Cinema e afins/História em Quadrinhos

Que papel desempenha o feminino, hoje, nas Histórias em Quadrinhos e no Cinema?

Quando me chegam dizendo que o ano de 2012 representa o fim, espero realmente que esse “fim” seja mais factível que metafórico, especialmente quanto ao contexto do feminino na denominada indústria cultural, da qual faz parte a sétima arte (cinema) e a nona arte (as histórias em quadrinhos). E quando me refiro “ao contexto feminino” nessa indústria cultural me refiro a uma real e contínua valorização da mulher – como aventureira, como guerreira, como espiã, líder política, hacker idealista ou não, mas em especial como ser humano. E, sabemos, tanto a sétima quanto a nona arte (esta última então…) representam, grosso modo, a mulher como: (1) objeto, (2) donzela indefesa que só sabe gritar por socorro (veja Mary Jane, nos filmes Spider Man de Sam Raimi), (3) alguém amarga que busca vingança, (4) alguém que pra sobreviver ou atingir algum objetivo fundamental na história (HQ ou Filme) precisa de um homem para dirigir a situação.

Acho que existem até mais situações em que as mulheres são enquadradas na indústria cultural hard (esqueçam os filmes de arte ou as HQ’s autorais que verdadeiramente possuem liberdade criativa para nos apresentar outros retratos femininos), mas a imensa maioria peca por enviesar e muitas das vezes distorcer papéis femininos importantes numa trama, mas o que realmente ocorre é deixar a mulher apenas como uma sombra na trama. Ou então, nós, consumidores, contribuirmos com essa visão limitada sobre as personagens femininas e não damos real valor às iniciativas que as têm como reais protagonistas de suas histórias.

E por que, raios, estou escrevendo sobre este tema aqui no “brogui”?

Porque sai do Cinema, hoje, com uma baita dúvida de como enquadrar a heroína (Katniss Everdeen) de “Jogos Vorazes” – aqui no México saiu com o título de “Los juegos del hambre“. Essa dúvida se deve menos a trama – que a valoriza como a heroína do filme desde seu início e atesta sua força – mas da forma como nós, público, independente do lugar, recebemos a ideia de que uma mulher seja protagonista da trama e, especialmente, uma protagonista que possua força por seus próprios méritos.

Houve tentativas sérias de dar destaque às personagens femininas em filme-séries, como Angelina Jolie em “Salt”. Foi para a frente a série? Não. Porque? Faltou mérito à película? Também não. Um filme de ação igual a outro qualquer. Mas acho que “Salt” se enquadra na triste sina de filmes com personagens femininas fortes que não vão para a frente (em taxa de sucesso, digamos) muito porque o público tem arraigado em suas entranhas psíquicas-culturais o velho e nefasto machismo.

Ah, Ben Hazrael, tu ta mais por fora que bunda de nudista na praia. E a “Tomb Raider”? Também faço a mesma pergunta. E, ao menos comigo, creio que “Tomb Raider” foi mais um voo dos Irmãos Wright do que um voo de Santos Dumont.

E nos quadrinhos? Ah, nem me lembro quantas vezes nos últimos anos a Marvel vem dando destaque a Miss Marvel e mesmo assim a personagem não decola (basta contar a quantidade de vezes que mudou de codinome ou uniforme ou as duas coisas ao mesmo tempo).

Que falta, então, às personagens femininas para decolar tanto no cinema quanto nas HQ’s?

Creio que é dupla a resposta. A primeira, com toda a certeza, depende do consumidor (muito, mas não completamente) e para que decole, precisamos (e precisamos mesmo) mudar a percepção do que seja a mulher (como ser humano, não como objeto ou ser fraco e indefeso incapaz de tomar decisões ou muito menos enfrentar os desafios da vida), ou seja, minar o machismo em diversas frentes e uma delas é na indústria cultural. Trocando ideias com outras pessoas sobre filmes, ao escutar alguém dizer algo machista sobre a personagem feminina, responder que não é por aí, que isto ou aquilo, etc. Acho que é algo interessante como iniciativa. Putz, todo nerd (e não nerd) faz isto numa boa, tomando café ou cerveja no buteco.

Outra resposta é mais ligada, acredito, à capacidade criativa. E isto depende, necessariamente, dos artistas. Nas HQ’s, as personagens femininas são retratadas utilizando roupas com tanto decote e tão pouco usuais que sinto pena dos homens que criaram e mesmo solidificaram esse status quo de “super-heroína precisa mostrar a bunda em todos os momentos não importa se esteja lutando contra um vilão ou apenas caminhando pela calçada”. Mas existem mudanças (não tanto no vestuário), mas na mentalidade. Veja-se o caso da Mulher Maravilha, escrita por Brian Azzarello, que é uma das mais criativas HQ’s do Reboot da DC. Para dizer a verdade, como fã da Mulher Maravilha, ela em si é uma personagem forte, mas nunca a vi sendo tão bem caracterizada. Vale a pena ler todas as HQ’s e acompanhar essa série.

