Literatura de Ficção Científica

Alguns Sonhos Elétricos em Blade Runner

Drawn portrait of Philip K Dick

Philip K Dick

Sou fã de Philip K. Dick. Já escrevi outros posts – como Experenciando Metafísica na Literatura de Philip K. Dick: muito além de um caçador de andróides – para o Cabaré das Ideias e para o Ao SugoTomando uma Malzebier com o Homem do Castelo Alto  – tratando das obras deste autor, reconhecendo minha profunda admiração por sua literatura e foi graças ao Zé Mário (cientista político e fã de HQ e Blade Runner) que decidi escrever um post sobre Blade Runner – o caçador de andróides (Do Android Dream of Electric Sheep?) de Philip K. Dick, marco na literatura de ficção científica mundial. Mas não apenas dela, mas da literatura em geral. Neste post o foco não será a tradicional abordagem cyberpunk em Do Android Dream of Electric Sheep?, mas o foco será um pouco interdependente e não-usual para os apreciadores da obra (e também do filme de Ridley Scott): a importância dos aspectos visíveis e ocultos da ecologia e da democracia no conteúdo da obra. Do Android Dream of Electric Sheep? acompanha uma onda “presciente” que caracteriza a ficção científica e, em especial, outro autor clássico da Ficção Científica: Frank Herbert. Ambos se caracterizam por incorporar os aspectos ecológicos, políticos e econômicos não apenas como um ambiente amorfo e coadjuvante, mas como elementos essenciais para a compreensão devida de suas histórias.

E escolhi três elementos que transitam entre o ausente e o presente na obra de Philip K. Dick: a ecologia, a política e o mistério da senciência. Mas porque considerar essa dualidade entre o visível e o oculto para poder analisar esse clássico de Philip K. Dick (e de tabela o filme de Ridley Scott)? Porque, como já havia dito, Philip K. Dick toma o ambiente quase como uma extensão da introspecção de seus personagens, seja Rick Deckard, Luba Luft ou Roy Battes. Embora Philip K. Dick não tenha a intenção de descrever cenários, como o fazem tão bem Tolkien (na literatura de fantasia) ou Frank Herbert (na própria literatura de ficção científica), K. Dick em Do Android Dream of Electric Sheep? traz a ambiência quase como uma carga psicológica aos personagens. A ausência de animais (em processo de uma verdadeira devastação biológica) no mundo de Do Android Dream of Electric Sheep? é o eixo central da angústia que cerca Deckard, mas não só ele. Humanos e apenas humanos povoam a Terra devastada pela Guerra Mundial Terminus. A herança maldita dessa guerra é a deterioração ecológica do planeta e a necessidade de fuga: a capacidade de suporte da Terra se esgotou graças às ações humanas. Marte já é uma realidade para a populaçãp da Terra, uma realidade como lar, mas para lá apenas os “qualificados” poderiam se “re-naturalizar”. Portanto, nada de deficientes, quaisquer que sejam, nesse novo lar. É a vitória da seleção artificial (longe de natural, muito longe).

Deckard vive em um mundo que não permite esperança. Permite apenas a certeza de que a vida passará. A solidão que existe não está apenas na interação vazia entre os terrestres que aqui ficaram, no caso, na cinzenta Califórnia, mas a solidão também está na massacrante certeza de que a extinção das outras espécies extinguiu, talvez de vez, a parcela restante que havia entre a humanidade e a natureza. Ainda que existam “ovelhas, carneiros, cavalos e cães elétricos” (incapazes de sonhar, pergunto-me, ainda que sejam capazes de morrer?) não existe mais o tradicional bio, mas outra coisa. Que também desperta a empatia. Ah, empatia, o que é? E quem a detém? Apenas nós humanos ou todos os seres senscientes?

A personagem Luba Luft responde essa pergunta ao angustiado Deckard, caçador de andróides – profissão desonrada como ele mesmo o sabe e sua esposa reforça. Portanto, que honra existe em caçar seres sencientes, sejam humanos ou andróides? Talvez essa discussão sobre a senciência disposta no livro (e o respeito que devemos ter por todos os seres sencientes)  deva sua profundidade à experiência com a leitura de Textos Budistas, como o Dhammapada. E a ética para esses seres? Ah, ética! Nada resta de espaço para ela. Ou não? Talvez Luba Luft, a melhor personagem do livro – em minha opinião – tenha despertado de verdade essa dúvida em Deckard. Mas Deckard, neste momento de sua existência (literária, que seja!) é um caçador de andróides. Mas ainda que seja, a consciência de sua falha humana (caçar seres sencientes) não passa desapercebida. É o custo que aceita pagar para recuperar um pouco do passado anterior a Guerra Mundial Terminus.

Os personagens em Do Android Dream of Electric Sheep? encontram-se, também, num mundo ausente de Estado. Não há Estado algum. O governo é uma entidade tão distante e indiferente que parece uma divindade dorminhoca. A ideologia que perpassa a obra é simples: Estado mínimo ou poderia dizer Nano Estado? Diferentemente de outras de suas obras, em Do Android Dream of Electric Sheep? Philip K. Dick não busca trabalhar a interação entre o indivíduo e o governo (sempre opressor). É como se os poderes públicos tivessem se privatizado na essência: não há espaço para deliberação. Tudo está entregue às Corporações. E como Corporações elas almejam apenas o lucro a seus acionistas. Nada mais. Elas podem te despachar deste mundo cinzento – pelo preço certo e sob as circunstâncias genéticas corretas. E não há muito a se fazer contra essa política.

Não existe espaço para deliberação, como havia dito. E muito menos a ampliação dos direitos civis. No caso, Philip K. Dick deixa em sua obra uma impressão de que em mundos assomados pela desesperança, direitos civis são luxos. Se as instituições políticas estão tão fragilizadas, que regras devem guiar o jogo? Uma boa pergunta. Talvez a livre iniciativa (uma ironia neste caso, reforço). Ou a fundamentalização religiosa. Ela é um fantasma presente que se alimenta da desesperança, tentando oferecer aos desesperançados uma oportunidade de sonhar. Mas qual o preço? Philip K. Dick é amargo quanto a isso. Provou na mente e na carne os excessões quando a metafísica invade a percepção de mundo e altera a forma como se vê, se escuta, se sente e interage com o mundo.

E como mudar, portanto, este mundo?

A resposta não está neste livro. E talvez nem tenha sido a intenção de Philip K. Dick outorgar alguma. E como definir em uma palavara toda essa obra? Talvez o grande conceito por trás do livro seja: adaptação. É o que os personagens melhor fazem. E quanto ao título do livro, Do Android Dream of Electric Sheep?, a resposta para essa pergunta é sim.  Porque não seria?

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