Documentários

Alucardos: ultraviolência, vampirismo lésbico e a bizarrice de um documentário (?)

Acho que existem coisas que caem de para-quedas na vida d@ sujeit@. Você volta do cinema. (Re) Assistiu ao filme Lanterna Verde. Fica com a mente cheia de dúvidas, angústias e inquietações nerds em relação ao que viu no filme e tanto potencial desperdiçado, praticamente. Volta para o apartamento, acessa a net e se depara, simplesmente, com a notícia de um documentário/filme/documentário não sei bem o que é aquilo chamado “Alucardos”. E mais: com lesbianismo, vampirismo e doses cavalares de violência – com toda certeza caída também de paraquedas. Fui fisgado pela maluquice do filme ao ler a coluna do Álvaro Pereira Júnior da Folha de São Paulo. Vou reproduzir abaixo a experiência do colunista diante dessa película. Meu alter ego estará, no ano que vem, realizando seu doutorado Sandwich no México, e só por isso eu/nós já ficamos animadissimos de assistir essa maluquice descrita minimamente pelo Álvaro Pereira Júnior. E ao final do post, um trailer dessa produção surreal e um outro vídeo com Ulises Guzmán, diretor da maluquice.

O executivo, a vampira e os fãs loucos


Não haveria a sessão de ‘Super 8’. Aquele cinema mexicano seria ocupado pelo festival Macabro


Um dentista hermafrodita e um farmacêutico suicida dividem uma obsessão: o filme de terror mexicano “Alucarda”, de 1977. Mais incomum que essas duas figuras, só o diretor do longa, Juan López Moctezuma (1932-1995). Homem de vida múltipla, locutor e programador de rádio, fanático por jazz, alto executivo da Televisa (a principal TV do México). Profissional muito bem pago, que conviveu com reis, estadistas, até com o papa João Paulo 2°.
Mas sua verdadeira paixão estava no cinema. Especificamente, na variedade mais extrema e chocante dos filmes de terror. Começou como assistente de Alejandro Jodorowsky, o Zé do Caixão da América hispânica.
Passou em seguida a dirigir suas próprias fitas e a enterrar nelas todo o dinheiro que ganhava na TV.
Ultraviolência, lesbianismo, vampirismo sádico, sexo grupal. Nada era tabu para López Moctezuma. Mas o México ultracatólico dos anos 70 não estava preparado. Moctezuma, o executivo fascinado por terror, só dirigiu fracassos.
Se a história dos parágrafos acima fosse um roteiro de ficção, receberia zero em verossimilhança. Mas é absolutamente verdadeira e está retratada em um documentário assustador, “Alucardos”. Vi domingo passado, na Cidade do México.
Como se não bastasse o conteúdo delirante do filme, as circunstâncias tornaram minha experiência ainda mais bizarra. Naquela noite, fazia muito frio e caía uma tempestade. Impossibilitado de ir muito longe, caminhei sob a chuva até um cinema ao lado do hotel. Queria ver “Super 8”, de J. J. Abrams.
O rapaz da bilheteria, provável descendente de Juan Rulfo, Octavio Paz ou algum outro gênio mexicano, disse que não haveria a sessão de “Super 8”. A sala, naquele horário, seria ocupada por um festival chamado Macabro.
“E que filme vai passar?”
“Alucardos”.
Imaginei tratar-se de algum clássico do horror asteca. Comprei o bilhete.
Dentro do cinema, constatei: o ingresso estava errado. “Super 8” passaria normalmente. Era outra sala que seria ocupada pelo festival Macabro. Mas eu já tinha mudado de “vibe” -a noite de domingo seria mesmo do terror.
Começa “Alucardos”. Não faço a menor ideia do que é aquilo. Parece um documentário, mas os personagens são bizarros demais para ser verdadeiros. Para complicar, “Alucardos” trata de um filme chamado “Alucarda”. Nomes quase iguais. Que confusão.
O ser que se apresenta como Manolo, o dentista hermafrodita, lembra o dia em que, ainda criança, subornou um porteiro de cinema para assistir “Alucarda”, uma história de vampiras lésbicas provavelmente proibida para menores de 65 anos.
A partir daí, Manolo dedica a vida a “Alucarda” (nome do filme e da personagem principal). Coleciona fotos da protagonista, Tina Romero (“a beleza perfeita”). Cobre a parede com pôsteres do filme. Pinta o quarto de preto. Não sai mais de casa.
Lalo, o farmacêutico, mostra sua coleção de centenas de facas (“o melhor amigo do homem não é o cachorro, é a faca”). Exibe os antebraços cheios de cicatrizes, consequência de inúmeras tentativas de suicídio.
Revela o trauma brutal que o marcou: o pai dele matou a mulher, mãe de Lalo, e depois forjou uma cena para simular suicídio.
De repente, Manolo e Lalo saem de cena. O foco agora está em Juan López Moctezuma. Um colaborador muito próximo conta: a cada filme, o diretor exigia mais realismo. “Se havia uma cena de orgia, era orgia de verdade; violência era violência de verdade; se um roteiro pedia um incêndio, Moctezuma mandava tocar fogo no set. Só os assassinatos não eram reais.”
Na cena principal de “Alucarda”, a protagonista caminha sozinha em meio a um incêndio. Fora de quadro, o fogo se espalha. Uma pilastra em chamas despenca e mata uma assistente. A atriz principal, desesperada, tenta fugir. O diretor não deixa. Sem desligar as câmeras, grita: “Morra! Morra!”
No fim da vida, López Moctezuma é internado pela família num hospício. Inconformados, os fãs Manolo e Lalo conseguem tirá-lo de lá. O que segue é bizarro demais para ser descrito aqui.
“Alucardos” não é o documentário mais bem editado nem com a linha narrativa mais precisa de todos os tempos. Mas o tema é fascinante. Espero que algum festival o mostre no Brasil. Em um dia frio, de muita chuva. À meia-noite, claro.

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2 pensamentos sobre “Alucardos: ultraviolência, vampirismo lésbico e a bizarrice de um documentário (?)

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