História em Quadrinhos

No dia mais claro, na noite mais densa: o legado da força de vontade dos Lanternas Verdes

A primeira vez que tomei contato com o personagem Lanterna Verde foi na qráçica Crise nas Infinitas Terras, lançada na extinta revista Superamigos, lá pelas bandas dde 1985-1986. E o Lanterna Verde em questão era John Stewart. Gostei de cara, como dizem. Ao mesmo tempo, assisti a um episódio de “Superamigos” em que aparecia outro Lanterna Verde, agora o Hal Jordan. Era criança e fiquei confuso. “Dois Lanternas Verdes?” Bom, a dúvida logo deixou de existir quando o tempo passou e vi, num sebo que nem sei se existe mais no bairro do Porto na saudosa Cuiabá, a capa de uma revista Superamigos com a TROPA dos Lanternas Verdes. Tenham certeza, o impacto na minha mente infantil foi grande.

Superamigos: bom e velho saudosismo de histórias mais simples e percepção do mundo também mais simples

Existiam mesmo tantos Lanternas Verdes e de tantas espécies diferentes. Imaginem: na época não havia internet disponível para fácil acesso a informação nerd, televisão nem sonhava em divulgar notícias de quadrinhos (a não ser sobre Batman – O Cavaleiro das Trevas e Watchmen e mesmo assim no Video Show que prestava na época e não “falava”somente de novelas e novelas globais) e na minha cidade o círculo nerd não era tão grande, ainda mais com informações preciosíssimas sobre novidades dos quadrinhos. Mas essa falta de informações era parcialmente substituída pela imaginação e muitos cadernos de desenho, lápis de cores e “canetinhas”. Ao lado, claro, sempre um gibi.

Mas nessa época o Lanterna Verde era um personagem de segundo escalão. Como fã, tenho de confessar. Lembro da DC Comics tentar mudar isso um pouco com uma saga tenebrosa chamada “Milênio”. Nunca entendi direito a razão daquela saga. Tá, “novos guardiões”, Caçadores Cósmicos (máquinas pensantes criadas pelos Guardiões do Universo) que, depois de se voltarem contra seus criadores, inimigos jurados da Tropa dos Lanternas Verdes, decidiram fazer uma bagunça aqui na Terra, enviando “espiões” para não permitirem o “despertar” da Terra. Confesso que achei uma baboseira, talvez pela condução da trama ou talvez da própria trama e por isso nem vou escrever mais uma linha sequer sobre Milênio.

E, em parte por causa disso, o personagem Lanterna Verde caiu num ostracismo terrível. Mas calma lá! Anos antes, no fim da decada de 1970, os personagens Lanterna Verde & Arqueiro Verde viveram uma excelente fase das histórias em quadrinhos sob a batuta de Denny O’neil e Neal Adams. Foi uma série com forte inovação, ainda mais com um personagem como o Lanterna Verde, dado a viagens espaciais e a lidar com tiranos galácticos. Com o Arqueiro Verde era diferente. Ele era um personagem urbano e caracterizado como alguém de fortes opiniões ideológicas. Foi uma série fantástica, no qual os personagens viajavam por um Estados Unidos da América quase alternativo que não aparecia verdadeiramente nas HQ: racismo, pobreza e dependência de drogas foram retratadas nessa série. Chamou atenção da mídia e deu fôlego aos personagens, mas tudo que é bom acaba. E, nesse período, o personagem Lanterna Verde voltou ao ostracismo.

Já nem era mais tão criança quando comecei a pensar que realmente o Lanterna Verde era um personagem desperdiçado. Sério mesmo. Existia toda uma “mitologia” em torno do personagem. E uma “mitologia” muito boa. Imaginem: ganhar um anel, arma mais poderosa do universo (ou do multiverso, prefiro pensar), cujo limite é sua imaginação, movida pela força de vontade. Caramba! Era demais! Ficava, muitas vezes, deitado na cama pensando em como seria zingrar pelo espaço sideral portando meu anel de Lanterna Verde. Era muito bom. Já nessa época, por volta da decada de 1990, o Lanterna Verde mais visível era um que não gostava: Guy Gardner.

Guy Gardner fazia parte da Liga da Justiça Internacional, grupo meio pastelão e, reconheço, uma das maiores inovações das HQ de super-heróis (Liga da Justiça Internacional criada por Kevin Maguire, J. M. DeMatteis e Keith Giffen). Mas, de qualquer forma, não havia muito empatia comigo aquele Lanterna Verde desequilibrado, mas engraçado de qualquer forma. E adorava ver o Batman botar um medo danado no Guy Gardner. E também os encontros de Guy Gardner com o Lobo. É, era legal sim!

