Cinema e afins

Darren Aronofsky: Cisne Negro

Dos diretores do cinema estadunidense de nova geração acho que há um (embora não seja único, verdade seja dita) que merece estar no seleto grupo de pessoas que fazem bom cinema e conseguem salvar Hollywood do total e completo extermínio intelectual que perpassa diretores e produtores. Seu nome? Darren Aronofsky. Como já disse nos parenteses acima, outros podem estar incluidos nesse seleto grupo. Cristopher Nolan é um deles com certeza. Sophia Coppola também é outra. E Alejandro González Iñárritu. Existem outr@s? Talvez, mas não me lembro de cabeça e talvez isso reflita em suas cinematografias com pouco impacto em minha memória de elefante.

Mas voltemos a Aronofsky. No seu cardápio de filmes para o grande público (sim, aqueles que nos chegam) estão pérolas do cinema contemporâneo como Requiem para um Sonho e Pi, além de Fonte da Vida, O Lutador e, recentemente, Cisne Negro. Todos filmes chamados de “conteúdo”. Já havia visto todos os filmes de Aronofsky com excessão de O Cisne Negro. Mas ontem quebrei essa excessão. E pra variar só um pouco, também de madrugada. Espere, é importante dizer que TODOS os filmes do Darren Aronofsky que assisti sempre foram assistidos nesse período do dia/noite que nunca consigo definir metafisicamente bem. Mas para compensar essa ontologia noctívaga, aproveito bem o clima agradável (em geral) e o silêncio para apreciar bem os filmes de Aronofsky. E com Cisne Negro não foi diferente.

Quando li no Omelete, logo após o lançamento nos cinemas de O Lutador, que o próximo filme de Darren Aronofsky seria sobre o mundo do balé fiquei meio com o pé atrás. Provavelmente preconceito com essa dançarte. Diziam que a história focaria uma bailarina mais experiente em competição com uma mais jovem em ascensão. Bom, fiz uma careta e deixei. Com o tempo viriam mais notícias e com elas informações mais ou menos importantes sobre a trama e sobre quem estaria atuando no filme. E aconteceu. Notícias boas, inclusive. A trama seria de suspense, mas um suspense que poderia redundar em sobrenatural ou não. E teria Natalie Portman no papel principal da bailarina experiente em vias de ter seu maior momento na carreira ao atuar numa produção de “O Lago dos Cisnes”.

Daí foi fazer o que qualquer fã faz na expectativa de um filme: aguardei, esperei, encostei, deixei passar para ver qual seria.

E foi. Assisti ontem na boa e velha madrugada a “Cisne Negro” e posso recomendar: vale cada minuto de filme.

Vincent Cassel e Aronofsky confabulando durante as filmangens de "Cisne Negro"

Primeiramente, novamente, pela direção. Aronofsky acertou em cheio na condução da trama e na escolha das atrizes/atores para conduzir uma trama complexa que não casa bem com quem quer assistir um filme só para “matar tempo”. A trilha conduz parcialmente a angústia da personagem Nina (Natalie Portman) e o ritmo da trama, orquestrada pela sempre bem conduzida edição dos filmes de Aronofsky, nos faz compartilhar da sensação desesperadora que a personagem Nina experencia. Para não dizer que o roteiro do filme (Mark Heyman & Andres Heinz) permite, acredito que intencionalmente, “buracos” na trama que nos faz perceber que realmente todo aquele desespero da personagem tem total sentido.

Assistindo ao filme fiquei seriamente tentado a realmente incorporar o elemento sobrenatural a trama. Mas acho que não é por aí. A raíz ou as raízes de toda angústia e desespero de Nina parecem, ao se observar numa primeira vez o filme, tipicamente a repressão sexual que a personagem, a todo momento, transparece aos outros personagens. É tanta repressão da própria sexualidade que só poderia gerar alguns demônios nada camaradas. E realmente é isso que parece acontecer na trama. Ao conquistar o posto de protagonista de “O Lago dos Cisnes”, Nina se vê diante do desafio de interpretar tanto o “Cisne Branco” quanto o “Cisne Negro” na clássica dicotomia de cores ligadas, no melhor da tradição euro-americana cristã, ao bem e ao mal. No caso, Nina é boazinha demais, passiva demais. Algo que, ao se interpretar o “Cisne Negro”, não cairia nada bem. E o diretor (Vincent Cassel) da montagem de “O Lago dos Cisnes” reforça essa percepção. Nina deveria se masturbar para se soltar.

Nina tem uma mãe extremamente protetora que, aparentemente, “castra” a filha no viver a vida. Vivendo sob a sombra dessa mãe, Nina é encarada e mesmo se encara como uma garota de 12 anos, apavorada com o desafio imposto e sem saber lidar com sua sexualidade feminina forte e intensa. A “saída” é a chegada íntima de sua “concorrente”. Muitas das paranóias de Nina giram em torno da bailarina mais jovem (Mila Kunis) e da bailarina, em final de carreira, que Nina substitui, fortemente interpretada por Winona Rider.

Imaginem! Sexualidade reprimida somada a competição voraz e enlouquecedora desse mundo artistico que as companhias de dança fazem parte!

Toda essa ssituação somada, como já disse, leva ao desequilíbrio da personagem Nina. Desequilíbrio pautado pelo desespero em gozar. Sim, é o que percebi na trama. Nina precisa aprender a gozar para poder ser o “Cisne Negro”, caso não consiga irá fracassar. E o preço que paga por esse desequilíbrio é alto. Mas optar por pagar esse preço, em meio a esse cenário de caos pessoal que passa a viver sendo assombrada por “outra” Nina, é o preço para ser perfeita.

Resta-nos, ao final do filme, perguntar-nos se podemos ser perfeitos naquilo que queremos, assim como Nina.

Podemos?

Título original: Black Swan
Ano: 2010
País: USA
Direção: Darren Aronofsky
Roteiro: Mark Heyman & Andres Heinz
Duração: 108 minutos
Elenco: Natalie Portman, Mila Kunis, Vincent Cassel e Winona Ryder.

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2 pensamentos sobre “Darren Aronofsky: Cisne Negro

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