Literatura

Personagens da Literatura que Gostaria de Encontrar para Tomar um Café!

Nada melhor que personagens cativantes para deixar um livro mais saboroso, não? A literatura universal, independente do gênero literário, nos fornece um cabedal tão rico de personagens que muitas vezes podemos nos pegar desejando profundamente que eles ou elas existissem, que pudessem passear pelas nossas próprias ruas e avenidas, que pudessemos, de repente, sentar ao lado num Café em San Telmo ou avistar saboreando algum petisco num buteco na Lapa ou no Bixiga. Não sei quanto a vocês, leitores e leitoras do Cabaré das Ideias, mas desde que me entendo por leitor ávido me deparo com a sensação, constante e cada vez mais intensa, que alguns personagens transitam por “entre-realidades”. Uma vez até me peguei com a nítida sensação de que eu havia transitado para a realidade deles. Faz tempo e foi uma experiência que não envolvia nenhum alucinógeno, a não ser o próprio livro que devorava: A Náusea, de Jean Paul Sartre.

E pensando agora, enquanto minha contra-parte escreve uma tese de doutorado sobre mudanças climáticas, justamente sobre a “entre-realidades” me deparei imaginando quais seriam os personagens ideais para se encontrar num Café em San Telmo, Buenos Aires, ou ali na Rua Augusta, São Paulo. E os escolhidos foram esses desajustados:

1. Fernando Olmos. Personagem transtornado de “Sobre Heróis e Tumbas” do magnífico Ernesto Sabato. É uma figura alucinada, que acreditou piamente – enquanto viveu naquelas magníficas páginas do romance, especialmente do “Relatório sobre os Cegos” – que existia uma Seita Sagrada dos Cegos, que manipulava a realidade humana. As ideias de Fernando eram completamente alucinadas e me agradou de imediato e acompanhar sua espiral de loucura preocupa e estimula a querer participar daquilo tudo, inclusive descer ao mundo subterrâneo. Mas voltando aos pensamentos de Olmos, por exemplo, uma das minhas preferidas é:

“O martírio sempre foi o fim quase profissional dos santos; e não podia deixar de meditar sobre essa caracteristica da existência humana que consiste em que um crucificado ou um esfolado vivo tornem-se, com o tempo, marca de talharim ou de conservas em lata”

Realmente adoraria trocar uma ideia com esse personagem.

2. Horselover Fat. Outro personagem transtornado. Acho que é um hábito me identificar com esses amaldiçoados. No caso de Horselover Fat, encontrá-lo para tomar um café seria encontrar também Philip K. Dick, pois ambos são um na fantástica e pertubadora “Valis”. A experiência metafísica de Philip K. Dick que ele transforma em romance através de Horselover Fat é quase um atestado de insanidade e por isso genial. Já li duas vezes “Valis” e cada vez que releio fico mais impressionado. O interessante seria imaginar a conversa e se Horselover Fat decidisse convidar, para a roda do café, o próprio Fernando Olmos. Seria ainda mais interessante e pertubador.

3. Sidarta. Pausa na alucinação. Sidarta, personagem que dá título ao romance extraordinário de Herman Hesse, é a metafora perfeita para as fases da vida. Ao ler “Sidarta” é possível sentir o bom peso da vida, entregar-se às páginas do livro é tão magnífico e mais ainda ao se dar conta de que todo o livro é uma grande lição, não daquelas de cartilha, mas uma lição através das nossas próprias experiências e reflexões. Cada um e cada uma em seu próprio karma e retirando dele o conteúdo necessário para aprender e para mudar. Gostaria de encontrar Sidarta enquanto ele contempla o rio. E gostaria de encontrá-lo várias e várias vezes durante a minha vida.

4. Antoine Roquentin. Retomo os transtornados. Este Antoine Roquentin é o protagonista de “A Náusea” de Jean Paul Sartre, talvez seu maior romance. O romance todo é repleto de excentricidade. Roquentin é acometido pela “Náusea” e ela meio que atua como uma coadjuvante, é através dela – verdadeiramente – que Roquentin discorre sobre o existencialismo de cabaré e de gaveta, no qual “nada” faz sentido (sim, foi um trocadilho com “O Ser e o Nada”, a maior obra filosófica de Sartre), muito menos o buraco no espelho que lhe surge em determinado momento. Até hoje sinto que espelhos atraem, de alguma forma, buracos. Se encontrasse Roquentin, iria convidá-lo a olhar algum espelho comigo.

Acho que poderia citar uns tantos outros, mas realmente foram estes quatro personagens de romances que mais me impressionaram e me deixaram pertubado. Talvez a próxima seleção de tais personagens ocorra nas histórias em quadrinhos. Vai ser interessante também, imagino.

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6 pensamentos sobre “Personagens da Literatura que Gostaria de Encontrar para Tomar um Café!

  1. Nossa eu adorava o “Sidarta” do Hesse, mas acho que hoje em dia eu teria uma conversa do tipo “cala a boca seu chatolino!”, ele é muito enrolado buscando o sentido da vida… o sentido é óbvio… 42 né?! ou não? enfim…se fosse pra tomar alguma coisa com ele certamente não seria um café, seria provavelmente um absinto por que só assim pra aguentar ele hoje.

    Me dá uma sensação de adolescente demais.

    Vou tentar ler “A Nausea” parece muito bom!

    Bjocas

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    • Hhahaha é verdade, Laís! Eu tomaria um café apenas com o Sidarta mais velho, que teve o rio como seu mestre. Aquele ali seria interessante trocar umas ideias heheeh e com o absinto seria mais interessante com o Fernando Olmos ou o Roquentin!!! heheh Leia a Náusea que é uma maluquice genial que só!!!

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    • Elizabeth Bennett, personagem da obra prima de Jane Austen, que nasceu no final do Sec. XVIII e viveu durante o início do Sec. XIX. Tomar um café com Lizzy e discutir com ela sobre a situação feminina do século em que foi escrito o livro, estabelecer um paralelo sobre a situação da mulher atual; e principalmente ouvir seu depoimento do preconceito sofrido, numa época, em que mulher não vivia de nenhum tipo de arte… esta ida de volta para o passado, certamente não teria nenhum dinheiro ou cartão de crédito que pagesse.

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  2. Eu gostaria de encontrar Senemut, do livro O Mestre de Quéops, já que foi ele quem educou o menino que se tornaria o faraó e que precisou sair da condição de escravo para se tornar tutor dos filhos do faraó Sneferu. Excelente livro de ficção histórica. 😀

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