Literatura

Resenha Com Cointreau: Pornopopéia de Reinaldo Moraes

Numa escala de 0 a 10 eu acho que o Zeca, personagem escroto e tragicômico criado por Reinaldo Moraes para o livro Pornopopéia, merecia uma nota 11 ou 12. Acho que, na verdade, todo o livro e todas as personagens que perpassam as páginas do romance épico e “pornopopópico”têm direito a uma nota tão elevada. E só digo isso com tanta segurança porque devorei as páginas de Pornopopéia com a mesma satisfação com que leio as obras do depravado escritor Rubem Fonseca.

Pornopopéia é o típico livro que a pessoa que gosta de ler necessita reunir uma certa coragem para adentrar no emaranhado alucinante que a literatura de Reinaldo Moraes não apenas propõe, mas deixa a primeira e segundas mãos, bocas, pés e bundas. A história é épica porque a vida pode ser épica, no bom e no mau sentido – ainda que nada desse bom e mau tenha algo a ver com o maniqueísmo barato de programas religiosos que perduram nas madrugadas das redes de TV aberta. Zeca, o tragicômico protagonista do livro, é um fracassado no mais sórdido e verdadeiro sentido da palavra “fracassado”. E é extasiante percorrer com a personagem todos os percalços (e são vários) retumbantes que o momento de sua vida retratado (mas nunca é apenas um momento de verdade, é tudo ali, jogado ao leitor e leitora, esporrado na cara com um sorriso podre e sem algum dente perdido num buteco da vida) oferece. Aceitar ultrapassar o primeiro capítulo de Pornopopéia é mergulhar de verdade no que existe de mais podre e escabroso a vida literária pode oferecer a@s amantes da literatura. E entendam, leitores e leitoras do Cabaré das Ideias, vale a pena demais ultrapassar o primeiro capítulo do livro, mas o risco das risadas e das revoltas e das desilusões e das indiferenças e risadas e revoltas, etc. continuará num ciclo, bem parecido com o ciclo de sexo, drogas e experiências escabrosas que Zeca tem a oferecer ao mundo e a@s leitores e leitoras.

Vida boa hem, Reinaldo Moraes!

A longa jornada rumo ao buraco de Zeca (não apenas no sentido figurativo, ressalto) é permeado de situação não apenas realisticamente tétricas, mas surreais. Criar (ou enrolar a criação) vídeos institucionais para suprir a necessidade de grana – já que a carreira de cineasta é um fracasso e só serve para se aproximar das mulheres e jogar o bom e velho “caô” ou “conversa mole pra boi dormir”ou, se preferir, a enrolação básica –  e, mais do que isso, tentar se manter vivo de verdade na famosa fase da vida que o sujeito se aproxima cada vez mais rápido do “cabo da boa esperança” é o que mantém Zeca em ritmo alucinante e constante: “cheira um teco, toma uma cerveja, pensa numa putaria com alguma mulher, fuma um baseado, pensa em foder a colegial deliciosa (em sua opinião) que surge e lhe atormenta e voltar a cheirar mais um teco”. É isso. É o ciclo da vida de Zeca. Filho ou Esposa? Empresa? Na boa, nada importa de verdade. E foda-se, caso importe.

Quanto mais Zeca se perde em enrascadas e idiotices (que ele próprio reconhece), mais engraçada fica a situação. Zeca não consegue ficar sem uma mulher por perto lhe dando sexo e atenção. E também não consegue ficar sem cheirar cocaína de maneira alucinada e incrementada a tudo aquilo que deve fazer e sabe que não vai fazer mesmo. Por essas que Zeca, embora se estrepe na vida enquanto personagem, mais cativa e impõe a vontade de ler, ler e ler mais o livro até que acabe de uma vez e você, leitor e leitora, fique satisfeito em saber que até o “buceto” vai ter sua hora, ainda que de maneira bem surreal (ou quase real, como preferirem).

A narração de Reinaldo Moraes é perfeita para aquilo que propõe: conhecer uma etada da vida da porra de um sujeito que não vale nada, mas aproveita bem a vida. Os diálogos e monólogos do livro são equilibrados, engraçados e cheios de sarcasmo conosco, leitores e leitoras. Só por isso o livro já merecia ganhar uma sequência de prêmios literários.

Pornopopéia me fez rir demais. Seja pelo “Zebu”, o “Buceto” ou a totalidade de escabrosidade literária divertida que estão nas páginas do livro. Caso queira conhecer um pouco mais sobre a obra e o autor Reinaldo Moraes clique aqui para ler uma entrevista do autor. Para comprar o livro basta clicar aqui.

PORNOPOPEIA (LIVRO DE BOLSO)

Formato: Livro

Autor: MORAES, REINALDO

Editora: PONTO DE LEITURA

Assunto: LITERATURA BRASILEIRA – ROMANCES

R$23,90 (valor no site da Livraria Cultura)

Leia e aventure-se pelas primeiras páginas desse delírio permeado de sexo, cocaína e tragicomédia do livro de Reinaldo Moraes e publicado pela Editora Objetiva.


Parte I

<1>

Vai, senta o rabo sujo nessa porra de cadeira giratória emperrada e trabalha, trabalha, fiadaputa. Taí o computinha zumbindo na sua frente. Vai, mano, põe na tua cabeça ferrada duma vez por todas: roteiro de vídeo institucional. Não é cinema, não é epopéia, não é arte. É – repita comigo – vídeo institucional. Pra ganhar o pão, babaca. E o pó. E a breja. E a brenfa. É cine-sabujice empresarial mesmo, e tá acabado. Cê tá careca de fazer essas merdas. Então, faz, e não enche o saco. Porra, tu roda até pornô de quinta pro Silas, aquele escroto do caralho, vai ter agora “bloqueio criativo” por causa dum institucionalzinho de merda? Faça-me o favor.

Ok, chega de papo. É só dirigir a porra da tua mente pra nova linha de embutidos de frango da Granja Itaquerambu. Podia ser qualquer outro tema, os cristais de Maurício de Nassau, a cavalgada das Valquírias, a vingança dos baobás contra o Pequeno Príncipe. Que diferença faz? Pensa que são os embutidos de frango do Nassau, a cavalgada das mortadelas, a vingança dos salsichões contra o Pequeno Salame. Pensa no target do vídeo: seres humanos a quem coube o karma nesta encarnação de vender no atacado os produtos da Itaquerambu.

