Cinema e afins

Resenha com Cointreau: π (Pi) de Darren Aronofsky

O que é π? O número irracional que representa razão constante da divisão entre uma circunferência e o diâmetro correspondente, com o valor aproximado de 3,14159265.  Sua representação é possível por uma dizima infinita não periódica que, hoje em dia, com o auxílio de sofisticados softwares e algoritmos computacionais, pode atingir as centenas de milhões de casas decimais, podendo atingir, acreditem, mais de 51.539.600.000 casas decimais. Complicado? Uma “abstração” completa?  Pois é. (Pi) π – é o primeiro grande trabalho do diretor Darren Aronofsky, datado do ano de 1998. Sua complexa, tensa e espetacular cinebiografia inicia-se com esse sofisticado e pertubador filme. A premissa é “simples”: Max (Sean Gullette), um matemático judeu-americano, vive em Manhattan, escondido do mundo e buscando, a todo e qualquer custo (inclusive de sua sanidade), descobrir o número completo de π, afinal, a matemática estava em tudo ao nosso redor: na natureza, na economia, etc. Padrões poderiam ser encontrados em todos os lugares e π estava lá. A tarefa de “enfrentar” esse desafio não é simples e terminou levando seu professor e “único” contato humano ao derrame e, então, a abandonar completamente a mesma busca e passar a apreciar peixes e a tranquilidade da aposentadoria. E, no caso de Max, a busca pelo número completo de π vai aos poucos devorando sua sanidade e transportando-o para um mundo de paranóia, desespero e inúmeros remédios para controlar as dores excruciantes em sua cabeça.

Darren Aronofsky só consegue deixar perfeito (sim, me arrisco tranquilamente em afirmar isto!) o ritmo alucinante de π pela mastria da trilha sonora do inglês Clint Mansell (ex-guitarrista e vocalista da banda Pop Will Eat Itself) que viria a se tornar seu parceiros por vários outros de seus filmes, como Requiem Para um Sonho (Requiem for a Dream, 2000), Fonte da Vida (The Fountain, 2006), O Lutador (The Wrestler, 2008) e Cisne Negro (Black Swan, 2010). Clint Manssel imprime, através de uma sonoridade alucinante, um processo que representa o transtorno obssessivo-compulsivo não apenas de Max, mas do telespectador que ousa se permitir adentrar no obscuro universo da Matemática quase metafísica que Max experiencia. Escutar We Got A Gun e não ter vontade de arrancar a cabeça (no sentido figurativo) me é particularmente estranho, mais estranho que Max desejar descobrir o número completo de π.

Mas descobrir o precioso número completo de π revela-se muito mais profundo para duas expressões religiosas que passam a cercar Max: a primeira relacionada a Kabbalah (קנוניה), ramo teofilosófico e místico do Judaísmo Rabínico, que busca descobrir, através das “entrelinhas” da Torah, a realidade oculta outorgada pelo Et’rno e disposta a qualquer um que queira entendê-la. Mas acreditem, já estudei muito mesmo o Sefer Yetzirá entre outros textos cabalísticos e a coisa demanda muito esforço, embora relembre com nostalgia de noites e noites viradas na base de café estudando a Kabbalah, menos no Shabat, claro; a outra “expressão religiosa” é o sistema financeiro de Wall Street, desejoso de um verdadeiro “mapa do caminho” para “louvar” com mais ardor sua divindade: o dinheiro.

O filme de Darren Aronofsky apresenta-nos essa realidade que a descoberta de Max pode trazer ao mundo, embora o destino dessa descoberta (o π ) possa ser aplicado de uma forma ou de outra pelos interessados: Max pelo prazer da descoberta intelectual, os cabalistas pela descoberta da “porta para o Éden” e os agentes do sistema financeiro pela possiblidade de prever as ações do Mercado e lucrar ainda mais. A jornada de Max é permeada de paranóia, mas eu pergunto: em que medida tudo aquilo é paranóia? As ideias podem chegar ao ponto de criarem pés na nossa realidade através de nossa mente e do nosso sangue que, no final das contas, é o que mantém nossa vida?

Obviamente Max fica num fogo cerrado, mas seu adversário principal é sua própria mente. E a direção certeira de Aronofsky e a trilha sonora pertubadora de Mansell possibilitam compartilhar da agonia e extase do protagonista. Inclusive, muito do mérito (fotografia, direção, edição, trilha sonora) de Requiem para um Sonho já está em π e, de certa forma, é uma “continuação” direta, embora envolvendo outra trama e contexto.

Darren Aronofsky

π (Pi) de Darren Aronofsky é um filme para colecionadores. Sua direção é “nervosa”, parece que a lente do espectador é a visão tremida de Max: gente estranha te vendo, te analisando, te perseguindo, só resta você ir atrás e saber, afinal de contas, o que está acontecendo com a porra do mundo e da sua cabeça. O que tem nela? Qual o peso de uma ideia, de um conceito? Como extrair uma ideia de sua cabeça? π (Pi) de Darren Aronofsky deve ser visto mais e mais vezes para aqueles e aquelas que apreciam o melhor do cinema recente que, na minha opinião, tem em Darren Aronofsky um dos seus cinco maiores diretores. Para aqueles e aquelas que ainda não assistiram esse filme e apreciaram sua pertubadora trama narrativa, direção e trilha sonora preparem-se para uma verdadeira singularidade cinematográfica.

Abaixo acrescentei, diretamente do querido e útil Youtube, algumas das músicas do filme π (Pi). Escutem e apreciem sem moderação alguma.

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Um pensamento sobre “Resenha com Cointreau: π (Pi) de Darren Aronofsky

  1. achei demais esse filme… o lance da sequência numérica que faz com a q a máquina se torne consciente de si mesma é genial demais!
    excelente sugestão!

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