Literatura

“Prefiro o céu pelo clima, o inferno pela boa literatura”

Mark Twain certa vez disse a nababesca frase: “prefiro o céu pelo clima, o inferno pelas companhias”. Gostei tanto da frase que a adaptei ao título do post. É claro que poderia ter acrescentado jazz-men ou bons e velhos rockeiros, mas é com os escritores que me deterei, imaginando suas pitorescas, amáveis, repugnantes, indiferentes, adoráveis, escabrosas companhias nessa metáfora metafísica que é ceu, que é inferno, um no outro, outro no um.

Van Gogh, Woman

A literatura vicia. Por isso é perigosa. Em todos os sentidos. Ela prende e faz pensar. E é egoísta, quer que nos debrucemos cada vez mais nela. Nos exaspera prendendo-nos a cada página, a cada livro. Pode ser poesia, pode ser prosa, pode não ser nada disto e tudo ao mesmo tempo agora. É lida ao ouvir, ouve-se sem ler e se lê com ouvidos atentos. É guerra, é paz, é areia, é mar. A literatura está no passado como está no futuro, mas nunca inteiramente está no presente porque ela avança em cada página e retrocede a cada lembrança. É sarcástica e podre como a crueza humana de Rubem Fonseca no conto “Placebo” no livro O Buraco na Parede ou é espiritual e profundamente engrandecedora como em Sidarta de Herman Hesse. Inspira-nos a pensar o mundo e o estar no mundo como em Todos os Homens são Mortais de Simone de Beauvoir ou o puro existencialismo em prosa em A Náusea de Jean Paul Sartre. A literatura é tudo isto e mais coisas. Escritores com gênero e sem gênero, humanos ou mutantes, terráqueos ou extra-terrestres. A tod@s a literatura suga para si, sem choro e nem lamento. Quem a conhece, não a esquece jamais, poderia dizer Chico Buarque, outro perdido nas entranhas literárias.

Sartre e Simone: filosofia, vinhos e o melhor da literatura

Os livros preferidos podem ser vários. Mas nunca, de verdade, apenas um. Os livros nos seguem como seguem nossas experiências: como bombeiros, resgatam-nos a lembrança e com ela os cheiros, as sensações, as vibrações, boas ou más, mas todas elas que contam como experiências. Os livros não são apenas papel que envelhece. Depois de lidos, bebidos, comidos, cheirados, sensoreados e, mais do que tudo ou nada, ouvidos, os livros são parte de nós. E muitas vezes partes intransigentes.

Mas como escolher os favoritos? Confesso que é difícil, mas não impossível. Talvez o exercício de escolher essas preferências seja interessante como um exercício para perceber a mudança. E notar que aprender é mudar. Por anos me detive pensando: quais meus livros preferidos? Alguns cointreau (no tradicional copo de requeijão) depois, o resultado chegou. Provavelmente é o resultado de hoje seria o mesmo de um ano atrás e variaria pouco para cinco anos atrás ou mesmo dez. Escolher essa “lista” foi bom porque me remeteu ao passado em outras cidades, com outros nomes, com outros destinos. Nada melhor para quem anseia, mais do que uma carreira no fazer ciência, uma carreira no fazer literatura crua, pura e boa (almeja-se, ao menos). A lista que segue é mais aleatória do que classificatória e traz, brevemente, um resumo de cada uma das cinco obras e dicas de resenhas e mesmo download.

A Náusea de Jean Paul Sartre

Antoine Roquentin é o guia neste livro. E nada melhor que um historiador por guiar um leitor pelas tortuosas memórias que tenho. Leitor e personagem foram, várias e várias vezes devido as releituras, um só. O buraco no espelho que surge não foi apenas de Antoine Roquentin, também foi meu. Sua descarga de dejetos psicológicos, ao longo do livro, podem inspirar e repelir, basta que o leitor aceite cruzar a fina linha que separa a porta da percepção. Este livro sempre esteve na minha lista de cinco livros preferidos. E continuará, pelo andar da carruagem. Para os interessados, uma boa resenha pode ser encontrada neste link e o livro, para download, pode ser obtido aqui.

