Literatura

A Poesia (que me transtorna) de Arnaldo Antunes

Não sou muito fã de poesia. Na verdade, não consigo entender poesia (e consigo entender menos ainda os musicais) – com a excessão da poesia que seja musicada, por exemplo “Rosa de Hiroshima” escrita pelo Vinícius de Moraes e cantada divinamente pelo Ney Matogrosso no Seco & Molhados. Já tive vergonha de dizer essa minha “deficiência cultural”, mas o tempo vai passando e aumenta-se a barriga de chopp e a falta de vergonha. Embora saiba que Carlos Drummond de Andrade, Pablo Neruda, Florbela Espanca,Vinícius de Moraes, Cora Coralina, Fernando Pessoa, William Blake,  sejam poetas magníficos e transcendentes não me lembro, realmente, de muitas de suas poesias que tenham me atingido diretamente no espírito. E por poucas dessas poesias me atingirem no espírito como um tiro direto no peito (porque poesia tem de atingir direto no peito e se possível também na cabeça, ao menos comigo), fiquei, ao longo dos anos, acreditando piamente nessa “deficiência cultural”.

Rosa de Hiroshima

Vinicius de Moraes

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa, sem nada

Mas a vida de um leitor voraz prega peças. E uma das “peças pregadas” foi conhecer a poesia de Arnaldo Antunes. O ex-Titã já escrevia “poesias musicadas” no auge dos Titãs. Na verdade, todas as suas letras são verdadeiras poesias, algo comum às bandas da década de 1980, como a Legião Urbana e Barão Vermelho, com os respectivos poetas, cantores e acima de tudo artistas – Renato Russo e Cazuza. Mas quando conheci a poesia (sem música) de Arnaldo Antunes (lá pelos anos 1990) tomei um susto, na verdade um terrível impacto mental.

As poesias de Arnaldo Antunes, publicadas em “Psias” e “Tudos”, eram uma bomba literária que explodiram na minha cabeça. Não conseguia entender nada daquelas poesias. Nem sabia se seriam poesias. Sério. No início fiquei atordoado com os poemas, meio revoltado mesmo. Já conhecia as experimentações modernistas no Brasil e também não me disseram nada, mas ao abrir “Psias” fiquei completamente sem chão. Foi o tiro poético que me acertou em cheio tanto na cabeça quanto no coração. Revoltado com aquelas duas obras literárias, sem conseguir entender nada, mas ainda assim sofrendo os efeitos quase lisérgicos dos poemas. Li e reli esses dois livros. Nunca me cansei de ler mesmo sem entender nada. Com o tempo descobri que era minha porção racionalista hard que causava isso e, então, transferi essa parcela de minh’alma (diria @ poeta) para meu alter ego e estão felizes. Mas eu tive de me virar com os poemas de Arnaldo Antunes. O site do poeta pode ser acessado aqui.

Por mais de dez anos esse poema de Arnaldo Antunes me assombrou:

A rosa se rosa

A rosa rosa

Arroz

Alucinado com esse poema, passei a declamá-lo em momentos de embriaguez nas festas da saudosa “Mansão Wayne” em Cuiabá e em todo lugar que eu tivesse oportunidade e não-oportunidade. Até sarais cheguei a participar ativamente só para poder recitar esses poemas. Durante um evento literário na Universidade Federal de São Carlos o poeta Arnaldo Antunes veio debater com o público. Enquanto as pessoas ficavam de enrolação perguntando que autores o inspiravam, o que ele sugeria a outr@s poetas, etc. quando tive oportunidade de perguntar, transmiti minha angústia por aquele poema da Rosa e do Arroz. Porra, tomei coragem e disse que o poema me perseguia, que eu nao conseguia entender nada dele, mas mesmo assim ele fazia parte mesmo da minah vida e blá blá blá. Ao que me lembro ele curtiu muito minha “intervenção” e disse que a intenção era algo assim, não necessariamente deixar o leitor ou a leitora pertubados, mas aconteceu comigo.

Segue outro poema:

Algo no mar

Alga

Alga na mar

Ou então esse outro poema:

um assunto se tem
ou não se tem um
sentimento nunca
foi um bom assunto
um cimento sim
com piche em cima
mas um peixe
embaixo só é bom
assunto se me procura
mas não acho.

Voltei a ficar pertubado. Estou tomando um vinho neste momento e acho que vou declamar aos ventos o restante dos poemas. E seja o que a Força permitir. Abaixo um vídeo que o poeta declama alguns poemas. Genial, mas ainda assim não entendo nada.

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2 pensamentos sobre “A Poesia (que me transtorna) de Arnaldo Antunes

  1. Aproximamo-nos do entendimento à medida que distanciamo-nos do sentir. Pra sentir, tem que ouvir mais e pensar menos. Não é a sintaxe que importa, mas deixar a alma livre pra receber aquilo e ver que efeitos são gerados. O que nasce daí. =]

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