Pensa no evento em que o teu vídeo vai passar – vários eventos, aliás, todos no mesmo dia em todas as filiais do Brasil. Os seres humanos vendedores de embutidos verão teu vídeo e serão apresentados ao salsichão, ao salame e até à mortadela de frango, heresias saudáveis em matéria de junkyfood que a Itaquerambu vai lançar no mercado. Mesmo a tradicional salsicha e a insuperável lingüiça de frango vão ser relançadas com outra formulação, segundo eles dizem. Quer dizer, em vez do jornal reciclado de praxe, os putos vão adicionar algum tipo de pasta de lixo orgânico pasteurizado na mistura, imagino, mais uma contribuição da Itaquerambu para um planeta sustentável.

Porra, mas eu sou cineasta, caralho. Artista. Não nasci pra rodar vídeo institucional.

E de embutidos de frango, inda por cima, caceta!

Calma, calma. Pensa que o teu vídeo será visto “de Passo Fundo a Quixeramobim, do Rio de Janeiro a Corumbá”, como disse o Zuba, ao sentir minha reação pouco eufórica diante do tema. “E capricha na linguagem brasileira universal, tá?”, foi o que ele me pediu, como se linguagem brasileira universal fosse uma das opções do Final Draft ou do Magic Screen Writer. Você clica em LBU e seu texto será entendido nos pampas, serrados, praias, selvas, semi-áridos e caatingas do país, sem contar os aglomerados urbanos e seus múltiplos guetos. Teu único filme de cinema até agora, por exemplo, nunca passou em tantos lugares ao mesmo tempo. Na caatinga, por exemplo, nunca foi visto. Não que se saiba.

Volto a perguntar: qual a diferença entre arte e embutidos de frango? Ou melhor: por que embutidos de frango não podem se transformar em arte?

Mas não precisa pensar nisso agora, nem em merda nenhuma que não seja frango embutido. Faz logo essa porra, porra. É bico: oito minutos de duração, um curta-metragem. Não vai matar o artista que há em você, amice. Ou havia. Ou nunca houve nem haverá. Foda-se.

É isso aí: vídeo institucional, embutidos de frango, Granja Itaquerambu. Beleza.

O que fode é o prazo. Sempre a porra do prazo. Tá ligado que esse roteiro tem que estar escrito, aprovado, rodado, entregue em mídia DVCAM, e exibido pros vendedores até 15 dias antes do lançamento da campanha na mídia? Ou seja, daqui a nove dias. Você devia ter chamado um bosta dum roteirista qualquer pra te ajudar, desses que filam cigarro e cerveja de mesa em mesa na Merça e não perdem chance de puxar uma lousa e dar aula sobre Hal Hartley e a narrativa cinematográfica interior aos substratos descontínuos da consciência dos personagens pra alguma gostosinha basbaque de peitinhos soltos dentro de uma camiseta de pano fino. Conheço vários roteiristas desse naipe. Dúzias deles, na verdade. Tudo uma corja de bebum cafungueiro desempregado du caraio. Por uma peteca de pó e duas Original você contrata na hora um deles. Se calhar, o infeliz ainda leva teu carro no mecânico pra trocar a fricção e te faz o obséquio de encarar uma fila de banco pra pagar tuas contas atrasadas.

Bullshit. Não preciso, nunca precisei de roteirista nenhum. Merda por merda, deixa que eu mesmo chuto. Só que dessa vez travei geral. E o cara da Itaquerambu tá no pé do Zuba, que tá no meu pé, que tô em pé de guerra com os embutidos de frango. Ridículo, isso. Fala sério: nem uma réles ideiazinha pro vídeo pintou ainda na tua cabeça, meu filho. Nem a porra duma idéia de merda.

Pois é, nem a idéia.

Tá foda.

Embutidos de frango.

Foda.

As peças da campanha publicitária que eles vão lançar já estão prontas. Tive a honra de assistir às pérolas numa sessão privê lá na agência. Comovente. “Mais saúde, menos colesterol, mais sabor. Mais do melhor para toda a sua família!”, proclama a locução em off do spot de 15 segundos pra TV e rádio que vai ao ar no horário nobre. Vou ter que usar alguns desses slogans no institucional. O débil mental do publicitário que bolou isso deve tá rodando agora num Land Rover zerinho, blindado, ao lado duma patricinha escultural no máximo 25 anos mais velha que o carro, os dois lindos, esculpidos na academia, com os intestinos repletos de fibras vegetais e substâncias antioxidantes e ácidos graxos insaturados, surfando confiantes na crista do futuro, sugando o melhor do presente, cagando e andando pro passado.

Mais do melhor pra sua família.

Vão se fuder.

Meu negócio não é publicidade. Antes fosse. Na publicidade é que rola a bufunfa. Já rolou mais. Ainda rola alguma. Mas você tem que ser um gênio da raça e bolar slogans nada menos que sublimes, como esse Mais saúde, menos colesterol, mais sabor…

(Porra, tu é uma anta mesmo. Em vez de cavar um lugarzinho numa agência quando teve a chance, foi se meter com cinema, e marginal inda por cima.
Acabou no pornô e nessa bosta mole de vídeo institucional, o gonococus aureus da porra do cavalo land rover do publicitário. Agora foda-se, mermão. Embutidos de frango. Se concentra aí e manda vê, falô?)

Mandaram abrir e fechar o vídeo com a frase cunhada pelo diretor-presidente em pessoa, mote de toda a campanha: “Itaquerambu: os embutidos do século 21!” O cara do marketing endógeno e a diretora de relações institucionais repisaram mil vezes que a frase “sintetiza o conceito da nossa nova linha de produtos”. Conceito? Conceito é o rabo deles. “Itaquerambu: os embutidos do século 21!” Pode uma platitude dessas sintetizar algum conceito? Vão tomar no ânus conceitual deles.