E o tempo foi passando e nada da relevância do Lanterna Verde no Universo DC. Até na saga Invasão! o personagem (independente de qual personagem Lanterna Verde) foi subaproveitado. Veio então uma fatídica edição da extinta revista Liga da Justiça & Batman, da Editora Abril, com uma constrangedora “luta” entre Hal Jordan e Guy Gardner pelo posto de Lanterna Verde da Terra. Tão ridícula que associava essa luta pelo posto ao cargo de membro da Liga da Justiça, grupo também que ia de mal a pior nesse período e só seria resgatado do ostracismo graças ao gênio de Grant Morrisson, lá pela segunda metade da decada de 1990.

Quem é o melhor Lanterna Verde? Jordan ou Gardner?

Essa luta pelo posto de Lanterna Verde da Terra foi constrangedora. Rídicula mesmo. E significava que os editores da DC não sabiam o que fazer com os personagens. Na mesma época, John Stewart foi  (bem) aproveitado na excelente mini série “Odisséia Cósmica” de Jim Starlin e Mike Mignola. Nesta HQ, John Stewart, tomado pela arrogância de ser um Lanterna Verde, é incapaz de impedir a explosão de uma “bomba do juízo final” e o planeta Xanshi é destruído. Essa dramática experiência muda completamente o personagem John Stewart e lhe confere um peso psicológico a mais que, praticamente, não detinha, já que o mesmo não tinha uma carga emocional própria que o diferenciasse de Jordan, por exemplo.

É, de certa forma já entreguei quem é meu Lanterna Verde preferido: John Stewart. Acredito que Stewart é o personagem bom que nunca teve o tratamento merecido. E não teve na decada de noventa e acompanhou a queda do selo “Lanterna Verde”. E essa queda foi fruto de uma decisão editorial que impunha aos roteiristas mortes e aleijamentos dos personagens DC. Fizeram com Superman e Batman e milhares de HQ foram vendidas. Porque não daria certo com o Lanterna Verde?

Parallax e Lanterna Verde Kyle Rayner: tentativa de renovação da franquia

O mote foi “simples”. Guy Gardner não era mais um Lanterna Verde, John Stewart também havia abandonado o posto e restava apenas “o” Lanterna Verde Hal Jordan. Jordan havia perdido sua cidade, Coast City, para Mongul e o Superciborgue durante a saga “O Retorno do Superman”‘. Cidade destruida, homem destruido. Jordan começa, então, por um tortuoso e nefasto caminho de destruição na busca pela restituição de Coast City. Os Guardiões do Universo, claro, não cooperaram muito. E isso levou ao quase extermínio da Tropa dos Lanternas Verdes por Jordan, até o momento final, no qual os Guardiões morrem, com a excessão de Ganthet, e surge Parallax.

Ah, Parallax. Foi vilão de Zero Hora, foi meio que “herói” em “A Noite Final”, deu um cacete nos heróis DC um par de vezes. Enquanto isso, um último Lanterna Verde caminhava, ou melhor, sobrevoava a Terra. Kyle Rayner era seu nome. Era um artista e se tornou Lanterna Verde por acaso. Meio que “estava tomando um uísque de bobeira num pub e de repente um anãozinho azul me oferece num beco um anel de poder, cujo limite era a imaginação”. Ok, foi bem isso mesmo. A proposta para Kyle Rayner era bem diferente. Ele não seria inteiramente um personagem cósmico. E a tragédia comum aos heróis com ele se daria num tempo diferente, não antes de ser Lanterna Verde, mas depois de se tornar um Lanterna Verde. Sua primeira perda depois de se tornar “o” Lanterna Verde foi sua namorada e amiga, Alex. E a morte foi uma das mais chocantes nas histórias das HQ: ela foi quebrada em pedaços e colocada na geladeira do apartamento que dividia com Kyle Rayner.

Kyle Rayner, Lanterna Verde: herói, artista, líder e sobrevivente

Alan Scott, o Lanterna Verde original

Por anos o único Lanterna Verde foi Kyle Rayner. Suas histórias eram mais focadas na realidade terrestre. E seu “mentor” foi aquele que primeiro portou o título de Lanterna Verde: Alan Scott. Acho uma pena esse personagem ser tão subaproveitado no universo do Lanterna Verde, residindo quase que exclusivamente na revista da Sociedade da Justiça. Mas vamos lá! Kyle Rayner portou o anel de Lanterna Verde durante anos, foi membro dos Novos Titãs e também da Liga da Justiça. Foi uma espécie de novato no mundo dos super-heróis e isso, em parte, foi o objetivo da DC. Criar um público diferencial para o personagem, assim como na decada de 1960 o personagem Lanterna Verde foi revitalizado para um novo público. Originalmente, os poderes do Lanterna Verde Alan Scott eram ligados a magia e sua fraqueza era a madeira e no caso do Lanterna Verde Hal Jordan sua “mística” era ligada a ficção científica e sua fraqueza era a cor amarela.