No cinema (que incorporou da literatura) uma personagem feminina excelente foi Lisbeth Salander, de “Os Homens que não Amavam as Mulheres, destemida e muito, mas muito corajosa, Lisbeth Salander representa um aspecto feminino do cinema que existe, mas é pouco visualizado na minha opinião. Lisbeth Salander, na minha opinião, é o arquétipo do que Simone de Beauvoir escreveu em sua clássica obra “O Segundo Sexo”: “ninguém nasce mulher! torna-se mulher!”.

O que me faz retornar ao filme “Jogos Vorazes” e sua personagem protagonista “Katniss Everdeen”. Que dizer deste filme quanto ao que registra sobre a personagem feminina? Embora, com toda a certeza, seja uma trama inicial que não gostei tanto – no bom e velho futuro mundo capitalista meio desolado, carcomido de vez em seus valores humanos, cujo objetivo é minar de vez a solidariedade social e estimular apenas o individualismo massacrado pelo Big Brother Governamental – algo importante faz Katniss Everdeen ser mais próxima de uma Lisbeth Salander do que uma Bella Swan (de Crepúsculo, pequena e caricata mulher entre um emopiro e um poodlesomen). Ambas as personagens são mais autônomas em suas caracterizações, ainda que o contexto que as implique seja mais tenebroso para Lisbeth (na formação de sua personalidade e caráter) do que para Katniss. 

Mas confesso que me empolguei ao ver personagens femininas fortes surgindo no cinema, ou sendo melhor caracterizadas e valorizadas nas HQ’s, como a Mulher Maravilha. O cenário é favorável, mas de toda a forma, a indústria cultural – que também nos premia com Crepúsculos da vida ou BBB com suas personagens-participantes caricatas e vazias – constrói, mas também destrói, tal qual Shiva (perdoe-me a comparação). Espero que mais e melhores obras – no cinema ou nas HQ’s – nos tragam mais personagens femininas fortes e destemidas e que isto estimule cada vez cada menina e cada mulher (e nós homens também, respeitando-as sempre na dignidade de cada mulher que nos cerca ou não) a ser verdadeiras em si mesmas e não compartilhar de visões estereotipadas que, muitas e muitas das vezes, artefatos culturais as sugestiona e impõe.

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8 pensamentos sobre “Que papel desempenha o feminino, hoje, nas Histórias em Quadrinhos e no Cinema?

  1. É impressionante a falta de informação das pessoas. Vai e volta alguém reclama das traduções brasileiras para os títulos dos filmes… Acontece que nesse caso o Brasil manteve a ideia original, já que o filme “The girl with the dragon tattoo” foi baseado em um romance sueco cujo o nome original é algo assim, os homens que não amavam as mulheres, os homens que não gostavam das mulheres. E realmente, esse titulo é mil vezes mais interessante do que a garota com a tatuagem de dragão já que o foco na lisbeth salander é praticamente nulo, digo isso comparando aos outros dois livros, esse nome ficaria legal para o segundo filme, porem, ainda prefiro os nomes originais =)

    xxxxxxxxx

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    • O pior que concordo com você, mas não deixo de pensar que sim, as “traduções” de títulos de filmes no Brasil são horríveis e tenebrosas. Mas como toda adaptação – literária ou cinematográfica – temos de sempre ser flexíveis.

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  2. Adorei que tu citou umas personagens realmente relevantes sem nem precisar falar de Game of Thrones que é escancarado (imho) o que mais trata dos papéis femininos e masculinos na sociedade deles mas ao mesmo tempo mostra todos como humanos antes de seres com gênero definido. E também tô esperando pra ver Brave da Pixar, acho que dali sai uma heroína infantil muito da feminista!
    E acabei de lembrar da princesa Tiana, primeira princesa negra da Disney que ao invés de esperar pelo príncipe, resolveu trabalhar duro pra conseguir tocar o próprio negócio e prosperar, outra personagem que me passa uma imagem muito positiva da mulher.

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  3. Cara, amei o texto, mandou muito bem Ben!

    É muito bom ver um ser do gênero masculino falar desta maneira, até por que ando meio assustada com a quantidade de pessoas com mentalidade mascu, por aí (pessoas, blogs, grupos etc).

    Anti-sexismo é a melhor coisa que existe, estereótipo de gênero ainda é um puta obstáculo nesse nosso mundinho.

    =]

    Parabéns

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  4. Crepúsculo tinha um potencial para mostrar uma imagem diferente de mulheres para as jovens que leram esta porcaria. Normalmente, vemos mulheres vampiras como fortes, independentes, destemidas, como a Pandora de Anne Rice. No entanto, a autora caiu no clichê da moça virginal, do rapaz puro e virginal, os dois se casam e é por meio dele que a protagonista pode finalmente ser forte, segura de si, destemida e os caralhos…

    Ou seja, a mensagem que a infeliz dessa autora passou para as meninas é que só pelo casamento elas podem ser felizes e atingir o patamar de mulher com M maiúsculo.

    Pelo menos, em Jogos Vorazes e nos livros seguintes, Katniss é um símbolo de uma revolução, ela luta, ela se machuca, ela combate os status quo e suas escolhas no final são unicamente suas, ao contrário da Bella. Pode não ser uma obra-prima distópica, mas certamente tem mais mensagens positivas para as mulheres do que o lixo de Crepúsculo.

    Abraço! 😀

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