História em Quadrinhos

Do Estadão: Amor é coisa que está no gibi

Gostei demais dessa matéria e da temática do livro que a mesma tratou: Splish! Splash! Os Enamorados dos Quadrinhos (Editorial Kalaco, 176 pág., R$ 34,90). Provavelmente vai ser uma próxima aquisição. A curiosidade, ao menos, foi bem desperta. Enquanto escrevo este parágrafo de introdução da resenha do Estadão feita por Jotabê Medeiros, observo minha action figure da Catwoman solitária e com um olhar malicioso na minha direção.

“Qualquer maneira de amor vale a pena, diz a clássica canção de Milton Nascimento e Fernando Brant. Nos quadrinhos, apesar do moralismo sazonal, essa máxima prevaleceu em toda sua amplitude. É o que mostra um livro que está desembarcando nas livrarias na próxima semana: Splish! Splash! Os Enamorados dos Quadrinhos (Editorial Kalaco, 176 pág., R$ 34,90), o mais vigoroso levantamento historiográfico de como o amor se desenvolveu nos gibis, da batcaverna à toca do Pernalonga, do futurismo seiscentista de Barbarella ao pós-apocalipse de Druuna.

O Casamento do Fantasma

Para um fã, é um painel fascinante. O livro mostra, por exemplo, como Ranxerox e Lubna, personagens dos italianos Tamburini e Liberatore, deram novos contornos à expressão “objeto sexual”. Revisita o amor lésbico de Hopey e Maggie em Love & Rockets. Analisa Fred e Dafne, o casal travado de Scooby-Doo. Todos os casais das HQs são examinados nessa terapia grupal: Conan, o Bárbaro, e Valéria, a guerreira. Batman e Mulher-Gato. Jean Grey e Ciclope (ou Wolverine). Arqueiro e Canário. Flash Gordon e Dale Arden. O Sombra e Margot, Gasparzinho e Luiza, Donald e Margarida e Pinduca (Henry) e Henrietta.

Bucky Rogers, o herói do século 25, foi um dos primeiros heróis (foi publicado pela primeira vez em 1928, nos chamados “pulps”) com uma namorada oficial, Wilma Deering. Triângulos amorosos eram usados como estratégias para postergar a realização sexual, e têm sido usados à larga, de Archie, Bety e Verônica a Mystica, Charlie Xavier e Magneto, em X-Men.

Com ensaios de Antero Leivas, Franco de Rosa, Primaggio Mantovi, Sergio Peixoto e Worney Almeida de Souza, Splish! Splash! revisa o amor nas HQs sob o prisma da moralidade de época e limitações dadas pela censura. Namorados eternos eram a regra. “Betty Boop era uma degenerada. Tanto que a censura não permitiu que suas tiras continuassem a ser publicadas. Ela não possuía namorado fixo e se interessava por qualquer bom partido de Hollywood”, analisam os autores.

Num país com fama de liberalismo sexual, o primeiro casal dos quadrinhos era “careta”: foram os anciãos Zé Macaco e Faustina, criados pelo cartunista gaúcho Max Yantok para O Tico-Tico, primeira revista de quadrinhos do Brasil, lançada em 1905. Mas o século 20 foi endireitando isso, criando pin-ups fabulosas e sexies para os trópicos, como a caliente Rosinha, do Zé Carioca.

Batman & Mulher Gato

“Os quadrinhos sempre refletiram a realidade de seus autores e do meio social em que foram criados. Nas décadas de 20 e 30, Popeye, Brutus e Olívia Palito tinham um triângulo amoroso e Pafúncio teimava em olhar para as beldades que apareciam pela frente, para o ódio de sua esposa Marocas. Já Betty Boop era uma liberal artista de cinema que tinha muitos pretendentes, mas não se ligava a nenhum deles. Nesse tempo, os quadrinhos eram menos policiados e serviam de entretenimento diário, nas tiras de jornais. Parece que as coisas começaram a ficar sérias com a introdução dos personagens aventurescos, quer dos pilotos militares, quer por Tarzan, o Rei das Selvas. Agora os personagens não eram mais caricaturas do mundo real, eles eram uma cópia mais acabada do mundo real. Se é assim, deveriam ter uma preocupação maior com a moral e com responsabilidades sociais presentes”, explica o livro.    

Para a maioria dos personagens dos quadrinhos, a sexualidade é uma coisa incidental, tangenciada – especialmente os americanos. Flash Gordon e Dale Arden, Mandrake e Narda, Super-Homem e Lois Lane são exemplos desse platonismo militante (uma Mulher-Gato com um toque sadomasoquista conseguiu romper esse círculo do amor coxinha). Entre obras para crianças, tabus ganharam as páginas. No Clube do Bolinha, havia um cartaz na porta: “Menina não entra”.

Mas houve outros personagens que nasceram justamente para discutir os limites dos relacionamentos humanos. O livro analisa um desses casos, Os Gatos, do cartunista brasileiro Laerte. “O Gato é idealista, criativo, inseguro, com uma bagagem cultural mais sortida do que profunda. Tem todas as sonatas de Beethoven. A Gata é uma fêmea absoluta, acima das espécies e das estrelas. Curte Luiz Melodia e aposta tudo em sexo bizarro. Contrariando a Bíblia, a Gata diz que surgiu primeiro, que o Gato veio depois porque sentiu seu cheiro”, assinalam.

Apolo & Meia Noite

Os quadrinhos underground, de Robert Crumb a Gilbert Shelton, trouxeram a depravação da revolução sexual de maneira caricata, autocrítica, em quadrinhos carregados de controvérsia e polêmica. Autores como os italianos Guido Crepax (Valentina) e Serpieri (Druuna), os franceses Goscinny e Uderzo (Asterix), o belga Hergé (Tintin) e outros colocaram diferentes formas do amor em suas obras.

E os casamentos arranjados para revitalizar personagens, como o do Fantasma (de Lee Falk), também são analisados no volume. “Depois do ridículo, o melhor do namoro são as brigas. E melhor do que as brigas são as reconciliações. Beijos ainda mais profundos, apelidos ainda mais lamentáveis, vistos de longe”, diz o escritor e colunista Luis Fernando Verissimo, em frase citada no livro.”

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Um pensamento sobre “Do Estadão: Amor é coisa que está no gibi

  1. Apesar da pecha de nerd casamenteiro, vale lembrar que eu tenho as HQs do casamento do Fantasma, do Super-Homem e do Homem-Aranha. Dos três, o mais casamento-de-novela é o do Homem-Aranha (ainda mais pq a Mary Jane dos quadrinhos é muito firmeza, não aquela songa monga dos filmes).

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