Ficção Científica e Política/Literatura de Ficção Científica

A Sombra do Leviatã Galáctico em Duna de Frank Herbert

Já escrevi um post no Ao Sugo que afirmo categoricamente que Duna de Frank Herbert, publicado nos idos de 1965 – vencedora dos prêmios Hugo e Nebula – é uma das cinco maiores obras literárias de ficção científica. Posso fazer essa afirmação tão contundente não apenas porque li muita coisa do gênero literário de ficção científica, mas especialmente porque em Duna existe um universo tão rico de conteúdo (drama, ação, caracterização das personagens, descrição do cenário físico do planeta Arrakis com maestria pouco convencional em muitas obras não apenas de ficção científica, etc) que estimula a própria vontade de estar lá, mas desde que com uma garrafa de água, porque a sede vem junto a cada página devorada do primeiro livro, especialmente.

Mas o foco deste post no Cabaré das Ideias é a formação do Império do Mua’Dib ou Paul Atreides, Messias dos Fremen de Arrakis. Por quais bases foi formado esse Império? Em que medida essa literatura de ficção científica diz respeito a não-ficção, nossa pretensa realidade? E, mais importante, o que tem a nos dizer hoje em dia?

Sempre quando penso em algum Império na literatura ou no cinema me vem a mente, de imediato, uma ilustração do Leviatã de Thomas Hobbes. É Thomas Hobbes, filósofo “maldito” para os liberais, quem melhor pode representar o pensamento Absolutista, pensamento ao qual o Estado forte garantia aquilo ao qual Hobbes considerava essencial: a preservação da “guerra de todos contra todos”. É claro, essa preservação, entendida na famosa elegia da “guerra de todos contra todos” hobbesiana, é constituinte do Estado de natureza, construto intelectual hipotético (para alguns, mas não para todos) que agregava a maior parte dos pensadores seiscentistas e também setecentistas que desejavam saber as transformações pelo qual passou a humanidade ao longo de seus milênios.

Quando a trama de Duna se inicia, a humanidade se espalhou ao longo do universo e sua ligação com a Terra é uma tênue lembrança no imaginário coletivo. E qual a melhor forma de manter, politicamente, unida essa humanidade tão diversa? Em Duna, existe o Império e as Grandes Casas, divididas em Baronatos e Ducados. O centro decisório político, entretanto, contempla outros grupos, como a Irmandade Bene Gesserit e a Corporação Espacial. O universo político de Duna parece e muito um imenso e estelar feudo, com todas as restrições possíveis a uma ampla participação da diversidade humana nas decisões políticas empregadas pelo Império de Padishah Shaddam IV da Casa Corrino e pelas demais Casas.

Frank Herbert: com as barbas de molho ao melange

Embora não esteja imprimida, necessariamente, na obra, uma pergunta é possível: o que levou a humanidade a regressar a uma forma de governo tão arcaica e não ampliar formas de participação política e tomada de decisão coletiva para guiar seu próprio destino? Talvez a melhor forma de buscar essa resposta seja entender que essa realidade de Duna aponta alguns momentos trágicos da humanidade, como o Jihad Butleriano, no qual as máquinas pensantes dominaram e escravizaram a humanidade, resultando, depois da vitória nessa guerra por parte da humanidade, no abandono da tecnologia, devido ao risco, entendido como inerente, em se utilizar de inteligências artificiais para todo e qualquer uso. E qual a melhor forma de unificar politicamente desejos e vontades senão por um regime político forte? Mas porque se sujeitar a esse tipo de regime, se a história da humanidade, tão absorvida em Duna, identificava outras saídas políticas, como a própria democracia? Em busca da paz e da segurança é possível (ou justo?) ceder direitos políticos coletivos, como a liberdade de associação e de expressão?

Em Hobbes ocorre fundamentalmente um pacto de submissão: os homens abandonam sua liberdade natural e instituem um soberano absoluto em troca de segurança e paz. Sujeito político acima dos indivíduos e jamais questionado em suas ações e sentenças, já que para Hobbes questionar o soberano é questionar a si mesmo. Esta é a consequência direta de ceder direitos políticos individuais e coletivos. E é muito presente em Duna. E quando existem recursos naturais envolvidos no jogo político, essa submissão, primeiramente por “opção” torna-se “optatória”, já que um regime político hegemônico sustenta-se, em parte, em distribuir para poucos os benefícios (também políticos) desses recursos, mas seria apenas em regimes políticos hegemônicos ou também em democracias?