Mas essa mensagem de revitalização da franquia segurou as pontas por um tempo, mas logo foi se “dinamitando”. John Stewart que ficou paralítico voltou a andar e ser Lanterna Verde no posto da Liga da Justiça e Kyle Rayner percorria o espaço convicto da necessidade da existência de uma nova Tropa dos Lanternas Verdes. A situação de perdição editorial era tão grande sobre o que fazer com Hal Jordan que até o Espectro ele se tornou. É, para quem era fã do personagem, era demais pra cabeça. E dai, com milhares de fãs descontentes, era a oportunidade de um movimento nerd ganhar força. Não sei se tem nome, mas são fortemente ligados a Era de Prata das HQ e são meio que obcecados em “apagar” ou dar menor importância a personagens que tenham surgido na decada de 1990 ou que tenham substituido os “medalhões sagrados”, como Lanterna Verde e Flash. Não sei o nome, como disse, mas esse movimento é representado por Geoff Johns e Alex Ross.

Johns trouxe Hal Jordan de volta com “Lanterna Verde: renascimento”. Ele revitalizou de verdade a franquia, trouxe Jordan como protagonista da revista Green Lantern e Dave Gibbons e, mais tarde, Peter Tomasi trouxeram de volta a revista Green Lantern Corps. O sucesso foi instantaneop. Johns retomou vilões clássicos e revigorou-os, especialmente Sinestro, agora um verdadeiro ex-mentor de Jordan e sem aquele visual de bobo da corte. E deixou mais sinistro, perfazendo, perdoem-me, um essencial trocadilho com o nome do personagem. Mas a principal mudança foi de status com Parallax: de mudança comportamental de Hal Jordan, Parallax passou a ser uma espécie de entidade vinculada ao medo. E Johns conseguiu reerguer o personagem, trazer também John Stewart como Lanterna Verde da Terra e Tomasi conseguiu a proeza de dar relevância a Kyle Rayner (depois dele perder a revista Lanterna Verde para Hal Jordan) e a Guy Gardner na Tropa dos Lanternas Verdes. E a coisa ficou bem feita.

Só tinha um certo problema: existia uma comparação constante entre Jordan e Rayner. Era meio lógico, Rayner foi Lanterna Verde por mais de dez anos e havia criado uma legião de fãs. Johns, para equiparar os dois personagens, fez duratne a excelente saga “Sinestro Corps War” o elevamento maléfico de status de Rayner, transformando-o também num hospedeiro de Parallax. Agora todo mundo “quites”.

De qualquer forma, o selo “Lanterna Verde” virou selo de sucesso. Até no Brasil o personagem passou a ter revista própria (me lembro de uma seção de cartas na revista da Liga da Justiça pela Editora Abril onde perguntavam se existia alguma chance do personagem Lanterna Verde ter sua própria revista e o editor na época, que não lembro o nome, ter dito que achava difícil esse personagem ter revista por ter poucos fãs) e, neste ano, vai estrelar um filme com Ryan Reynolds no papel de Hal Jordan.

Hoje, nas bancas do Brasil, está sendo publicado “A Noite mais Densa”. Uma espécie de “fechamento” da Trilogia do Lanterna Verde por Geoff Johns (Lanterna Verde: Renascimento, Guerra da Tropa Sinestro e Noite mais Densa). E está muito legal mesmo ler Lanterna Verde, com o aparecimento de outras Tropas ( inclusive a Tropa dos Lanternas Vermelhos, movidos pela raiva, vai ter sua revista própria) e séries animadas do Lanterna Verde. Diferentemente do passado longínquo e empobrecido em que comecei a ter contato com os personagens Lanternas Verdes, hoje em dia as coisas seguem positivas para o universo do Lanterna Verde. Ainda bem. Espero que continue assim por um bom tempo.

 Como aperitivo para @s fãs, o terceiro trailer do filme do Lanterna Verde que terá Ryan Reynolds interpretando Hal Jordan e Mark Strong como Sinestro (ainda um Lanterna Verde). Nele podemos apreciar Oa e a Tropa dos Lanternas Verdes. Dia 17 de junho acontece a estreia nos EUAm enquanto no Brasil o filme chega apenas em 19 de agosto, configurando uma excelentíssima burrada por parte da Warner Brasil.

Agora assistam o terceiro trailer e confiram comigo no replay se é pra empolgar ou não!

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Um pensamento sobre “No dia mais claro, na noite mais densa: o legado da força de vontade dos Lanternas Verdes

  1. Amei o post, bem escrito, dá vontade até de voltar a ler algumas coisas. Vc sabe quem é o “meu” lanterna, mas entendo sua devoção ao John Stewart e ao Rayner…
    Das informações a única que achei perturbadora é Ryan Reinolds como Lanterna. Hey, pera aí, esse não é o cara que vai fazer o Thor? Não, não é (rs)… loiritude é tudo igual pra mim… kkkkkkk
    Beijos nerdo

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