Se bem que, pensando bem, é um puta mantra budista essa frase. Capaz de induzir ao esvaziamento da mente, à levitação do espírito, ao cancelamento do ego, ao franqueamento de todos os portais da percepção, à náusea, ao vômito, ao aniquilamento do ser, à morte em vida severina.

Pronto. Já desabafou?

Legal. Agora, centra o foco nos embutidos de frango. Lingüiça e salsicha de frango, salame de frango, salsichão de frango, mortadela de frango. Itaquerambu, os embutidos do século 21. Vídeo institucional. Mais do melhor pra toda a sua família. Uma idéia. Roteiro. Cachê. Vida prática.

Taqueopariu.

Desembutido de mim, embotado estou. Virei mal o século e pior ainda o milênio. Tô ficando grisalho. Pançudo. Mais bêbado e zoado que nunca. Cético, cínico, hipócrita a não poder mais.

Mas, e a Samayana ontem? E a Sossô? A Sossô… Puta merda. Só de pensar na Sossô já me/

Embutidos de frango. Institucional. Zuba. Itaquerambu. Deadline.

Não dá.

Dá, tem que dar.

Não dá!

Dá!

Tem que dar. Já estourei um segundo prazo negociado na porrada com o Zuba, que por sua vez o renegociou a tiros com o cliente. Caralho, por que tantos clientes e embutidos de frango nesse mundo de Deus, santo Deus? Quando furei o primeiro prazo, o Zuba quis me matar. Se eu furar de novo, ele vai me matar. O Zuba prefere perder uma bola do saco a furar o deadline acertado com o cliente, esse deus do Olimpo – da Vila Olímpia, no caso, vigésimo andar de uma torre de metal brilhante e vidro espelhado numa travessa da Berrini, de onde avistei pela janela selada o quadrilátero de grama da Hípica Paulista, ao entrar na sala de reunião. Era a Hípica lá embaixo, mas não tinha nenhum cavalo à vista.

“Cadê os cavalos?”, eu disse em voz alta pro diretor de marketing endógeno ouvir. Ele tinha acabado de sentar à mesa.

“Que cavalos?”, o cara respondeu.

“Lá embaixo, na Hípica”, apontei.

O cara expirou sua má vontade pelo nariz e se levantou pra vir até a janela dar uma olhada, enquanto os demais se acomodavam em torno da mesa de reunião. Olhou pra baixo, olhou pra mim.

“É, não tem cavalo. Qual o problema?”

Eu não sabia o que responder. Pra mim era óbvio que havia um problema ali. Uma hípica sem cavalos? Como era possível um diretor de marketing endógeno não ver problema nisso? Só porque se tratava de um problema exógeno?

Foi aí que uma garota de calça bege de montaria, paletozinho preto, rabode- cavalo loiro esguichando do quepe preto de aba curta, com um baita cavalo entre as pernas, cruzou a galope o gramado, na diagonal. De longe era bonita. De perto devia ser rica. O cavalo tinha o mesmo rabo empinado que ela.

“Olha lá! Um cavalo!”, berrei.

Achando que pegaria bem estabelecer algum tipo de cumplicidade machista com o diretor de marketing endógeno, agreguei no ouvido dele:

“Fogosa, né? A égua, digo.”

Não sei que réplica ele teria dado a esse comentário se o Zuba não tivesse me puxado pelo braço e me jogado numa cadeira, brincando de levar o aluno irrequieto ao seu lugar.

“Vem cá, Zequinha, senta aqui, senta? A reunião já começou, garoto”, ele disse, com um sorriso e um olhar que escancaravam o subtexto: “E vê se cala essa boca, animal!

O Zuba. Por conta de muitos prazos estourados e do meu “comportamento instável diante dos clientes”, o Zuba tinha jurado nunca mais me chamar pra porra de job nenhum “na puta dessa vida”. Não sei bem por quê, o idiota não cumpriu a promessa e, meses depois, me ligou perguntando se eu queria pegar um trabalho. Eu quero é grana, mas às vezes sou obrigado a trabalhar pra conseguir o desgraçado do metal vilão. Ele começou explicando que o job tinha o meu “perfil criativo”. Como o meu perfil criativo anda sem um puto no bolso, topei a bagaça no escuro. Antes de me brifar, e de concordar com pesada relutância em me adiantar dois paus do bolso dele, o Zuba frisou umas setecentas e trinta e oito vezes:

“Fica esperto dessa vez, Zeca. Nada de pirar nas reuniões, tá? E se liga no deadline. É tua última chance comigo”, me ameaçou ao telefone.

“Tô ligado na linha do morto”, eu disse. “Fica frio.”

Ouvi uma bufada do outro lado. Minhas subgags já não fazem mais sucesso com o Zuba como antigamente. Minha última chance. Já tive outras últimas chances com o Zuba. E também com a Lia, por falar nisso.

A Lia. Não dou as caras desde ontem. Deve tá puta comigo, claro. Mas não é nenhum fim do mundo. Sempre parece que é, mas acaba não sendo o fim do mundo. Já com o Zuba, sei não. Acho que o cara perdeu de vez a paciência comigo. Ele não é minha mulher, não tem filho comigo, não se deixa impressionar pelos meus olhos azuis, não conhece meus predicados viris. É só o filhadaputa do intermediário que me chama pra fabricar vídeos institucionais pros clientes dele, acenando com orçamentos ridículos que me deixam margens de lucro próximas do zero absoluto. Cuzão, esse Zuba.

Vídeo institucional. O meu coração é só de Jesus, a minha alegria são os embutidos de frango da Granja Itaquerambu. Tu só tira o rabo sujo dessa cadeira giratória que não gira sobre rodinhas que não rodam quando tiver esse roteiro pronto e enviado pro Zuba.

Falô?

E aquela garota a cavalo na Hípica? Tesãozinho sobre quatro patas. Queria eu ser o bem aventurado a chupar aquela xaninha recém-desmontada da sela. Houyhnhnm!

Sexo, grana. Vídeo institucional. Embutidos de frango.