E Duna, a melhor forma de se observar a distância entre “quem governa e quem é governado” ocorre nas relações entre os Fremen e a Casa Harkonnen e também a Casa Atreides. Mas “o pulo do gato” em Duna está na religião e na maneira, provavelmente cíclica (mais para mal do que para bem, acredito) que ela se entranha no jogo político. Em Duna, Paul Atreides, filho do falecido Duque Leto Atreides, torna-se o Messias esperado pelos Fremen. E aceita, inicialmente, esse destino com toda a carga que lhe segue. Sua ascensão como Messias dos Fremen é avassaladora: derruba-se o Império sob a Casa Corrino e Paul Atreides/Mua’Dib, líder e Messias dos Fremen, mantém a estrutura institucional do Império, mas com um caráter ainda mais autoritário, centralizando ainda mais o poder (e no caso, o poder é controlar a especiaria, a melange, combustível individual e social da humanidade) e, associando religião e política, expande sua religião Fremen pelo universo numa verdadeira Guerra Santa liderada pels Fremen, intensificando a ausência de liberdades.

Duna: mais um capítulo no longo ciclo de liberdade política e opressão na história humana

Para Hobbes, a adequação de questões de cunho individual com interesses públicos era aparentemente de difícil conciliação, já que os homens encontram-se em constante competição pela honra e dignidade e em competição nos assuntos públicos e por isso a necessidade de um pacto e mais, de alguma coisa que pudesse fazer esse mesmo pacto perdurar, promovendo e adequando as ações humanas em um sentido de múltiplos benefícios.

O poder soberano não pode ser dividido, pois se fosse seria o Estado dissolvido e os poderes divididos destroem-se uns aos outros.É essa prerrogativa que faz com que Hobbes não veja formas de governo mistas com bons olhos, ao contrário, são maneiras de diluir a soberania. Para se dar e efetivar a soberania, para Hobbes, duas possibilidades eram oferecidas: a soberania hobbesiana é transferida do corpo político para um homem ou uma assembléia de homens (uma possibilidade de “democracia reduzida”): “é conferir toda a sua força e poder a um homem, ou a uma assembléia de homens, que possa reduzir suas diversas vontades, por pluralidade de votos, a uma só vontade.” Mua’Dib é esta vontade. 

Capa de O Messias de Duna pela Editora Nova Fronteira

 

Mas é insustentável essa premissa e a mesma gera as futuras rebeliões, como mostradas em O Messias de Duna. Eis um exemplar literário das consequências de ausências de canais políticos e institucionais para as coletividades. É como uma bola de neve que vai aumentando e aumentando e aumentando. Mua’Dib soube muito bem disso e aproveitou essa força poderosa para consolidar seu Império, ainda que suas intenções fossem boas. Mas é como se diz: “de boas intenções o inferno está lotado”. Essa Guerra Santa empregada pelos Fremen se expandiu pelo universo, elevou o controle do Império sobre as Grandes Casas, mas cobrou o preço: aumento da corrupção pela ausência de instituições de controle, uma guerra civil e, por fim, a instituição de um “deus” no Trono Imperial por milênio, Imperador-Deus de Duna, Leto Atreides, filho de Mua’Dib e Chani, sua amada.

Polticamente, o futuro do universo de Duna é sombrio. Quanto mais o tempo passa, mais a opressão aumenta. Associar a religião com a política fortalece o Leviatã Galáctico e, contrariamente a sua premissa hobbesiana, não traz segurança e muito menos paz. Duna, neste sentido, é também uma análise dos ciclos políticos da humanidade, talvez a única certeza que permeie sua grandiosa obra.

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2 pensamentos sobre “A Sombra do Leviatã Galáctico em Duna de Frank Herbert

  1. Os filmes de ficção científica são arquitetados sobre dois pilares: amor e liberdade. Duas palavras cuja maior parte da humanidade desconhece ou experimentou o seu significado. Mata-se em nome do amor e da liberdade. A Bíblia sempre enalteceu ou amor de Jesus através de sua compaixão, compreensão e perdão. Hoje "em nome de Jesus" se prega a intolerância, a submissão das minorias à vontade majoritária, manipulando o Livro Sagrado e incutindo na mente dos incultos a cultura da literalidade, do comportamento pelo que está escrito, como se fôssemos incapazes de raciocinar por nós mesmos. A liberdade, seja ela de amar, de guerrear ou de apenas curtir All We Need is Love, sempre foi foco de conflitos e de discussões filosóficas. Em todo filme de ficção eu sempre me interesso pela visão do diretor sobre para onde vamos e como chegaremos. Doctor Emmet Brown no clássico De Volta para o Futuro, em meados dos anos 1980, construiu num DeLorean uma máquina do tempo com o intuito de ver o avanço da humanidade. Na verdade ele queria ver o avanço tecnológico, pois mesmo com tanta informação, ainda evoluimos muito pouco socialmente. O que é amar? O que é ser livre? A liberdade é absoluta? Quais os seus limites? A maioria sempre manda? E a tirania da maioria tanto combatida em O Federalista? Pois é meu nobre amigo, nós é que temos de escolher entre o ostracismo e o ativismo.

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