Literatura

Resenha com Cointreau: Os Versos Satânicos de Salman Rushdie

Salman Rushdie presenting his book Shalimar th...

Salman Rushdie

Já se passaram mais de 15 anos desde que comprei meu exemplar de Os Versos Satânicos, de autoria de Salman Rushdie, publicado pela Companhia das Letras. Fama o livro e o autor tinham. Afinal, o falecido Aiatolah Khomeini, Guia Supremo da Teodemocracia Iraniana (teo + democracia = contradição em termos? acho que sim, mas vamos lá!) havia emitido uma fatwa (decreto religioso muçulmano) instigando todo muçulmano e muçulmana devotos a, digamos, eliminar aquele sujeito e, de tabela se fosse possível, queimar um exemplar de Os Versos Satânicos. Era uma outra época e, enquanto Salman Rushdie tornava-se um outsider para se proteger de fundamentalistas religiosos, muita coisa aconteceu: o Aiatolah Khomeini faleceu, George W. Bush ascendeu ao poder junto de toda sua turma de falcões republicanos petrodependentes e Salman Rushdie sobreviveu, viajou muito (inclusive para o Brasil) e publicou muitas outras obras tão boas ou melhores que Os Versos Satânicos, como “O Último Suspiro do Mouro” – talvez o meu preferido (ainda mantenho sérias dúvidas literárias).

Mas é preciso voltar: ainda um garoto, embabasquei com a premissa da história: dois atores indianos sofrem de um processo de metamorfose (que deixaria Kafka orgulhoso) que os transformam, respectivamente, em anjo (Gibreel Farishta) e diabo (Saladin Chamcha), metáforas perfeitas da identidade cada vez mais diluída – não importa sua nacionalidade. As personagens representam um conflito cada vez mais comum que assola pessoas de comunidades na diáspora: que identidade “aderir”? Ou como conciliar identidades aparentemente contraditórias? Salman Rushdie apresenta essas e outras questões num emaranhado de delírio delicioso (talvez o que mais tenha me cativado então garoto), permeado de questões políticas e, claro, religiosas. Sim, religiosas, caso contrário não seriam Os Versos Satânicos e sim “Os Versos Constitucionais”. Salman Rushdie é um secularista acima de tudo. E sua arte, a escrita, obedece seu espírito. Neste livro, o autor indiano (nascido em Mumbai, Índia) retoma a história pessoal do Profeta Muhammadd e tenta, de forma bem livre, lhe outorgar uma humanização (baseada na capacidade de errar) que enfureceu clérigos muçulmanos, sunitas ou xiitas. Os Versos Satânicos são um erro na história do Islã, mas do ponto de vista teológico nenhuma culpa coube ao Profeta, mas para Rushdie qualquer livro sagrado é passível de erro e o Corão não seria diferente, particularmente o ponto que causou o furor que resultou na fatwa.

Todo esse “pano de fundo” dos versos satânicos (experenciado através de um delírio) chama a atenção, claro, do leitor e da leitora de Os Versos Satânicos – o livro. Mas é o desenvolvimento das personagens que mais chama a atenção de verdade: vaidade exarcebada de um arcanjo, título de Gibreel, voz de D’us e horror e vergonha de Chamcha, condenado aos cascos da oposição e do confronto. A transformação das personalidades através do delírio (enxergarem-se como anjo e diabo e se confrontarem) é concomitante às mudanças sociais que não param, continuam a ocorrer página após página da obra. E só faz com que o leitor e a leitora fique mais e mais fascinado por essa obra nascida da vontade de reapropriar sentidos e mapear, através dos conflitos internos e externos a tod@s nós, a pergunta mais elementar que a literatura pode oferecer aos leitores e leitoras: quem sou eu? quando sou eu?

Ficou curios@? Experimente entrar neste real e surreal mundo que Salman Rushdie construiu e decida, por si próprio, se a fatwa foi “merecida” por tão excelente obra – a única fatwa merecida é de que mais e mais obras literárias sejam produzidas pelo mundo e que a arte seja uma porta para a liberdade – em qualquer das suas formas, anjo ou diabo. Para comprar o livro clique aqui.

VERSOS SATANICOS, OS – EDIÇAO DE BOLSO 

Coleção: COMPANHIA DE BOLSO

Autor: RUSHDIE, SALMAN

Tradutor: DURSAN, MISAEL H.

Editora: COMPANHIA DE BOLSO

 

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