Em vez de perder tempo escrevendo essas inanidades, tu já devia estar acabando o roteiro da Itaquerambu. Logo mais estaria em casa com a Lia e o Pedrinho. Vida em família. Mais do melhor. O Zuba ficaria feliz, a diretora de relações institucionais ficaria feliz. O diretor de marketing endógeno ficaria feliz. Os frangos da Itaquerambu ficariam felizes.

Mais do melhor pra sua família.

Caralho.

O que tá pegando é esse oco na cabeça que sempre me acomete depois duma viagem de ácido. É um oco diferente dessa vez, como uma série de ôcos embutidos um dentro do outro, até o oco nuclear infinitesimal onde se abriga o vazio compacto da alma inexistente.

A alma, como se sabe, é um organismo arcaico com três órgãos: miolos, estômago e genitália. Nenhum deles, no meu caso, quer saber de embutido de frango. Sem condições. Pau no cu da Itaquerambu, reiteram em rima pobre as três instâncias da minhalma rastaqüera que me pariu.

Amanhã, sabadão, esse roteiro tem que tá na mão dos caras. Tem que tá, tem que tá. O endógeno e a magrela vão ler a porra no fim de semana e discutir por telefone ou internet, entre eles e com o Zuba. Os itaquerambus, aliás, já avisaram o Zuba de que não querem mais falar direto comigo. Mas é certo que vão encher o saco com reparos “conceituais”, mil sugestões e o cacete. E vou ter que passar a noite de domingo e a madrugada de segunda refazendo a bagaça, reenviando, refazendo, reenviando, até o OK final, que deve acontecer na noite de segunda ou manhã de terça. Daí, com o roteiro aprovado, dou o start na produção, e na própria terça, mais tardar na quarta, começo a captar as imagens, com o fantasma do deadline no meu pé. Se a porra não ficar pronta no prazo, o dead me enforca na line dele.

Por isso, te apruma e trabaia, vagabundo. Pensa o seguinte: e se em vez de fazedor de vídeo institucional você fosse o cara que é obrigado a assistir a essa porra? Um vendedor da Itaquerambu, digamos. Caralho, acho que me matava se tivesse que percorrer supermercados e açougues e armazéns pelos brasis afora vendendo embutidos pra sobreviver. “Bom dia, amigo, já conhece a nova e revolucionária linha de embutidos de frango da Itaquerambu?
Sua freguesia vai adorar. A propaganda tá bombando na tevê. É lucro certo, amigo.”

Tá louco. Embutia um teco de chumbo na mioleira, que nem diz o Nissim, e um abraço.

Portanto, vamo lá, minha gente, embutidos de frango. Yes. Tá tudo aqui no catálogo da Itaquerambu. Ó só o salsichão de frango que beleza. Com ou sem alho. Tremendo pirocão, curtido no rabo da diretora de relações institucionais.
Ou no do diretor de marketing exógeno.

“Uma festa para o paladar, um refresco para as coronárias”, diz outro slogan da campanha.

Caraca, não foi pra isso que eu li Rimbaud. J’ai horreur de tous les métiers.

Aquela última reunião na Itaquerambu lá na Vila Olímpia foi o suprasumo da sacalidade corporativa. Fiquei filando a diretora de relações institucionais, tipinha magrela, 38, 40 anos, loira tingida, cabelo espantado a gel, alta, cara comprida atrás dos óculos estreitos a lhe afiar a navalha das retinas. Toda pose, a fulana, tailleur moderno, cor de aurora boreal em Júpiter. A saia do tailleur, curta, exibia razoável centimetragem de suas pernas granfinórias embaladas em meias pretas de náilon, pés magros enfiados em sapatos de bico fino e salto agulha. A mulher fazia dobradinha inquisitorial com o babaca do marketing endógeno, um pelintra pós-pósyuppie com um iPhone na mesa à sua frente. Os dois, atuando em dupla de vôlei de praia, se compraziam em rebater cada idéia que eu e o Zuba, os caras da “criação”, sacávamos na mesa. O atendimento da agência de publicidade, um gordinho de camisa roxa e uma inacreditável gravata amarela, que tinha chamado o Zuba pro job, olhava da dupla de clientes pra nós, e de nós pra dupla de clientes, com aquela cara de coala sorridente dele, como quem assiste a uma partida de tênis. Pelo menos não metia o bedelho nas discussões. Ele não podia discordar dos caras da Itaquerambu, fonte da nossa grana, nem do Zuba, escolha dele para o job, nem de mim, escolha do Zuba.

O papo ali era foco no cliente, agregar valor, sinergia, comunicação integrada, trade marketing, upscaling, benchmarking, opportunity scanning e o caralhaquatring. Levemente cheirado e fumado – sempre dou uns pegas e uns tirinhos no carro antes das reuniões -, eu boiava naquele patuá barbárico. Fico dois, três meses sem pegar um job, e quando volto à ativa já não entendo metade do que esses caras falam, tão rápido se renova a porra do marquetês. Uma hora lá, pra marcar presença, sugeri um slogan que tinha acabado de me vir à testa: “Porco só dá chabu. Peça Itaquerambu – o embutido do frango bidu.”

Ninguém deu mostras de apreciar a excepcional sonoridade do meu mote, tão superior ao pífio “Itaquerambu, os embutidos do século 21”, que nem rimar rima. O marqueteiro endógeno lembrou que eles também produzem e comercializam os tradicionais embutidos de porco, campeoníssimos no mercado.
Ou seja, porco também é bidu, na visão deles.

“Não podemos estigmatizar o porco”, reforçou a diretora anoréxica, sem esconder seu extremo enfado por ter que me explicar uma obviedade dessas. Retruquei no tom mais simpático que pude arrancar dos confins das minhas tripas:

“Longe de mim estigmatizar o porco, gente. Tô ligado que o porco é o melhor amigo do homem, muito mais que o cachorro. E que o frango também, se for ver, né? Quer dizer, numas. Quer dizer…”

Vi que o Zuba tinha se posto um tanto pálido de repente. Os demais se remexeram em seus assentos, como se acometidos por uma crise conjunta de hemorróidas. Arrematei:

“Eu, por exemplo, adoro uma lingüicinha torrada. Pernil, então, nem se fala. Cuma breja bem gelada, sai de baixo!”

