Documentários

Lixo Extraordinário, Vida Extraordinária: a excelência de um Documentário

Quando era criança achava que o vencedor do Oscar era quem mais merecia, realmente, ganhar aquela estatueta careca e dourada. Mas muita coisa muda quando se passa da infância a idade adulta e uma das coisas que mudaram foi justamente essa percepção do Oscar.”Lixo Extraordinário”foi um Documentário indicado ao Oscar. Mas não ganhou. Sempre quis saber o porque e fui atrás para maiores informações e, principalmente, para assisti-lo. Na locadora de vídeos nem sombra. Para vender também não. Me restou baixa-lo, o que fiz e vou disponibilizar aqui no Cabaré das Ideias. Mas antes, gostaria de dividir algumas impressões do Documentário. Que já digo que se encontra entre os 10 preferidos.


Obra de Vik Muniz


“Estão filmando para o Animal Planet?” pergunta o coletor de lixo. Melhor, corrigiria Tião, material reciclável. Coletor, prefiro chamar, porque o trabalho que faz separando a sociedade hierárquica que vivemos exige muito mais uma hábil coleta do que um simples “catar”, vindo de um mero “catador”.

Por volta de 70% do lixo da cidade do Rio de Janeiro vai passar seus dias ensolarados em Jardim Gramacho, local do maior aterro sanitário do mundo, contando com uma estimativa de 3.000 coletores. O lixão “funciona como uma bolsa de valores”. Existe toda uma cadeia (re) produtiva no ciclo da extração de bens no aterro sanitário. Cada  coletor pode retirar, em média, 200 toneladas de material reciclável por dia. Impressionante, não? Ali, naquele aterro sanitário, o lixo do milionário bacana da Gávea vai se encontrar, bem juntinho e agarradinho, com o lixo da Comunidade da Rocinha. É a irônica irmandade do lixo.


Vik Muniz: viagem, pela arte, ao “fim” da cadeia de consumo desenfreado


O que se vê no desdobrar do Documentário “Lixo Extraordinário” é muito mais do que o exercício da arte de Vik Muniz (por sinal, espetacular e nem um post seria suficiente para discorrer sobre sua legítima e verdadeira ARTE – em caixa alta mesmo). Digo muito mais porque me surpreendi positivamente em observar, através da lente da câmera, um universo humano extraordinário, na articulação política fabulosa na associação de coletores (ante a ausência presente do Estado), bem como nos protagonistas do Documentário. A riqueza do Documentário está, definitivamente, neles.


 – “A Luta é grande, companheiro, mas a vitória é certa!” – diz Valter dos Santos, um coletor poeta há 26 anos.


Nascidos da descrença alheia e árduos e suados guerreiros da força de vontade. Zumbi, um dos líderes comunitários dos coletores de Jardim Gramacho, revela-se um verdadeiro especialista em resgatar livros abandonados ao lixo e conduzi-los ao bem comum na forma da criação de uma biblioteca comunitária. Definitivamente, para essas pessoas, ler é poder. E não seria de se estranhar que A Arte da Guerra, de Sun Tzu – clássico da teoria política clássica e especialmente da Estratégia – também estivesse lá, sendo devorada em Jardim Gramacho tantos milênios depois de ser redigida na China Clássica.

A clareza e lucidez dos protagonistas é incrível. Valter dos Santos, com seu elegante e simpático bigode, traça, em determinado momento do documentário, todo o percurso do lixo, da residência até o aterro, observando quanto deste lixo seria desviado para rios ou lagoas, reforçando, neste momento, o papel crucial na sociedade desvairada de consumo que vivemos que o coletor/catador possui. 

“Maquiavel era maneiro. (…) Ele vai falando de todos os príncipes daquela época, falando de Florença. Florença me lembra muito o Rio!” diz Tião, que leu O Príncipe após encontra-lo molhado. O interesse foi tão grande que Tião não titubeou em colocar a obra de Maquiavel atrás da geladeira para secar e, então, degustar o clássico da Teoria Política, justamente num momento que assumia a Presidência da Associação. Melhor leitura no momento seria impossível, o próprio Maquiavel poderia atestar para Tião, se houvesse oportunidade.





O Documentário (com músicas perfeitamente inseridas de Moby) é repleto de personagens ricos, muito ricos em sua humanidade e inteligência: Magna, Irmã, Zumbi, poderia citar vários e vários. Suas conversas são afiadas demais. Poderia citar mais e mais passagens que ilustrariam toda essa riqueza, mas prefiro que você, leitor e leitora do Cabaré das Ideias, possa captar essas sensações assistindo ao Documentário “Lixo Extraordinário”É certeza que vou comprar o DVD. Uma obra dessa, para um politólogo, economista, artista, sociólogo, ambientalista, etc. é rico demais e vale a pena ser amplamente utilizado (sala de aula, por exemplo). Mas é com uma frase de Magna que encerrarei esse post:


– “Você fica aí sentado na sua poltrona, consumindo e seu lixo, para onde vai? já pensou nisso?”

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3 pensamentos sobre “Lixo Extraordinário, Vida Extraordinária: a excelência de um Documentário

  1. Gostei da sua review, fazia tempo que não lia um texto apaixonado sobre uma obra relevante. Ainda não tive a oportunidade de assistir ao documentário, mas me interessei quando ví que concorria ao Oscar. De certa forma me lembrou Ilha das Flores, mesmo que vagamente. Vou esperar você disponibilizar pra poder comentar melhor!

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  2. Oi, Tai! O link para fazer Download do Documentário Lixo Extraordinário está no post!!! E realmente vale muito a pena assistir!!! Quando sair o DVD vou comprar para se juntar a minha galeria de documentaríos pq este é muito bom! E Ilha das Flores é espetacular!!!!

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  3. Vik Muniz realmente é um baita artista. O trabalho feito durante a filmagem do filme é monumental. Contudo, acho o filme “mais ou menos”. Quase fizeram do Vik um Luciano Huck…erro de direção em vários momentos…mas ainda assim acho obrigatório também…
    “99 não é 100”!
    Bem bom o texto!
    Abraço!

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