Literatura de Ficção Científica/Sci Fi no Cinema

Mais de Cem Anos de Solidão na Ficção Científica

“Ao coração ferido fazem bem a treva e a solidão.” (Honoré de Balzac)

Primeiro você olha ao redor e não vê ninguém. Força um pouco a vista e mesmo assim nenhuma alma viva. Dá seus primeiros passos e há um enorme e massacrante vazio na cidades que, até semanas atrás, pululavam pessoas: suas vozes, seus movimentos, passos apresssados, danças, sexo, brigas, choros, risos. Mas nada disto existia mais. Só restava o vazio e você. E então, caminhando já de forma desesperada, a solidão parece acercar de si mesmo. O que antes era charmoso, a solidão, agora é o verdadeiro terror em sua mente e em seu coração. E nada indicava que isto mudaria tão cedo. E o pior: não era um pesadelo apenas, era um ciclo de pesadelos.

Este parágrafo acima poderia ser o início de um conto de ficção científica. Mas não é bem isso. É mais uma sensação que ocorre depois de assistir a um filme ou ler um livro de Ficção Científica e me deparar com a constante da solidão (mal de quantos séculos?) atroz que cerca uma série de protagonistas. São, em geral, personagens tristes e amargurados, perdidos num mundo rodeado de destruição e, acima de tudo, vazio. E o vazio não é apenas exterior, pela ausência de pessoas reais, mas interior, já que o vazio interno passa a ser o único ponto sólido no dia a dia dos personagens. Muitos filmes e muitos livros (ambos com a temática de Ficção Científica, no caso do objetivo deste post) foram produzidos e todos, invariavelmente, lidavam com essa situação: a solidão e sua tristeza contínua. Alguns com mais afinco e outros com mais suavidade. Posso citar, de memória imediata,  filmes como LunarMad Max ou Eu Sou A Lenda ou livros como A Estrada de Cormac McCarthy, Apocalipse Z de Manel Loureiro ou Blecaute de Marcelo Rubens Paiva. Produções com temáticas diferenciadas (do apocalipse zumbi ao apocalipse nuclear, do guerreiro das estradas ao astronauta-clone), mas todas ligadas pelo fio da crescente desesperança, ainda que algumas proponham, em suas obras, o resgate da esperança, mas sempre uma esperança com o (a) outro (a), nunca sem ele (ela).

Emmanuel Nery, Solidão, óleo s/ tela 55 x 46 cm, 1986

Mas pergunto-me: porque os protagonistas de tantas produções da Ficção Científica, seja na literatura ou no cinema, são tão imersos no inferno que está contido na palavra solidão?

Talvez a melhor resposta seja a mais simples: o crescente e esmagador individualismo. É ele que nos impulsiona a monetarizar a tudo, que nos faz pensar sempre no dinheiro antes das pessoas, que nos faz imaginar, mas não experenciar, a felicidade através e tão somente através do dinheiro, que nos impulsiona a ver beleza nos corredores de um shopping center, mas não de um parque rodeado de árvores. O individualismo não é algo ruim, longe disso, mas é algo que não controlado, deixa o ego solto, livre, desimpedido para avançar cada vez mais sobre qualquer possibilidade de alteridade. Toda e qualquer forma de estar junto deve estar atrelada ao beneficio material que pode ser conquistado e não, simplesmente, pelo simples prazer de ter uma boa companhia para papear e criar laços de amizade. Mas e a ficção científica? Ah, muitos de seus personagens reproduzem o padrão do homem (na maior parte das vezes) que se dedicou com afinco ao trabalho e, no máximo, tinha uma pequena família (esposa e um filho ou filha, em geral). Trabalhava como um bom workaholic e tentava, muitas vezes desesperadamente, se manter afastado de qualquer laço mais profundo com outras pessoas. O pouco de sua família bastava e essa família não era a representação da sociedade, mas uma representação finita de si mesmo. 

E o que são as grandes tragédias? As grandes oportunidades para testar os limites de qualquer um, ainda mais daqueles e daquelas que não tem umma (comunidade): o suporte mais do que fundamental para aparar a queda, caso ela ocorra.

A “tragédia” do individualismo chega de diversos modos em muitas obras de Ficção Científica. Comentarei algumas para ilustrar, de certo modo, o viés de discussão proposto neste post do Cabaré das Ideias:

Em A Estrada, Cormac McCarthy nos apresenta uma história de um pai e de seu filho perambulando por um mundo cinza e cadavérico, no qual, mais do que nunca, o homem é o predador do próprio homem. A sociedade entrou em colapso e com isto as regras de convívio baseadas na ética. Só resta proteger o que é seu, inclusive sua própria carne. As páginas passam num contínuo de desesperança e entrega por parte “do Homem”, protagonista da história. Ele, desesperançado verdadeiramente do mundo, enquanto o filho (“o menino”) ainda acreditava num mundo que nem viveu e nem conseguia imaginar corretamente. Metaforicamente é o “Homem” que morre e o “menino” que sobrevive neste mundo, a solidão do homem é deixada para trás com seu corpo, mas seu espírito, como numa luta final, por fim entrega-se, também, à esperança, ainda que sob seu filho junto a outros, mas nunca sozinho.

É também a mesma premissa de Eu Sou A Lenda (aqui trato do filme, embora o livro também mantenha esse mesmo cenário psicológico). No filme, o personagem Robert Neville, interpretado por Will Smith, se considera o último sobrevivente humano num mundo dizimado por um vírus que transformou os humanos sobreviventes em uma espécie de zumbis. Ao longo de todo o filme, Neville busca suas lembranças para se segurar na realidade, até mesmo interage com manequins de lojas para se sentir menos sozinho, ainda que seja com sua cadela Sam. Mas ao encontrar humanos não-zumbis a mais desesperadora faceta da solidão lhe atinge mortalmente: dividir o espaço com alguém, acreditar que são reais quando, ao longo dos anos, sua solidão (e apenas ela) foi tão pesadamente real. Convencer-se de que existiria outras pessoas é quase um esforço sobrenatural, mas assim como o “Homem” de A Estrada, Neville reconhece que apenas na comunidade podemos viver e, no caso, sobreviver. Se não fossem os zumbis (em Eu Sou A Lenda), seria a própria solidão que mataria a humanidade restante.

Eu Sou A Lenda, um filme de Francis Lawrence baseado no livro de Richard Matheson

Ainda poderia citar mais e mais casos para ilustrar esse agudo individualismo que está presente em algumas obras de Ficção Científica (os livros de Philip K. Dick são ilustrativos, a própria A Invasão Divina é um excelente exemplo), não como uma bandeira, mas como um alerta. Ou se quiser, um presságio.

Darth Vader, em Star Wars – Episódio V – O Império Contra-Ataca, diz a Luke Skywalker:

– This Is Your Destiny!

E fico a pensar sobre o individualismo que impera hoje: será mesmo?

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Um pensamento sobre “Mais de Cem Anos de Solidão na Ficção Científica

  1. Acho que a solidão não é só um reflexo do individualismo. As pessoas perderam a noção de prioridades, de dedicação e de se preocupar com os outros. O que acontece, então, na minha opinião é uma tendência ao isolamento. Afinal, quando você se distancia do outro, foge também das frustações. Quando falamos desse assunto para a ficção científica, apenas estamos jogando essa “realidade” para um provável futuro. Uma forma de talvez se enganar e acreditar que não há outro jeito.

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