A diretora tentou me fatiar com seu olhar horizontal. O Zuba com toda certeza pensou em furar minha jugular com a Mont Blanc que fazia girar entre os dedos feito uma ginasta olímpica. Limitou-se, contudo, a comentar que eu não precisava me preocupar com slogans nem conceitos, que isso era com a publicidade, com o marketing, com os diretores da Itaquerambu ali presentes, e que, quanto à rima, ninguém estava tentando fazer poesia nem mesmo publicidade.
A diretora, com sua voz de franga desossada, acrescentou que, de mim, eles só queriam o vídeo, “mais nada”. O Zuba se apressou em explicar que eu às vezes exagerava um pouco na criatividade, mas que ninguém ali se preocupasse, “o Zeca é o mó craque, tudo vai dar certo, de modo que vamo em frente, né?”

O Zuba estava certo. Tendo mesmo ao overacting nas reuniões com os clientes, falo dez vezes mais do que ouço, solto piadelhas infames e mudo de assunto com facilidade espantosa. “Só fala, esse menino. Fazer que é bom, não faz nada.” Esse era um dos bordões prediletos do velho a meu respeito.
Com meu irmão era o contrário: “Não abre mais a boca, o Rubens? Quê que tá acontecendo? Teve derrame, desaprendeu a falar?” O véio também estava certo.
Tava tudo errado ali. Acho que estava. Sei lá, certo ou errado, ele já morreu.
Meu irmão também, levando com ele as palavras que nunca falou.

Lá na reunião, consegui pelo menos manter restrito ao meu gabinete craniano outro slogan genial que me ocorreu: “Embutidos Itaquerambu – um refresco para o seu cu.” Achei tão bom que me pus a rir sozinho, o que não deve ter ajudado muito a melhorar minha imagem no pedaço.

Quando a reunião acabou, o Zuba me olhava torto, o diretor de marketing endógeno da Itaquerambu olhava mais torto ainda pro Zuba, a diretora de relações institucionais olhava de esguelha pro diretor de marketing endógeno e pro atendimento da agência, que, por sua vez, olhava fixo pra sua Mont Blanc – só dá Mont Blanc nessas reuniões – que ele amaciava nos dedos como se fosse um charuto.

Job é foda, cara. Meu reino por um blowjob.

Nas despedidas, lembrei de dizer que, segundo o meu dicionário tupi-guarani, do Padre A. Lemos Barbosa, Itaquerambu queria dizer “pedra que ronca dormindo”. Não sei se a turma deu muito crédito a essa informação, verdadeira, aliás.

“Pedra que ronca dormindo. Não é lindo, isso?”, eu disse.

Depois de um silêncio que já ia apodrecendo de tão prolongado, e de uma nova troca de olhares inamistosos, o homem do marketing endógeno da Granja da Pedra que Ronca Dormindo nos conduziu até os elevadores. Na ante-sala, a secretária loira não estava na mesa dela. A secretária morena estava. Pena, a loira era bem mais gostosa. Diante dos elevadores, e sem olhar pra mim, o diretor de marketing endógeno cobrou do Zuba mais “objetividade” na condução do job. Mais objetividade, no caso, significava dar um pé na minha bunda e escalar alguém menos transtornado da cabeça pra fazer o trabalho.

Ô vida escrota do caralho.

Tenho a madrugada pela frente. Municiei-me dos secos e molhados necessários pra escrever essa merda. Embutidos de frango. Paga um pouco melhor que dirigir pornô, em todo caso. Só que hoje não tô conseguindo arregimentar um contingente mínimo de neurônios pra encarar o batente. Nem cheirando toda a cocaína dos Andes e do Buraco Quente. Tá foda. Todos os meus dias, se for ver, andam foda, às vezes no bom sentido. Uma fodinha aqui, outra ali. Pelo menos isso. Ontem, então, foi foda que não acabava mais. Preciso dar baixa nisso, de algum jeito – o jeito mais à mão: escrevendo. Contar duma vez por todas o que rolou lá na Samayana. Senão já vi que esse roteiro dos embutidos não sai nem a pau. Nunca tinha sentido antes tamanha compulsão de botar o recém-vivido no papel antes que tudo se esfumace na memória. Fora que eu posso muito bem tirar um belo roteiro de longa dessa história. Acho que, por causa do ácido, minha memória do vendaval de eventos de ontem tá surreal de tão nítida. Lembro de tudo que todo mundo fez e disse, em detalhes microscópicos. Cenários, volumes, cores, odores, climas, palavras, cacoetes, tá tudo aqui no meu hard-disk cabeludo. O presente virou um telão onde o passado recentíssimo se projeta sem parar em alta definição. Chega a ser aflitivo isso, provável sintoma de alguma síndrome com nome moderninho – transtorno de recognição compulsiva pós-vivencial, TRCPV -, passível de ser tratada com algum tarja-preta de última geração a 300 paus a caixa com doze comprimidos.

Mas, e os embutidos de frango? Granja Itaquerambu. Século 21. Mais do melhor pra porra da sua família idiota.

Tô fudido.

O primeiro portuga que botou os pés nestas plagas, todo sarnento, sifilítico, diarréico, subnutrido, botulínico, também tava fudido. E, porra, olha lá, isso pode dar mote pro roteiro dos embutidos: náufrago esquelético, exausto e morto de fome vai dar numa praia deserta. De repente, o cara se vê cercado por uma tribo de belos e belas jovens de corpo sarado. É conduzido sob a mira de lanças e flechas prum banquete onde ele teme vir a ser o prato principal.

Mas não: chegando lá, o náufrago é recebido de braços abertos pelo velho cacique, tipo rijo e desempenado, apesar da idade avançadíssima, que o convida a traçar as fabulosas iguarias do banquete, às quais, como ele faz questão de ressaltar, todos na tribo devem a exuberante saúde de seus lindos corpos.
E adivinha se as iguarias não são os embutidos de frango da Itaquerambu. Aí é só ir apresentando cada produto, um por um, nas mãos e na boca de cada membro da tribo, homens, mulheres, jovens, velhos e crianças. Mais do melhor pra toda a sua tribo.

