Literatura

Diabo Guardião: “todos nós temos alguns defeitos”

Sou meio chegado numa literatura escrota. Sem choraminguelas e nem fifizações: personagens no buraco podre da vida, desesperançados, irônicos, narrados em suas desenvolturas pela mais pérfida e batráquia sarcasticidade (se é que essa porra de palavra existe mesmo). De imadiato algumas obras me vem a mente: contos como “Placebo” e “O Cobrador” ou romances como “A Grande Arte” e “O Caso Morel” do Rubem Fonseca ou as sarcásticas e podres produções literárias da Ana Paula Maia, como “A Guerra dos Bastardos” e “Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos” ou, agora, lendo “Pornopopéia” do Reinando Moraes. Claro, tudo começou com o depravado do Rubem Fonseca e dele fui garimpando em sebos/livrarias Brasil afora o que de mais escroto e engraçado (é fundamental ser escroto e engraçado) a literatura brasileira e estrangeira tinha a me oferecer. E, após horas e horas numa livraria de Cuiabá, encontrei o livro “Diabo Guardião” de Xavier Velasco (pela Força, o autor tem formação em Ciência Política, acreditam? será este meu destino também?), livro publicado pela Editora Alfaguara (que vem publicando muita coisa boa, inclusive A Estrada de Cormac McCarthy). Folheei, li a famosa “orelha” do livro e sim, tinha muita sacanagem, podridão humana e humor. Era meu aquele exemplar que tinha em mãos!

Você acha que Violetta é nome de puta? Ou preferia ser conhecida como Rosalba, que parece nome de empregada ou de traficante de esquina de pardieiro? Você acha que vale a pena roubar seus pais que são um bando de filhadaputas e depois torrar toda essa grana com roupas caras, hoteis mais caros ainda, muita putaria e tudo mais que for possível, incluindo todos as drogas possíveis?

Xavier Velasco

Perguntinhas bem escrotas, não? Pois é. Todas perguntinhas escrotas e bem feitas para a protagonista de “Diabo Guardião”: Violetta. Ela tem 15 anos, mora no México e tem um fogo na alma e no corpo e detesta sua família mequetrefe, que a todo custo se tenta passar por “nórdicos” e, como “bons” católicos, gerenciam a Cruz Vermelha e, por força do pecado que existe em todos nós, desviam muito dinheiro para fins pouco ou nada nobres: os seus próprios. Violetta descobre toda essa sacanagem e resolve arriscar a mais terrível revolução possível para alguém de 15 anos: sair de casa. Mas não é sair de casa de qualquer jeito, mas sair de casa com 100 mil dólares (sim, aqueles que seus pais desviaram da Cruz Vermelha e agora ela desviaria de seus pais) com destino aos Estados Unidos da América. Como é o ditado? “Ladrão que rouba de ladrão tem 100 anos de perdão”?

O maior mérito de Xavier Velasco e seu ritmo forte, sem muito tempo para ficar pensando nas trágicas consequências morais dos atos da protagonista. Violetta até tenta se dar a esse luxo, mas o fogo juvenil que lhe consome a alma e o corpo é certeiro na sua análise: – deixa essa porra de moralismo barato para quando você estiver mais velha, sem dentes, com os peitos caidos e com a buceta sossegada.

Não se assuste, a linguagem do livro também é crua, direta, sem rodeios. E é outro mérito. Não cansa. E Violetta, narrando suas peripécias através de um depoimento a seu “Diabo Guardião”, deixa claro que ficar “olhando apra trás” faz mais mal do que bem para ela, na sua jornada ao Hades. E não estranhe: ela quer isto, claro, se puder fazer amizade e se enroscar na cama com o diabo. A vida de Violetta é dar golpes atrás de golpes, seja ainda “criança” no México com sua família de paquidermes ou na suntuosa e nababesca New York ou Las Vegas, já nos Estados Unidos. O ritmo alucinante dessa vida de Violetta pode deixar, sim, algum leitor ou leitora sem ar, um pouco cansad@s da estafante rotina de sexo e drogas e sonhos. Muitos sonhos, arquétipos que povoam a cabeça de Violetta e lhe inspiram, somente assim, vivenciar essa realidade dura que nos cerca. E ela dá seus pulos para isto.

Mas tudo que é bom também acaba. E Violetta, ao passar das páginas, vai ficando cada vez mais certa disso. E qual a sua melhor arma para se defender neste mundo? Sim, o sexo e sua mente afiada e cortante. E ela aproveita ambas as armas que a natureza (ou seria o metafísico Diabo lhe deu, porque o “Diabo” que lhe escuta, este é um coitado no mais pesaroso e lamentável da palavra) lhe deu. A sordidez da vida da personagem é bem conduzida por Xavier Velasco. O próprio livro tem um ritmo cinematográfico. Fico até imaginando o diretor Alejandro González Iñárritu conduzindo essa trama sob um roteiro adaptado pelo Guillermo Arriaga. Seria um filme forte e denso. Com muita coisa cortada ou seria classificação P – 18 com toda certeza. Mas valeria a pena, muito valeria a pena. Leia o livro. Fique espantand@ e  horrorizad@. Acho que seria o maior e melhor presente para Violetta. Para explorar o primeiro capítulo clique aqui e para comprar o livro clique aqui.

Autor: VELASCO, XAVIER

Editora: ALFAGUARA BRASIL

Preço R$ 64,90

+cultura R$ 48,68

em até 3x de R$ 16,23

sem juros no cartão

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3 pensamentos sobre “Diabo Guardião: “todos nós temos alguns defeitos”

  1. Deve ser mto interessante, ainda mais agora que to entrando nessa vibe… Mas, fora os meus comentários cáusticos no MSN, não da pra não perguntar: que preço maluco é esse?

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    • Cara, preço de livro no Brasil, principalmente livro novo é surreal. Isso porque livro é um produto com uma serie de não-tributações. Daí se faz pensar: cadê a porra do CADE do governo federal numa hora dessas para fiscalizar esse desmando e absurdo de preços?

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  2. EU LI ESTE LIVRO E FIQUEI MUITO IMPRESSIONADA COM A HISTORIA DE VIOLETTA,EU RECOMENDO A TDOS ESTE LIVRO,MUITO BOM…EU GOSTARIA MUITO QUE VIRASSE UM FILME ESTA LNDA OBRA…

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