História em Quadrinhos

Review de Cabaré: Preacher: A Caminho do Texas – Volume 1 da Panini

Fui um desses nerds leitores de HQ que passaram toda a década de 1990 e 2000 simplesmente desesperado por ter em sua coleção a aclamada, descarada, depravada e desajustada série Preacher, de Garth Ennis e Steve Dillon, publicada pelo selo Vertigo da DC Comics. Quem acompanha as publicações da Vertigo no Brasil sabe muito bem o sofrimento que seus leitores e leitoras passaram para poder ler suas séries preferidas (Hellblazer, Os Invisíveis, Lúcifer – estrela da manhã, Os Livros da Magia, etc). As séries se iniciavam e muito raramente eram completadas ou então mudavam de editora e, assim, mudava-se também formato de publicação (qualidade editorial e material das revistas). Resumindo: ser leitor e fã da Vertigo era uma espécie de martírio nerd e nenhuma série correspondeu tão bem a essa ideia de martírio que a depravada e metafisicamente desajustada série Preacher.

Preacher é a obra prima criativa de Garth Ennis. Mistura religião, sexo saudável e doentio, amor, uso de drogas alucinógenas em rituais xamânicos, clima on the road, racismo, companheirismo, problemas familiares sérios, pornografia angelical, honradez altiva e poderia continuar a acrescentar uma série de etc, para poder ilustrar no que consiste essa série Preacher. Mas para quem não leu – heresia – a premissa da história é relativamente simples: D’us abandonou Seu Trono no Céu, em meio a esse abandono surge Gênesis (ser extremamente poderoso que é o fruto da relação sexual metafísica entre um Serafim e uma Demônio) e Gênesis termina por fugir de seus captores angelicais e encontra como hospedeiro o frustrado Pastor Protestante Jesse Custer, cuja vida era uma merda e seu “rebanho” era constituído de um bando de canalhas, salafrários e amargurados. Do encontro entre Gênesis e Jesse Custer – durante um culto dominical careta – a história de Preacher é iniciada, com todas as suas implicações críticas. E o estilo ácido crítico de Garth Ennis é livremente disposto ao longo da série.

E temos – ainda não sei dizer ao certo – a melhor e mais original série da Vertigo (ok, Sandman possui outro status pra mim, mais literato, quase como comparar na literatura o estilo de Dickens com o estilo de Rubem Fonseca). Neste primeiro volume de Preacher publicado pela Panini Books, acompanhamos o primeiro arco dessa série. Como já disse, a história realmente começa a partir do encontro de Gênesis com Jesse Custer, mas o que motiva a série é algo genial demais: Jesse Custer, com Gênesis em sua mente, decide ir atrás de D’us e descobrir porque raios ele abandonou o Trono no Céu e, mais adiante, se perguntará: porque abandonou sua Criação?

Neste primeiro arco, somos apresentados aos personagens mais malucos que, duvido muito, se encontram na história das histórias em quadrinhos: um vampiro beberrão chamado Cassidy que se tornará o grande parceiro de Custer ao longo de sua jornada, uma entidade metafísica que representaria o Anjo da Morte (o Santo dos Assassinos, um outrora humano que não mantém praticamente de sua humanidade), um adolescente desfigurado denominado Cara de Cú e Tulipa, a quase assassina quase profissional e ex namorada de Jesse Custer. E há outros personagens que passarão por esse volume, mas não serão permanentes na série. De toda forma, Garth Ennis brinca com o leitor e mexe, sem sombra de dúvida, num verdadeiro vespeiro ao criticar de forma contundente as maluquices religiosas que proliferam nos EUA. E, mesmo sendo irlandês, Garth Ennis consegue – pelo que já li a respeito e conversei com outros nerds sebentos – retratar bem a loucura religiosa permeada de contradições que existem nos EUA. E Steve Dillon, com seus traços simples e especialmente seus “retratos faciais”, consegue perfeitamente retratar o que Ennis planejou para sua história: o desajuste psicológico que cada personagem possui na trama. Todos, ressalto, todos possuem um grau de desajuste, ainda que diferenciados. E  Garth Ennis e Steve Dillon, neste primeiro volume da série, consegue perfeitamente introduzir a história e nos estimular a acompanhar essa jornada de Jesse Custer.

Não tenho do que reclamar da edição “Preacher: a caminho do Texas” da Panini Books. Ela mantém um padrão de qualidade (embora o preço seja salgado) que não tem paralelo no restante do mercado editorial brasileiro. Depois de cumprir sua promessa de terminar a publicação da série Preacher no Brasil (que, verdade seja dita, quebrou a maldição da Vertigo no Brasil), agora a Panini inicia deste volume as publicações encadernadas da série. Já comprei os volumes 7, 8, 9 e agora o volume 1 e, se tudo correr bem, comprarei todos os restantes. Vale muito a pena pra ficar gargalhando sozinho, como tantas vezes já fiz, ao ler Preacher.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s