No final, um helicóptero de salvamento sobrevoa a aldeia. Estão buscando o náufrago, que corre a se esconder na maloca. Ele não quer ser achado. Está feliz ali, cercado pelas nativas e pelos embutidos de frango – uma delícia, eles e elas.

Tão tá. Vamo nessa. Habemus idéia. Agora, é só escrever essa porra. Mas quem vai escrever? Eu, claro. Quem mais? Você é que não vai. Nem vós, nem eles. Mas o problema, insisto, é que eu não estou aqui-agora. Minha cabeça – minhas duas cabeças ainda não saíram do templo da Samayana. Será que ninguém aqui entende isso, porra?

Aliás, com quem eu tô falando aqui – porra? Até esse minuto tava achando que você era eu mesmo, como sempre. Mas me veio agora uma idéia maluca sobre a sua possível identidade. Nem quero especular muito sobre isso agora pra não bagunçar mais ainda o meu coreto psíquico. Mas é uma idéia interessante que o meu cérebro fabricou pra se entreter um pouco consigo mesmo enquanto não se decide a encarar os embutidos. Se der certo, tiro um filme da história de ontem na Samayana, e você, um livro. Não esquenta com isso agora, em todo caso. Continua lendo. Ou não. Cê que sabe. Por ora, só preciso de um ouvinte – um qualquer você, que poderá ou não ser você.

Que fome de cinema, cacete. Que fome de mulher também, agora e sempre. A Samayana, por exemplo. Sábia sensualíssima egressa das brumas brâmanes da Índia milenar, embora tenha nascido na Alta Sorocabana, numa fazenda em Anastácio, como reza aqui o fôlder do Centro Bhagadhagadhoga. Que alma imensa, que corpo acolhedor. Nem te conto.

Nem te conto o cacete. Porra, se não conto. Já comecei a contar, aliás. Mas isso aqui não é pra ser conto nem romance. Digamos que seja um pré-roteiro de cinema. A história começa lá no templo da Samayana, no porão pra ser mais preciso. Quer dizer, começar começou nessa minha sala mesmo quando o Ingo chegou aqui no fim da tarde de ontem e pôs em marcha as engrenagens do destino, como ele mesmo diz a cada três minutos. Porque foi ele quem me levou pra conhecer a Samayana. E a Sossô foi junto. Eu tinha acabado de conhecer a Sossô, uma santinha do pau oco de deixar qualquer um com o pau recheado de sangue. O Ingo é o Ingo: citarista, poeta e vagau assumido, praticante do ócio meditativo e da mais serena junkeria, meu amigo aleatório, “fã de Jimi Hendrix, Jim Morrison, Jean Seberg, Jim das Selvas, molho Jimmy, Jeannie é um Gênio, gim tônica, ginasianas de meias três-quartos e das Gymnopedies do Satie”, como ele adora se definir num jorro perdigótico-aliterativo.

Agora, voltando a você, começa a me seduzir cada vez mais a idéia de estar aqui de papo contigo, pra valer, ainda que papo assincrônico. Me pergunto se você viu ou pelo menos ouviu falar do meu primeiro e até hoje único longa, o Holisticofrenia. Fudidão, cara. Ganhou prêmio na Colômbia. Posso te mandar um DVD. Ou não. Esquece. Fica aí criando ácaros na sua biblioteca que eu, do meu lado, vou tentando faturar o roteirinho da Itaquerambu até o fim dessa noite cachorra. Dez, doze páginas, no máximo, de pura cascata bajulo-corporativa, tentando amarrar os “conceitos” da empresa dentro dessa merreca de orçamento, e ponto final. Qualquer protozoário paralítico é capaz de escrever um troço desse. Vou partir daquela idéia do náufrago na ilha, os selvagens, o banquete de embutidos de frango, e tal. Putidéia. Só tem um probleminha: a verba da produção não dá pra rodar nem meia seqüência da putidéia. Magina: praia deserta, dezenas de modelos, homens, mulheres e crianças, caracterizados de índio, tomadas de helicóptero. Nem fudendo.

Estaca zero.

<2>

Caraca, a porra do meu coração começou a dar uns pinotes de novo. Sentimentos espaventados frigindo na chapa quente da consciência. O velho des26 conforto patafísico de ser e estar em mim. Mas se eu fosse um outro qualquer, tenho certeza que o filhadaputa seria ainda pior que o meu atual mim mesmo.

Batata. E estaria também às voltas com qualquer merda assemelhada a embutidos de frango pra levantar uma grana.

Falando nos embutidos, tá começando a me bater uma certa larica, com pó e tudo. É que essa farinha do Miro é uma merda e o fumo é du bão. O tetrahidrocanabinol acaba prevalecendo sobre os alcalóides hiperbatizados, de modo que você pode encher o cu de pó e na seqüência traçar uma feijoada, na boa.

Além disso, aquele sensacional bacon com ovos da Terezinha que eu mandei hoje à tarde já era no meu estômago lavado de cerveja e shots de Jack Daniel’s, que tem essa fama toda mas não passa dum pingão desgraçado como qualquer outro. Se a Terezinha estivesse aqui, eu bem que mandava a minha secretária japa sapecar mais uma rodada de bacon & eggs na frigideira. Tesão. O bacon, não a Terezinha, que você não conhece nem faria questão de conhecer, te asseguro.

(Mas acho que vai acabar conhecendo, dum jeito ou de outro.) Cacete, começo a divagar. E já que comecei, continuo. Me agrada cada vez mais a idéia de sacar um roteiro de cinema daquela zoeirada de ontem no porão milenar. E é pra já. Assim elimino esse ruído da cabeça e abro espaço pra quantos embutidos de frango couberem lá dentro. Será um filme sem trama explícita, sem hitchcockadas suspensóides. Vou só encadear os fatos, um depois do outro, e pronto. Não tenho mais gosto por esse arsenal de ganchos que visam deixar o espectador pendurado pelo saco na fornalha da ansiedade.

