História em Quadrinhos

Resenha de Cabaré: John Constantine – Hellblazer: origens – vol 1: pecados originais

Muitos acusam a Panini de “perder a mão” com os títulos de HQ da Marvel e da DC. E por “perder a mão” digo publicar material desinteressante em mix pouco ou nada atratíveis ou mesmo deixar de publicar, no formato encadernado, material excelente como Supremos – Vol. 2 (que até hoje não saiu no Brasil e ninguém me convence de que não venderia bem em livrarias este álbum). Mas em se tratando de Vertigo a Panini, em minha opinião, está dando o tratamento que “nunca antes na história deste país” o selo mais criativo da DC Comics teve o direito de usufruir. E seu maior mérito foi cumprir a promessa de “quebrar a maldição” de Preacher no Brasil. A série – criada pelo genial e depravado Garth Ennis e ilustrada por Steve Dillon – estrelada por Jesse Custer, Tulipa, Cassidy, Herr Star, Cara de Cu, entre outras figuras folclóricas das HQ finalmente se encerrou no Brasil. Como fão da série nem preciso dizer que irei escrever uma série de posts sobre Preacher aqui para o Cabaré das Ideias.

Mas agora quero mesmo é resenhar as primeiras edições, reunidas pela Panini, de um dos mais carismáticos, canalhas e bon vivant que transita pelo universo Vertigo: John Constantine. Coadjuvante na série do Monstro do Pântano, o mago inglês logo atingiu um nível de sucesso que passou a estrelar sua própria revista: John Constantine – Hellblazer. Me lembro de que a revista, originalmente, deveria ser chamada “John Constantine – Hellraiser”, mas Clive Baker já havia registrado esse nome para sua turma de Cenobitas. De qualquer forma, a revista solo de Constantine saiu do formo sob a batuta do escritor Jamie Delano e as ilustrações a cargo de John Ridgway.

Publicada originalmente nos saudosos anos 1980, as histórias de John Constantine ficaram marcadas pelo horror oriundo da magia suja e nada glamurosa e pelos conflitos psicológicos de Constantine, pelas agruras e mazelas sociais e pelo forte teor crítico que Jamie Delano imprimiu ao conteúdo das histórias. Neste primeiro encadernado da Panini com o mago inglês, intitulado John Constantine – Hellblazer: origens – vol 1: pecados originais, vemos exatamente essa marca das histórias de Constantine. E é algo que sinto muita falta nas atuais Histórias em Quadrinhos.

As seis primeiras histórias de John Constantine estão reunidas nesse encadernado: 1. Fome, 2. Um Banquete de Amigos, 3. Correndo Atrás, 4. À Espera do Homem, 5. Quando Johnny volta marchando para casa, e 6. Preconceito extremo. 

Ao comprar esse álbum, tenho de reconhecer que não sei qual destas seis histórias eu gosto mais.  Temos de tudo: pedófilo e assassino serial adorador de demônio que cruza o caminho de Constantine, lembranças tenebrosas da guerra do Vietnã que volta, literalmente, para assombrar um povoado estadunidense, racismo associado a magia rudimentar – ainda que embebida no horror, etc.

A primeira história, “Fome”, é um conto de horror simples e com uma mensagem também simples e direta: tudo que você faz tem um custo e esse custo nunca desaparece, está em algum lugar só esperando a oportunidade para surgir e lhe cobrar seu preço. Nesta primeira história, somos verdadeiramente apresentados ao universo de John Constantine. Pinceladas rápidas de sua biografia tumultuosa e uma constante na sua vida: pessoas que se aproximam demais do mago inglês sempre pagam um preço salgado por isto. Mas a ideia é que ninguém que se aproxima tanto da magia é tão inocente.

Mas fico com uma baita dúvida sobre qual história que mais gosto mesmo neste encadernado, entre “Quando Johnny volta marchando para casa” ou “Corrento atrás”. Fico pensando e chego a conclusão que é “Correndo atrás”. Ou seria realmente “Quando Johnny volta marchando para casa”? Não importa. As duas são excelentes e mostram toda a maestria de Jamie Delano em escrever uma boa história em quadrinhos com um teor crítico nem um pouco chapa-branca.

“Quando Johnny volta marchando para casa” é a história de um “passeio” de Constantine pelos EUA e, inadvertidamente, o mago inglês fumante de Silk Cut esbarra na depressão coletiva de pais e mães em um povoado que nunca puderam ver seus filhos regressando da Guerra do Vietnã. Essa história é sobre como, muitas vezes, o apego – doentio – às lembranças pode acabar se tornando o combustível para a desgraça individual e coletiva. Constantine se depara com essa situação e opta, sob forte pesar, em não se envolver. Por covardia? Ele mesmo não poderia dizer nem que sim e nem que não. Constantine sabe, muito bem, que as obsessões – como a que imperava no povoado – são tão mortíferas como alguns encantamentos realizados por um experiente mago. Essa história é marcante por se caracterizar por uma leitura crítica sobre as atrocidadades da Guerra do Vietnã e por trazer o horror dessa guerra verdadeiramente aos EUA. Definitivamente, é uma excelente história em quadrinhos.

Quanto a “Correndo atrás” temos o clássico e cinzento momento vivenciado pelos britânicos na Era Tatcher (a dama de ferro). Jamie Delano nos apresenta um história onde o “Mercado” nada mais é que um “brinquedo” nas mãos demoníacas. E suas “leis de Mercado” são artifícios para fazer com que a desgraça impere e se amplie pela Grã-Bretanha. Leiam, leitores e leitoras do Cabaré das Ideias, a frase do demônio Blathoxi – o senhor da flatulência: “o mercado do Reino Unido está muito aquecido com a perspectiva de um terceiro mandato conservador.” É sério, o demônio se pauta no bem que as políticas econômicas conservadoras causam no seu objetivo de fazer com que “o dólar infernal dispare”. Jamie Delano consegue, nesta história, nos presentear com uma pertubadora e divertida visão de demônios misturados aos agentes econômicos interessados em aumentar o lucro, nem que para isso tenham de passar por cima de tudo e de tod@s.

John Constantine – Hellblazer: origens – vol 1: pecados originais é uma excelente oportunidade para conhecer o universo de John Constantine. Espero que a Panini continue a publicar outros encadernados de John Constantine. Serão muito bem-vindos!

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