Literatura

Antes e Depois de Lisbeth Salander

Ontem foi um dia relativamente atípico. Meu alter ego, sem conseguir acreditar, escreveu quase cinco páginas do último capítulo de sua tese de doutorado sob o bom efeito de um vinho chileno, o rico “Casillero del Diablo”, safra 2009, merlot (ainda que sua preferência seja Cabernet Sauvignon ou Tannat). E, no meu caso, me deparei com uma verdadeira obsessão literária causada por uma personagem: Lisbeth Salander.

Pra ser direto para quem ainda não conhece a personagem (seja pelo cinema ou, melhor, pela literatura), aqui vai uma definição sucinta dela: Lisbeth Salander possui um código moral próprio que a fez se manter viva em meio a pesadelos quase cotidianos. E odeia homens que odeiam as mulheres.

Havia lido “Os Homens que não amavam as mulheres” de Stieg Larsson e fiquei extasiado pela trama de suspense que preenche cada página do livro. E ali conheci Lisbeth Salander. Confesso que rolou de imediato uma atração pela personagem, mas algo estranho, diferente, mas ainda assim uma admiração profunda pelo autor por sua capacidade de criar uma personagem tão “torta” para os padrões habituais que retratam as mulheres, muitas vezes, como seres de pouca autonomia. Definitivamente, não era o caso dessa personagem. Então fui fisgado.

Mas aí veio a leitura de “A menina que brincava com fogo” e, por ter uma trama tão excelente quanto a do primeiro livro – “Os homens que não amavam as mulheres” – mas com o diferencial de desenvolver muito, mas muito bem @s coadjuvantes da história, mergulhei de ponta na leitura desse livro e simplesmente, tenho de confessar, li o volume de 600 e poucas páginas na madrugada e início da manhã. Não conseguia parar de ler. Larsson nos apresentou, verdadeiramente, quem era Lisbeth Salander (ou o mais próximo disso) e por que “era do jeito que era”. E com Lisbeth Salander era no esquema “ame-a ou deixe-a”. E confesso ser impossível deixá-la. E não deixei. Foda-se a tese de meu alter ego, não havia a menor chance de parar a leitura de “A menina que brincava com fogo”. E não parei mesmo até ler a última linha da última página do volume editado pela Companhia das Letras.

Em “A menina que brincava com fogo”, conhecemos os principais motivos que levaram ao internamento de Lisbeth Salander e entendemos o porque a personagem se recusa a colaborar com autoridades policiais ou governamentais. E acredite: ela teria todos os motivos pra não acreditar e muito menos desejo de colaborar. Há razões e razões suficientemente fortes para isso e Larsson, como excelente autor que é, consegue nos prender ao pouco nessa revelação e viagem ao histórico e quase ao “entendimento” do comportamento de Lisbeth Salander. Parte desse “entendimento” se dá através d@s coadjuvantes. É claro que Mikael Blomkvist está lá (afinal, é um dos protagonistas do livro ao lado de Lisbeth Salander), mas neste volume Larsson se aprofunda muito mais n@s coadjuvantes, nos seus motivos para odiar Salander ou para gostar e, em alguns casos, ama-la (e isso surpreende inclusive a própria protagonista, outro mérito de Larsson como escritor, conseguir passar essa sensação ao leitor que vos escreve). Para ficar em apenas um caso, enquanto lia, gargalhei muito com o personagem “Paolo Roberto” e seu heroísmo ao salvar a amiga/amante de Lisbeth Salander, Mimmi, numa das descrições de lutas mais surreais e geniais que pude ler em minha vida. Genial demais, mas até as motivações dos vilões – que merecem mesmo essa alcunha, seja um canalha escondido sob a proteção do aparato do Estado ou o canalha que anseia prejudicar pelo prazer de prejudicar, tod@s ficaram muito bem desenvolvidos neste volume.  E como não poderia deixar de haver, há o bom e velho conflito familiar na trama deste livro, mas não a jornada do herói tradicional. Ah, passa longe do tradicional.

Lisbeth Salander é uma das personagens, independentemente de sexo e gênero, mais fortes que tive o prazer de conhecer na literatura. Mérito de Stieg Larsson, mas também retrata – acredito – a força que moveu a escrita da Trilogia Millenium: há um mundo machista muito perigoso pras mulheres, algo que permeia especialmente o primeiro e o segundo livro (ainda – AINDA – não li o terceiro e último volume) de forma muito clara. E Lisbeth Salander é a voz e (muito mais) a ação da própria mulher, como ser humano capaz de se proteger e enfrentar a vida.

Terminei  volume de “A menina que brincava com fogo” com a sensação de que existe um divisor de águas na literatura, digo especialmente na forma como personagens femininas são retratadas. E esse divisor, esse antes e depois se chama Lisbeth Salander, graças a Stieg Larsson.

Anúncios

3 pensamentos sobre “Antes e Depois de Lisbeth Salander

  1. Gostei bastante da trilogia. A personagem da Lisbeth é tão fora do comum que me surpreendeu, positivamente falando, nunca tinha visto uma personagem feminina tão forte. A trama dos livros é instigante, te prendem. Devorei cada livro. Fiquei boquiaberto com cada revelação, com cada acontecimento. Ficava pensando: “Como o Stieg Larsson vai resolver isso”. Muito bom, recomendo demais a leitura. Aliás, ótimo texto, parabéns.

    Curtir

  2. Devorei a trilogia também. Achei incrível como a trama foi tão bem amarrada e como os personagens são profundos e bem trabalhados. Me desespera pegar um livro onde os personagens são rasos, algo que Stieg Larson não fez e superou muitos autores de suspense e mistério.

    Acho até que Trilogia Millenium não é adequado, tinha que ser Trilogia Salander, pois ela rouba todas as cenas. 😀

    Curtir

  3. Pingback: Um amor chamado Lisbeth Salander | JULIANismos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s