Duna de Frank Herbert

Foi o livro que me aproximou, verdadeiramente, da literatura de ficção científica. O mundo de Arrakis ou Duna também foi meu. A descrição do planeta e de seus habitantes, os Fremen, a sutileza de seu frágil ecossistema e sua importância social até hoje me influenciam. Em muitos momentos estive em Arrakis. E penso se até hoje parte de mim não se encontra, ao desfrutar da Presciência, assim como o Mua’Dib. Escrevi esta resenha sobre o universo de Duna para o Poliarquias e outra resenha para o Ao Sugo.

Sidarta de Herman Hesse

Sidarta de Herman Hesse figura como uma das obras mais belas que li em toda a minha vida. É uma obra que me inspirou profundamente na mais elementar busca espiritual. Mais do que me apresentar, me reforçou o budismo. E, adolescente, também reforçou minha percepção de que a experiência tem de ser ampla, mas temos de estar, acima de tudo, de ouvidos abertos aos ensinamentos que o multiverso nos traz para, então, estarmos aptos a verdadeiramente abrirmos nossas mentes. Sidarta é uma leitura gratificante e, recomendo, deve ser lida sempre. Para toda a vida. 

Sobre Heróis e Tumbas de Ernesto Sábato

Vou confessar. Este livro está nesta lista apenas por um interlúdio em suas páginas. E este interlúdio foi denominado como “Relatório Sobre os Cegos”. Considero uma das mais pertubadoras leituras que já fiz. A loucura é clara. Não há rodeios, tentativas por parte do leitor em relativizar o que se passa na cabeça do pertubado Fernando Vidal Olmos. Já li o “Relatório Sobre os Cegos” seguramente por oito vezes. A nova vez se aproxima cada vez mais. E farei com muito bom gosto. No vídeo, Ernesto Sábato declama a primeira parte do “Relatório”. E depois um trecho do pertubador “Relatório Sobre os Cegos”.

“Se fosse um pouco mais néscio, poderia talvez gabar-me de ter confirmado com essas investigações a hipótese que desde jovem imaginei, sobre o mundo dos cegos, já que foram os pesadelos e alucinações da minha infância que me trouxeram a primeira revelação. Logo, à medida que fui crescendo, foi se acentuando a minha prevenção contra esses usurpadores, espécie de chantagistas morais que, coisa natural, abundam nos subterrâneos, por essa condição que os aparenta com os animais de sangue frio e pele resvaladiça que habitam covas, cavernas, sótãos, antigas vielas, canos, esgotos, poços, fossas negras, grutas profundas, minas abandonadas com silenciosas infiltrações de água; e alguns, os mais poderosos, em enormes covas subterrâneas, às vezes a centenas de metros de profundidade, como se pode deduzir de relatórios equívocos e reticentes de espeleólogos e procuradores de tesouros; suficientemente claros, no entanto, para os que conhecem as ameaças que pesam sobre os que tentam violar o grande segredo” (Trecho do “Relatório Sobre os Cegos” que pode ser lido inteiramente aqui).

A Invasão Divina & Valis de Philip K. Dick

Pensei muito em qual livro de Philip K. Dick acrescentar a essa lista e se deveria acrescentar, conjuntamente, A Invasão Divina e Valis. E cheguei a conclusão que sim. Deveria acrescentar conjuntamente as obras. Elas são complementares da mais pura experiência metafísica de Philip K. Dick. Valis é mais dura e direta e A Invasão Divina é metafisicamente mais inspiradora, afinal, trata da busca do Equilíbrio por parte da Divindade, do encontro do Ein Sof e da Shekinah. E numa obra de ficção científica. A leitura das duas obras é profundamente pertubadora, mas não no sentido de “O Relatório Sobre os Cegos”, mas sim no sentido da capacidade de se comover com a solidão que pode existir num ser que transcenderia a própria ideia de solidão. Vale muito a pena ter esses livros na prateleira!

Imagem ilustrativa da Biblioteca de Alexandria, verdadeiro paraíso perdido

Poderia citar várias outras obras: Os Versos Satânicos de Salman Rushdie, A Grande Arte de Rubem Fonseca, Cem Anos de Solidão de Gabriel Garcia Marquez, Todos os Homens São Mortais de Simone de Beauvoir, Contato de Carl Sagan, O Homem do Castelo Alto de Philip K. Dick, etc. Seriam tantos os livros que me perderia em devaneios, mas graças a Força, eles estão comigo, nas lembranças e sensações que se repetem e se repetirão ao longo de minha vida.

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