Faz tempo que não tenho, aliás. Basta ver o Holisticofrenia, que rodei há uns 10 anos, sem recorrer a verba oficial, ou renúncia fiscal, nem porra nenhuma do tipo. O pouco que gastei veio do bolso do cunhadão. A única renúncia no filme foi à lógica. Simplesmente, catei a minha Sonynha digital, chamei meia dúzia de malucos que não estavam fazendo picas naqueles dias e saí filmando por aí. Quase não editei nada. Só cortei as seqüências nas pontas, pra não ficar um troço de 10 horas de duração. Virou uma enxurrada de “imagens em desespero celebrando o caos da vida”, como apregoava o cartaz do filme.

Nada de culpas corrosivas nem de castigos iminentes em cinemascope. Nada de quase nada, aliás.

Do Hitchcock só roubarei agora a idéia que ele usou em Rope de paralelizar o tempo de filmagem com o tempo narrativo e o tempo “real”. Mas, ao contrário do gordão charuteiro, vou cravar essa proeza fora de estúdio, com duas equipes, uma de filmagem, outra de produção. Enquanto a equipe A roda uma seqüência numa locação, a equipe B produz a próxima seqüência na locação seguinte. Daí a equipe A segue o personagem-pivô da história até lá, filma a nova cena, e assim por delante. Não tem como uma idéia dessas não ficar ge-ni-al. Não tem também como arranjar dinheiro pra realizá-la. Não aqui pela minha produtora, pelo menos. Duvido que o Leco vá abrir a burra de novo pra financiar um novo filme meu. Mas vou dar um jeito de “entrar na lei”, levo um lero com Madame AAA, assalto a rede de lojas de conveniência do meu cunhado, dou um jeito. Se tudo der certo, vai sair mais um “delírio poético pré-lógico”, como um crítico se referiu ao Holisticofrenia, o mesmo cabra, aliás, que apontou a “monomania solipsista exacerbada” da minha obra máxima e até agora única no luminoso horizonte da sétima arte, por supuesto. Não vou nem dizer o nome do filho da puta do crítico. Cuzão de Abreu, digamos.

Monomania solipsista. Delírio pré-lógico. Tomá no cu.

Falando em pré-lógico, acabei de pegar uma peteca com o Miro. Tava precisando sair dessa lucidez de rodapé que me azucrina, me anula, me seca a medula – be-bop-a-lula. Um pozinho chuta o pensamento pro alto e é de lei pra quem precisa varar a noite escrevendo roteiro de embutido de frango.

Liguei pro Miro e em menos de meia hora ele tava aqui na frente do prédio se anunciando com as buzinadinhas bandeirosas de praxe. Traficante que buzina na porta do cliente é o fim da picada. Não é à toa que o desgraçado já foi preso meia dúzia de vezes. Por que ele não bota logo um alto-falante na capota do carro, como o cara das pamonhas? “Olha lá freguesia! Cocaína fresquinha dos Andes!”

Vi por uma fresta da veneziana basculante que o Miro tinha vindo dessa vez com um Corsa preto de quatro portas equipado com um ridículo aerofólio na traseira. Das últimas vezes, que eu me lembre, era um Fiat Uno vermelho- desbotado. O modesto burocrata que tirou esse Corsa num consórcio e cometeu a imprudência de estacionar a jóia num trecho escuro duma rua de pouco movimento – na Vila Madalena, aposto -, com centenas de prestações por pagar, tá agora a pé ou de ônibus, sonhando com um esquadrão da morte específico pra ladrão de carro. Dois Corsas pretos na minha vida num espaço de 24 horas: esse do Miro, de hoje, e o de ontem, da Sossô, idênticos, com exceção do aerofólio absurdo. Coincidência pífia, mas coincidência. Sou desses panacas que ficam encanados com coincidências, buscam analogias do arco da velha, augúrios, agouros, não sossegam enquanto não extraem algum sentido dos eventos aleatórios. Dois Corsas pretos. Sinal de alguma coisa – além de que a GM andou vendendo Corsa preto pra caralho nos últimos anos.

Saí da produtora, passei pelo Adermilson, o porteiro da noite que tinha acabado de chegar pro turno das corujas, e ganhei a calçada, coração batucando de ansiedade pré-cocaínica, rumo ao Corsa preto do meu Messias particular em eterno e cotidiano retorno, descontados os períodos que ele passa em cana ou sumido da praça, quando, então, me vejo obrigado a acionar algum outro dos milhares de vaporetos em atividade aqui em Nasópolis.

O Miro tinha estacionado do outro lado da rua, que é de mão única, debaixo de uma árvore, a roda esquerda da frente escalando uma entrada de garagem em aclive acentuado, estreitando a passagem dos pedestres na calçada. A mulata loira e popozuda que estava do lado dele, de jeans e sandália de salto alto, saiu do carro pra se meter no banco de trás, junto com outras duas gurias. O Miro ultimamente deu de aparecer acompanhado por um séquito variável de meninas brancas, morenas ou negras, muito jovens todas elas, uma ou outra de menor, aposto. Até onde eu sei, ele continua casado. A mulher do cara é uma escrava, nada menos.

Conheci a coitada quando fui com o Nissim pegar pó na casa do Miro uma vez, faz tempo. Era num prédio da Amaral Gurgel, “segundo travesti à direita, pra quem vem da Jaguaribe”, como ele gostava de especificar. Nem posso dizer que conheci a mulher, que só vi de relance. Mas deu pra sacar que era lindinha de cara, e alta, uns puta peitão, grávida na época e rodeada de uma penca de crianças com graus variáveis de morenice. Deve ter sido bem gostosa antes de se casar com aquele megatraste branquelo e detonar uma miniexplosão demográfica naquele apê de quarto e sala. Diz o Nissim que a mulher do Miro foi passista da Vai-Vai antes de cometer a burrice de se juntar com o figura. Agora, obedecia calada aos comandos do maridão:

“Tira essas criança daqui, porra.”

“Vai comprar cerveja e cigarro. E vê se não demora, porra.”

“Cadê o isqueiro, porra?”

