Realidade Overpower

A Revolução dos Patetas

Já gostei mais do Arnaldo Jabor. Nos últimos anos ele mergulhou de cabeça em uma série de crônicas que beiravam o estado reacionário que por tantas vezes o deixou indignado. Mas recentemente tem publicado, no Estadão, algumas excelentes crônicas e uma delas eu vou postar abaixo. A ideia é simples: Forrest Gump e Independence Day prenunciaram os EUA de hoje. E ao ler a crônica é muito difícil não concordar. Os EUA mergulham numa onda reacionária liderada pelo Tea party – que se tornou a ala ultraradical mais a Direita do Partido Republicano – que já tem rendido frutos nefastos e um deles foi o quase calote do governo estadunidense. E a coisa tende a piorar. A tendência é que aqueles e aquelas que se orientam pela via extremista de Direita busquem cada vez menos o diálogo (como ocorreu no Congresso dos EUA recentemente) e forcem uma divisão social perigosa nos EUA. E numa democracia a alternância de poder político e o respeito às instituições é fundamental para se manter de pé, minimamente, um Estado democrático. 

Mas e essa Revolução dos Patetas (Tea Party), o que pode resultar?

Pode resultar justamente num processo de esgotamento da governabilidade democrática. E neste caso, as consequências podem ser desastrosas do ponto de vista social e econômico.

Bom, abaixo segue a crônica do Arnaldo Jabor. Ótima oportunidade para se pensar como o cinema, de certa forma, é um indicador das “mentalidades”. E no caso, da mentalidade dos Patetas.


 

 

Dois filmes profetizaram o presente

Em 1996, escrevi sobre dois filmes que me arrepiaram a espinha.

Um deles foi o Forrest Gump e o outro o Independence Day, filme catástrofe-ufanista que todos viram. Foram dois sucessos internacionais e dois recados para o mundo de hoje. Não era preciso ser profeta para ver nosso triste presente nos filmes americanos dos anos 90. Relendo hoje os dois textos, vejo que as condições objetivas para a “desconstrução” do mundo atual já estavam sendo cozinhadas no fogão das bruxas. Dava para ouvi-las cantando, como em Macbeth: “Something wicked this way comes” (Coisas terríveis vêm por aí…)

Na era Clinton a sabotagem dos republicanos já estava rolando. Não deram um minuto de sossego para o homem. A cada dia inventavam uma nova sacanagem. Foram acusações imobiliárias em Whitewater, pecados em Little Rock, até que, um belo dia, caiu do céu o “boquete” fatal da Monica Lewinsky, dando chance ao promotor Kenneth Starr de liderar a campanha mais implacável que vi na vida e que hoje se consolida com a recente vitória dos “tea parties” fascistas, a Ku Klux Klan do Capitólio. Hoje já dá para ver que as administrações democratas, dos anos 60 até Clinton foram fogos-fátuos; vemos que os democratas são exceções fortuitas, pois a verdadeira América tem um DNA republicano.

Naqueles filmes, já estava inscrito o desejo psicótico desse país, que sempre teve a capacidade de se autocriticar e reformar, mas que agora talvez esteja num estágio de inexplicável autoimolação. O cinema americano sempre foi um sintoma.

Quando eu vi Forrest Gump, percebi (e escrevi) que alguém como Bush viria nos infernizar a vida. Estavam ali os sinais.

Primeiro, me espantou o infinito sucesso de Forrest Gump. Foi uma bilheteria gigantesca. Por quê? – pensei. E escrevi que aquele filme transformara 30 anos da história americana num trem de banalidades, desmoralizando as lutas românticas que a América travou nos anos 60, 70. Um raro analista do New Yorker disse: o filme “reduz o tumulto das últimas décadas a um parque temático de realidade virtual: uma versão da Disney para os baby boomers”.

É o que acho.

Forrest Gump condena os que criticaram o conformismo e o preconceito. Tudo aquilo que contestou o sonho americano, tentando aperfeiçoá-lo, é ridicularizado para impor uma suprema “sabedoria do idiota”, superior a qualquer reflexão culta ou politicamente moderna. O movimento negro foi transformado num grupo de loucos que espancam mulheres, os hippies, liderados por um Abbie Hoffman imbecil, parecem mendigos e palhaços, as liberdades sexuais conquistadas são viradas em sujas orgias pecaminosas e decadentes, os heroicos veteranos do Vietnã, aleijados e abandonados, foram retratados como detestáveis mentirosos, numa justificação sobre covardes como o Bush que, na época, vivia alcoolizado no Texas, fora da guerra, pelas graças do seu papai.

No filme, a namorada de Gump, Jenny, é punida por seus excessos, já que ela foi hippie, namorou um negro, contestou a guerra em Washington. Por isso, morre castigada por um vírus misterioso, uma clara sugestão da aids. Escrevi na época:

“Forrest Gump é o precursor do que seremos. Ele é o habitante ideal da sociedade conformista do futuro. É o idiota que venceu.” Bush, em 2004 discursou em Yale para os alunos: “Eu sou a prova de que um mau estudante pode ser presidente…!”

Gump foi lançado em 95. E, logo depois, em 96, um outro filme prefigura a América e o mundo de hoje: Independence Day – e não só ele, mas outros como Godzilla, Deep Impact, Armagedon…

Também senti um arrepio do horror: se Forrest Gump era o personagem, Independence Day criava o cenário e o contexto.

Para quem não viu, Independence Day conta a história de ET”s invadindo os Estados Unidos. Com o fim da Guerra Fria, os americanos ficaram sem inimigos claros. No imaginário de Hollywood, os inimigos passaram a ser os rebeldes e psicopatas antissociais que Gump condena ou então, no caso de Independence, os ET”s – uma clara metáfora para invasores estrangeiros. Quem seriam eles? Os chicanos, talvez, os islâmicos, os excluídos, nós – de Governador Valadares? Quem tinha ocupado o lugar dos comunistas? Em plena propaganda da “globalização liberal”, que ainda se considerava multilateral, já estava ali, visível a olho nu, o nacionalismo republicano se preparando, o protecionismo e a paranoia unilateral contra o resto do mundo.

E mais: o filme denotava um desejo inconsciente de autodestruição.

Escrevo em 96: “O filme atende aos desejos dos terroristas. (Muito antes de Osama Bin Laden agir como um cineasta de filme-catástrofe.) No filme, a América é destruída com fogo e sangue, espatifada com amor e ódio. No filme, vemos um pavoroso “delírio de ruína” misturado com um patriotismo vingativo. Os marginais e vagabundos (como os contestadores dos anos 60) vibravam na cena em que os ET”s destroem a Casa Branca”.

Quando vi Forrest Gump tive um mal-estar de que algo importante estava mudando, quando vi Independence Day tive a visão esquisita de um futuro muito torto. Senti que a barra pesaria nos Estados Unidos, vi que o Godzilla republicano já andava solto.

Aí, o 11 de Setembro chegou e disparou a nova era.

Hoje, estamos assistindo à síntese desses dois filmes sintomáticos: imbecis reacionários tomando o poder contra o Barack Obama (“negro comunista com nome islâmico que tem de ser destruído”) e as receitas econômicas que enfiaram na goela do presidente negro, que são o contrário do necessário – fórmulas que levarão os Estados Unidos a uma derrocada maior do que a que Bush conseguiu na imagem do país. Forrest Gumps destroem o país como em Independence Day.

Agora, sinto medo e depressão. A ficção virou realidade? Ou será o contrário?

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