Literatura de Ficção Científica

Resenha com Cointreau: Metrô 2033

A literatura de ficção científica meio que se especializou em descrever “realidades alternativas apocalípticas”. E fez isso muito bem e talvez seu maior exemplo, do ponto de vista de um escritor referência, é Philip K. Dick. Por lembrar do cenário literário “K.dickiano” – me remetendo ao livro de Philip K. Dick intitulado “A Penúltima Verdade” – me aproximei, na livraria, de um livro chamado “Metrô 2033” de Dmitry Glukhovsky, pela Editora Planeta.

Como disse, Dmitry Glukhovsky em “Metrô 2033” acompanha o lado pessimista da literatura de Sci Fi: temos um mundo – ao menos a Rússia – assolado pela destruição radioativa e a superfície é agora dominada por estranhas criaturas. Neste mundo não há espaço, ao menos na superfície, para seres humanos. Todos os sobreviventes mudaram-se para o subterrâneo, devido a alta radioatividade da superfície, e passaram a viver  – ou sobreviver, dependendo fortemente do ponto de vista – tão somente no metrô moscovita.

Ainda assim os sobreviventes reproduziram nas estações do metrô a realidade da superfície. Para bem e para mal. Um dos méritos do livro – para quem não mora em Moscou, mas até tem uma vontade de conhecer a cidade – é a forma como Dmitry Glukhovsky conduz a trama a percorrer as estações do Metrô como se não apenas ele, mas também o leitor conhecesse minimamente os locais que perfazem um dos mais antigos metrôs do mundo (e talvez a rede mais extensa ainda hoje). Ler os capítulos do livro obriga quase que imediatamente dar uma olhada no mapa do metrô com cada Estação. É um mérito para a editora Planeta publicar esse mapa para situar o leitor na trama. Dmitry Glukhovsky constrói sua trama em cima de um clima de tensões diversas e uma delas é a política. Neste metrô que é o último refúgio dessa humanidade há uma verdadeira fauna política. Comunistas, “democratas”, fascistas, comerciantes, estações independentes, etc. As principais “estações políticas” são a Hansa e a “Linha Vermelha”, mas há Polis (uma interessante adaptação russa do sistema de castas da Índia) e o Quarto Reich (sim, os herdeiros de Hitler são presentes com sua sempre estúpida e torpe visão da realidade). Essa riqueza de coletividades políticas e ideológicas, somada a necessidade imagética de pensar aquela mundo metroviário, imprime uma vontade contínua de não parar de ler. E foi o que aconteceu comigo.

Moscou 2033

Dmitry Glukhovsky aos passos e letras dos primeiros capítulos nos apresenta essa nova realidade e os perigos que existem nela através de Artyom, jovem morador da estação WDNCh. É ele que é incubido por um “caçador” de levar uma mensagem à Polis. E para tanto, Artyom precisa atravessar várias e várias estações do metrô. E é nesse ponto que reside o aspecto aventura do livro. Artyom percorre as estações passando por inúmeros perigos, alguns com maior ou menor grau de intensidade. Esse mundo metroviário de Dmitry Glukhovsky é um mundo onde o medo de percorrer os túneis do metrô está no dia a dia (embora a noção de dia e noite sejam mais do que nunca artificiais) de cada pessoa sobrevivente. Um medo que muitas vezes têm nome e rosto e, na maior parte, diz respeito aos “demônios” que atormentam os humanos de algumas estações. E Artyom é um daqueles que temem os “demônios” e o “fraqueje” em sua meta, embora sinta que algo o apoia e o impele pela sua jornada, “forçando-o” a completar e se deparar com o desconhecido, através de sonhos ou de experiências alucinatórias (?).

Mapa do metrô 2033

É o desconhecido que aterroriza a todos e a todas nas estações, que permite crenças novas e a retomada de velhas crenças metafísicas. Artyom até percorre esses caminhos, ideológicos ou religiosos (ou ambos), mas não consegue lhes creditar algo. É difícil acreditar em alguma divindade quando o mundo é um buraco como aquele, literalmente falando. E com o passar das páginas do livro esse desespero é compartilhado pelo (a) leitor (a). E as passagens de Artyom pela superfície só aumentam essa sensação, ainda mais ao se contatar os mutantes. Sim, fiquei imaginando e muito esse mundo radioativo e seus herdeiros. Até mesmo “pterodátilos” existiriam nesse mundo, além, claro, dos elementos “sobrenaturais” que infligem dúvidas e mais dúvidas à Artyom e aos leitores já conscientes do medo – o medo novamente criando ou sendo criado pelo desconhecido?

Outro mérito de Dmitry Glukhovsky em “Metrô 2033” é permitir ao leitor adaptar-se ao instinto de sobrevivência que existe disseminado em todos e todas das estações do metrô, mas e quando esse instinto de sobrevivência nos leva a mais amarga e terrível derrota? Essa me pergunta me assolou, como assolou Artyom, ao completar a leitura do livro, espantando-me da natural dicotomia bem e mal que seria muito mais fácil de ser incorporada. E a ficção científica, através da literatura especialmente, nos cansou de ofertar questões espinhosas como essa.

Dmitry Glukhovsky ganhou o “Encouragement Award” da European Science Fiction Society por “Metrô 2033” e acredito que esse prêmio seja merecido. “Metrô 2033” é uma bela leitura para @s fãs de ficção científica, mas para fãs de uma boa literatura.

METRO 2033

Formato: Livro

Autor: GLUKHOVSKY, DMITRY

Editora: PLANETA DO BRASIL

Assunto: LITERATURA ESTRANGEIRA – FICÇÃO CIENTÍFICA

R$39,90 na Livraria Cultura. Para comprar clique aqui.

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