Deve ter sido treinada naquele mutismo servil à base de muita porrada, a pobre da ex-passista. Não me lembro de ter ouvido o Miro pronunciar o nome dela durante todo o tempo em que estivemos lá. Ela mesma deve ter esquecido o próprio nome. Devia achar que seu nome agora era Porra. Dona Porra. O Nissim, íntimo da casa, cumprimentou a “comadre” com dois beijinhos secos de bochecha. Tá louco, o Nissim. Eu não tive coragem nem de olhar direito pra ela, quanto mais de dar beijinho. Vai saber o que se passa na cabeça dum marginal com uma capivara da altura dele no fórum criminal e um berro sempre à mão em algum lugar.

Abri a porta do passageiro e entrei no Corsa. O assento ainda guardava o calor da bunda autêntica da falsa loira. As três girls cochichavam aos risos e gritinhos atrás da gente. Não olhei nem dei boa-noite pra nenhuma delas. Em se tratando do Miro, mais vale seguir a regra magna dos presídios de jamais olhar pras mulheres dos companheiros durante as visitas. Nem pra mãe. Nem pra avó.

Falando ao celular, o Miro me ofereceu um aperto de mão convencional.

Ele odeia que venham cumprimentá-lo com toques rituais de mano, se o cara não for um mano autêntico. Uns dez anos atrás, quando comecei a pegar pó com ele, o Miro ainda exibia uma notória boa-pinta cafajeste, capaz de atrair passistas esculturais, entre outras beldades de todas as classes sociais.

Os olhos verdes ajudavam bem nisso, herança italiana por parte de pai. Duns anos pra cá deu pra engordar, o desgraçado. Anda com uns camisões largos e coloridos de gângster cubano em Miami pra disfarçar a pança – e um eventual berro.

Naquela época a gente ligava pro bipe e deixava recado pra ele retornar. O maluco ligava de volta, ou não ligava, era imprevisível, e marcava o “aponto” num bar da Pompéia. Aparecia a pé, sempre meio encardido. Acho que passava dias e noites com a mesma roupa, sem teto ou banho. Olhar sempre vidrado, de pó e manguaça. A certa altura, de crack também. Você nunca via de onde ele vinha. De repente, o cara brotava do chão ao teu lado. Daí, grana vai, peteca vem, e, de repente, cadê o Miro? O diabo já tinha se desmineralizado e, de volta à nave internarcótica, se abalava pra outra galáxia fissurada a uma velocidade hipertraficônica.

Numa de suas longas sumidas, fiquei sabendo que ele tinha assaltado um hotel do centrão junto com uma puta, operação que terminou com o gerente ferido a bala. Depois de dois anos preso, um freguês dele, advogado, conseguiu descolar uma condicional. O Miro chegou a morar com essa puta do assalto, se não me engano. Me lembro duma quitinete lúgubre na alameda Glete, no coração dos Campos Elíseos, onde eu e o Nissim fomos pegar pó numa noite gelada de agosto. Com o único elevador quebrado, tivemos que encarar treze andares de escada com um vento encanado de congelar cu de pingüim. Por sorte não encontramos nenhum cadáver putrefato pelo caminho, só baratas.

Eu não faria isso de subir treze andares gelados de treme-treme nem pela mais bela puta da putandade, mas fiz pela cocaína. Não cheguei a conhecer a então madame Miro, que devia estar manobrando umas pirocas na rua pra sustentar o ócio e os vícios do salafra.

Teve uma época que ele marcava os apontos em botecos do centrão, sempre por volta de nove da noite. Tinha dado alguma treta na Pompéia e ele precisou se mandar de lá. A transação agora rolava pela Rego Freitas, Amaral 30 Gurgel, Cesário Motta, Marquês de Itu, Major Sertório. A gente ficava tomando cerveja até o Miro dar as caras, durante meia hora, uma hora, até duas horas já esperei o Miro, frigindo na fissura, com a boca do lixo em volta fervendo de putaria, polícia e crime.

O Miro já nasceu traficante. Posso ver o Mirinho baby passando as primeiras petequinhas pros colegas de berçário, sob a vista complacente de uma enfermeira subornada ou seduzida por ele. Como todo traficante, o Miro se aproveita até o último fiapo do poder que exerce sobre a clientela fissurada. Ele adora seu papel de ansiado das gentes, trazendo mais uma vez a peteca divina, a salvação em pó, o acesso rápido aos portais do nirvana dopamínico em troca de grana viva e, não raro, algum afago sexual da parte de algumas consumidoras mais cheias de gratidão e amor pra dar. Só eu conheço umas duas.

Uma vez, emprestei pra ele o vídeo do Holisticofrenia, movido pela estúpida generosidade cocaínica. Dias depois encontro o mala no Bitch:

“E aí, Mirão? Viu?”

“Viu o quê?”, retrucou, invocado, como se eu me referisse a uma treta qualquer que não era pra eu saber que ele tinha visto.

“O filme.”

“Que filme?”

“O meu filme.”

“Seu filme?”

“Meu filme.”

“Cê fez um filme, maluco?”

“Fiz.”

“Já estreou?”

“Já.”

“Quando? Nem me convidou.”

“Faz uma cara que estreou, Mirão. Te emprestei o vídeo outro dia.”

“Ah, é?”

“É. Viu?”

“Não.”

“Tudo bem, quando der cê vê. E me devolve.”

“O quê?”

“O vídeo.”

E ficou por isso mesmo.

(…)

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2 pensamentos sobre “Resenha Com Cointreau: Pornopopéia de Reinaldo Moraes

  1. putz, eu tou tendo uma dificuldade imensa pra atravessar as dunas de Pó do livro, papo de droga nesse nível prum cara careta como eu é osso; o que salva é o incrivel talento do autor para passar pro papel a lingua falada e os clichés propositais, tirações de sarro com o leitor e toda intertextualidade que elevam ele acima de uma leitura de sacanagem qualquer.

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    • Leonardo, o Pornopopéia tem essa capacidade de exigir de nós, leitores e leitoras, um esforço mesmo pra encarar toda essa odisséia lisérgica pornográfica banhada em vícios (sexo e drogas elevados à milésima potência), mas vale a pena porque é um texto divertido, acima de tudo. Li o “Tanto Faz & Abacaxi” e tem a mesma pegada. Em ambos fiquei rindo sózinho de tanta merda e pensamento escroto e divertido.

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