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Luís Fernando Veríssimo e o prenúncio da Luta de Classes no Brasil Pós-Lula

Luís Fernando Veríssimo é um dos meus autores brasileiros preferidos. Sempre com uma doce ironia em suas palavras, ainda que banhadas nno perfeito bom humor do gaúcho. Não sei como o Estadão permitiu que ele publicasse essa crônina hoje, 28 de Abril de 2011, mas ela é muito, mas muito perfeita para demonstrar os efeitos ideológicos dessa nova “classe média” sobre a antiga classe média. Fico a imaginar o que o bom e velho Marx, tomando um chopp com Adam Smith, diria sobre inusitado Brasil tão bem retratado na crônica de Luís Fernando Veríssimo. Para isso, acredito, vou tomar um chopp escuro e soltar a imaginação. E abaixo segue a crônica mais do que perfeita da vida privada e tão pública de nossos dias.

Buuu

Luis Fernando Verissimo – O Estado de S.Paulo

Diálogo urbano, no meio de um engarrafamento. Carro a carro.
– É nisso que deu, oito anos de governo Lula. Este caos. Todo o mundo com carro, e todos os carros na rua ao mesmo tempo. Não tem mais hora de pique, agora é pique o dia inteiro. Foram criar a tal nova classe média e o resultado está aí: ninguém consegue mais se mexer. E não é só o trânsito. As lojas estão cheias. Há filas para comprar em toda parte. E vá tentar viajar de avião. Até para o exterior – tudo lotado. Um inferno. Será que não previram isto? Será que ninguém se deu conta dos efeitos que uma distribuição de renda irresponsável teria sobre a população e a economia? Que botar dinheiro na mão das pessoas só criaria esta confusão? Razão tinha quem dizia que um governo do PT seria um desastre, que era melhor emigrar. Quem pode viver em meio a uma euforia assim? E o pior: a nova classe média não sabe consumir. Não está acostumada a comprar certas coisas. Já vi gente apertando secador de cabelo e lepitopi como e fosse manga na feira. É constrangedor. E as ruas estão cheias de motoristas novatos com seu primeiro carro, com acesso ao seu primeiro acelerador e ao seu primeiro delírio de velocidade. O perigo só não é maior porque o trânsito não anda. É por isso que eu sou contra o Lula, contra o que ele e o PT fizeram com este país. Viver no Brasil ficou insuportável.
– A nova classe média nos descaracterizou?
– Exatamente. Nós não éramos assim. Nós nunca fomos assim. Lula acabou com o que tínhamos de mais nosso, que era a pirâmide social. Uma coisa antiga, sólida, estruturada…
– Buuu para o Lula, então?
– Buuu para o Lula!
– E buuu para o Fernando Henrique?
– Buuu para o… Como, “buuu para o Fernando Henrique”?!
– Não é o que estão dizendo? Que tudo que está aí começou com o Fernando Henrique? Que só o que o Lula fez foi continuar o que já tinha sido começado? Que o governo Lula foi irrelevante?
– Sim. Não. Quer dizer…
– Se você concorda que o governo Lula foi apenas o governo Fernando Henrique de barba, está dizendo que o verdadeiro culpado do caos é o Fernando Henrique.
– Claro que não. Se o responsável fosse o Fernando Henrique eu não chamaria de caos, nem seria contra.
– Por quê?
– Porque um é um e o outro é outro, e eu prefiro o outro.
– Então você não acha que Lula foi irrelevante e só continuou o que o Fernando Henrique começou, como dizem os que defendem o Fernando Henrique?
– Acho, mas…
Nesse momento o trânsito começou a andar e o diálogo acabou.


 

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