Literatura de Ficção Científica

Resenha com Cointreau: La Chica Mecánica de Paolo Bacigalupi

Como os leitores e as leitoras do Cabaré das Ideias bem sabem, sou um leitor devorador de literatura de ficção científica. Quando estive vivendo na Cidade do México, tive o prazer de vasculhar livrarias e sebos buscando, em verdade, alguma literatura sci fi que não houvesse sido publicada em terras brazucas. Me deparei com uma banca de revista que me parecia uma “livraria a céu aberto” no Centro Histórico, em frente a Torre Latino Americana. E, para agradável surpresa, encontrei um livro de sci fi que não tinha a menor ideia de existir. Se chamava “La Chica Mecánica”, autoria de Paolo Bacigalupi. Folheei algumas páginas e de imediato me senti fisgado pela trama futurista e com um clima “Blade Runner” tropical. Mas calma! A história não tem nada  a ver com o contexto da obra de Philip K. Dick. Na verdade, o que temos em “La Chica Mecánica” é um elaborado romance sci fi que nos apresenta um futuro ecologicamente problematico – que considero uma grande “sacada” do autor – e com as tradicionais intrigas políticas. O diferencial é que a protagonista do romance é uma “neoser”, uma pessoa “humana” fabricada e, por isso, vista realmente como não humana ou sem “alma”, apenas carne. Essa característica e as implicações de ser quase humana, permeará toda a obra, nos apresentando o verdadeiro dilema da protagonista, Emiko, de se pensar “até onde nossos genes determinam nosso comportamento e criam nossos destinos?”

O cenário da história é a cidade de Bangok, Thaliandia. E um mundo no qual o aquecimento global foi e é uma realidade e todos os seus efeitos perversos são rotineiros, a expansão economica (vamos entender como a Globalização) é uma lembrança histórica, já que o mundo vive sob um período de Contração e o comércio entre os países é limitadissimo. E há um componente fundamental a trama de Bacigalupi: o poder das companhias genéticas, especialmente a AgriGen, representada por Anderson Lake. O dilema que permeia o conflito entre os principais personagens é: deve o Reino Thai se abrir novamente ao mundo? Um mundo que foi devastado por pragas e no qual o Reino Thai se constitui um verdadeiro paraíso? E por paraíso me refiro a maior riqueza para um país, neste futuro retratado pelo livro: sua riqueza natural. Daí reside os choques (xenofóbicos também, muito bem retratados pelo personagem Hock Seng, um ancião chinês exilado no Reino Thai pela “Guerra do Carvão”) entre as personagens, especialmente, de um lado, os defensores do Ministério do Meio Ambiente (os camisas brancas Jaidee e Kanya – esta última, minha personagem preferida no livro) e, do outro, personagens ligados ao Ministério do Comércio, desejosos de promover a abertura do Reino ao comércio.

Nesse conflito, de certa forma, há um lado vencedor. E também quanto ao conflito de Emiko, também há uma vitória da “neoser”, castigada e humilhada ao longo do livro, mas de verdade cabe aos leitores e leitoras do livro pensar também que caminhos são estes que produzimos hoje que nos levam a um cenário tão degradante, do ponto de vista ecológico, economico e moral. “La Chica Mecánica” é uma excelente leitura e recomendo fortemente para leitores e leitoras de literatura sci fi.

Plaza & Janés
544 páginas
Traducción: Manuel de los Reyes
ISBN: 9788401339400

Abaixo o Booktrailer de “La Chica Mecánica”.

Anúncios

5 pensamentos sobre “Resenha com Cointreau: La Chica Mecánica de Paolo Bacigalupi

  1. Tenho esse livro, mas nao cheguei a ler. Nao tinha dado muita bola até ler a sua review… Esse cara é considerado como do movimento “Biopunk” (um desdobramento do Cyberpunk), fiquei curioso…

    Abração,
    Victor Hugo

    Curtir

  2. Pingback: Direto do Vapor – Steampunk! | Ao Sugo

  3. Pingback: “Mercados Repugnantes” e Ficção Científica « Cabaré das Ideias

  4. Meu, que capa linda! Mto, mto boa mesmo!E e9 bom saber que o livro deve ser lane7ado esse ano ainda no brasil, pq e9 uma das manhis series favoritas!Eu sou o numero quatro foi mto bom e o poder dos seis foi melhor ainda!!!

    Curtir

  5. Pingback: Faca de Água de Paolo Bacigalupi: resenha com cointreau | Cabaré das Ideias

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s