardar o velhinho barbudo terminar o próximo volume, denominado como “Os Ventos do Inverno” e, enquanto isso, aguardamos enfurecidos com os mandos e desmandos desse brilhante autor que é George R. R. Martin.

Para ler as resenhas dos demais livros das Crônicas de Gelo e Fogo, clique aqui

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14 pensamentos sobre “A Dança dos Dragões: uma resenha spoilerenta em fúria

  1. Belo texto! Exprime muito bem o sentimento que tive ao final de A Dança…
    Só pra constar, sobre o Jon, creio que ele não morreu: em entrevista publicada recentemente, perguntaram ao RR Martin por que ele tinha matado o Jon e ele responde “Quem diz que ele morreu?”.

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    • Pois é. É minha esperança hehehehe, mas entendam: terminei de ler o livro numa madrugada de insônia, então nada mais natural que ficar puto mesmo com o final do livro. Li essa entrevista do George R. R. Martin e realmente fiquei com a impressão de que Jon não morreu. Mas sou cabreiro com esse autor heheheeh

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  2. Não foi uma leitura tão decepcionante quanto O Festim dos Corvos, mas ainda assim não supera A Tormenta de Espadas. É uma pena que os dois últimos livros pareçam tão diferentes dos três primeiros. Fiquei um pouco decepcionada pela quebra no ritmo.

    Capaz de eu ter que ler tudo de novo só para me preparar para os próximos. E vamos torcer para que o Martin acerte a mão desta vez. 😀

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  3. Eu ainda não terminei minha leitura da série, mas não aguentei tive e encontrar esses spoilers. Mas, pelos comentários que li, parece-me que talvez, realmente, Jon não tenha morrido. E penso que, se Jon for mesmo um meio-Targaryen (meio lobo, com certeza, ele é), talvez aconteça com ele algo como ocorreu com a Daenerys ao adentrar o fogo. Eu, particularmente, torço para ele e pela Khaleesi. Na verdade, eu bem preferia que ambos ficassem com o Trono de Ferro. Sou totalmente apaixonada pela personagem da Mãe dos Dragões e, como todo fã dos Stark-Targaryen, tenho um carinho sobremodo maior pelo bastardo dos Stark E penso que, o Norte pode ficar com o pequeno Bran (preciso ler mais spoilers ou conseguir terminar a leitura dos livros rs) – nunca fui muito fã dos Robb e da Sansa (únicos Starks que conseguiram minha antipatia).
    A bem da verdade, acho que a estória de Jon Snow não termina, de fato, enquanto sua origem real não for totalmente esclarecida. E eu não acredito no fim da Mãe dos Dragões. Acho que George é louco, mas nem tanto ????

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  4. Sendo fã dos Stark, principalmente da Arya e do Jon, por um tempo eu fui otimista quanto ao destino desses personagens. Mas depois que o Martin deixou a Arya cega, já nao acredito num “final feliz” para os Stark, pois esse escritor gosta de arrasar com nossas esperanças. Quanto ao Jon, por mais que sua origem nao tenha sido esclarecida, ele pode ter morrido mesmo assim. Martin é adoravelmente louco. Espero que o Jon esteja vivo, mas prefiro ser pessimista. A entrevista me deu esperanças de que ele não tenha morrido. Mas é difícil esperar algo bom no meio de tanta tragédia.

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  5. O Mãos Frias provavelmente é um warg controlando um Caminhante Branco, ou algum caminhante com consciência, já que o Jon insinua em uma parte que isso é possível.
    Tantos os do gelo quanto os do Fogo, não são mal nem ruins, só forças opostas.
    O Jon não está morto, ou foi Fantasma que morreu ou alguém que Melisandre pôs no lugar, ou ela mesmo despertará ele.
    O Bran controlará um dragão que lutará a favor dos Outros. A Muralha derreterá ou cairá com o Berrante Valiriano do Euron. Mas ela cairá.
    O cantor era obviamente o Abel, Mance, ele fala isso um dia quando Jon tá se infiltrando com os selvagens.
    Ramsay perdeu, mas manda a carta para poder fazer reféns, para tentar lutar contra Stannis que tomou Winterfell.
    Ou é mesmo Stannis que manda a carta para que Jon abandone a Patrulha e não possa voltar atrás, mas ele é muito certinho para isso, o Stannis.
    Quero que a Daenerys morra, ou então creio que agora ela amadurecerá de verdade, matará os reféns da Harpia (quando ela voltar). Victarion a estuprará provavelmente, ou Euron.
    A Arya talvez perca a conexão com a loba, quando ela realmente se tornar “Ninguém.”

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