Literatura Podre

O FANTASMA DA MÁQUINA

“Eu caminhava pela avenida vazia de almas, arrumei um pouco meu chapéu e continuei. Ah, continuei…o que tinha continuado ? acendi o cigarro e em seguida joguei-o fora, as flores cheiravam melhor e faz mal cigarro, não ? era isso que te diziam também ? Havia um canteiro do outro lado da avenida, um canteiro de lindas flores, vi rosas e margaridas e quem sabe até camélias, me apressei a atravessar a avenida sem me importar com a possibilidade de almas viventes neste momento nas ruas, pois eu sabia que haviam fantasmas e os fantasmas estavam sempre por aí, para assombrar e para mais o que quer que seja e não estou nem um pouco interessado em lembrar, não ?

Fiquei a observar a frente da casa, linda, cheia de gente, damas do dia que se passara e quem sabe até algumas bonecas de pano e farrapos de gente, rosas e margaridas e quem sabe até camélias, O cheiro me atingiu aqui do lado de fora, me chamam, fico como que preso, impedido por uma barreira, me chamam, voz suave, vozes roucas, vozes… Retirei o 38 e comecei a disparar contra a casa, quebrando suas janelas de esperança, e o alarme dispara, era tão feio o som, no no no, muito barulho, fui até lá e me deparei com centenas de flores dentro da casa, todas esparramadas, miríades… não soube como escolher, haviam tantas, tão lindas, o tempo passava também para as flores, e os relógios continuavam a transbordar em minha cabeça, meu tempo de relógios e de flores….

Então a vi, uma rosa, só uma, linda, de cor vermelha suave aos olhos, vi-a, vejo-a agora ao te narrar a história, fixa, não desgrudei os olhos, fui até ela e peguei-a delicadamente, minhas mãos começaram a transpirar, tremer, sangue escorria por elas, eram os espinhos da rosa, eram a proteção dela, toda delicada e preparada para ser cheirada por mim, hum…na casa não havia ninguém mesmo, ninguém…

Um homem de moto parou em frente a casa e começou a gritar comigo, o que você está fazendo seu louco, pirou de vez ? Vou chamar a polícia, e continuou gritando, e olha que deve ser um louco mesmo, só assim para conseguir morar nessa cidade, é isso mesmo, aí eu retirei o 38 e comecei a disparar contra o Homem Falante, e ele ficou com os olhos esbugalhados, mas bem esbugalhados mesmo, acertei no ombro esquerdo, ficaria bom, não era mesmo ? Fui até a moto, grande, nova, agora minha, liguei-a e era agora minha, arremessei longe meu chapéu e mastiguei a rosa, era um sabor bom, muito bom.

Faróis vermelhos, voando rápido, escutou, gritos femininos eu escutava agora, abraçado à velocidade, odores podres, mas eu não te deixaria rosa, aqui no meu estômago você estava bem segura, Está entendendo agora? a cidade sem almas passava por mim, com seus cemitérios ambulantes, bocas que devoravam spagheti, forte contra o vento, o vento batia em mim, no meu rosto desprotegido, minha alma aos poucos deveria estar se esvaindo, tornando-se muitas almas e todas elas errantes, e as mulheres em cima dos telhados das casas deveriam estar gritando em júbilo por mais pão, É, queremos mais pão de mel, bastante senhor e não adianta recusar, nós queremos pão de mel e de milho e queremos circo e sexo, e queremos carinho também, ah, até isto vocês querem ? o que mais pedirão ? clones de vocês próprias para satisfazerem suas vontades e desejos libidinosos ? eu vou disparar contra vocês, aí vocês vão sorrir de verdade, e eu quero que o sorriso de vocês vá para o Diabo que as carregue, suas lindas fêmeas !

Elas passaram, não havia mais sombra alguma na minha memória, via somente a rosa, as vozes na rosa, acelerei a moto um pouco mais, vrum vrum vrum, só um pouco mais, sussurrava o vento aos ouvidos proibidos, Versos, mas não versos satânicos, versos lunares. O Sol da meia-noite, em calado se encontrava à Lua de outro meio-dia a contemplar, disparo mais um tiro agora no pára-brisa de um carro, plaft, cacos, e a avenida era longa, não terminava e eu precisava terminar, dobrei a primeira esquina a esquerda e sabia de alguma forma que ela estava próxima, já próxima das pedras de mim, ou das pedras dos meus rins…

E lá estava a casa dela. Desci da moto e deixei-a cair ao chão, fui até a porta e bati nela, toc toc toc, mas ela não abriu, arrombei a porta, me apressei a ir até o quarto dela…

Andresa, Andresa.

Ela estava deitada nua na cama, toda ensangüentada, com um tiro no meio do peito, e ela via nuvens, nuvens feias, liguei o aparelho de som, aquele vitrolão que ela gostava, coloquei aquele disco do Carlos Gardel e levantei o cadáver dela para dançar um último tango, beijei-a com a rosa e pudemos apreciar esse breve momento de ménage à trois, e dançamos, dançamos banhados em sangue, por um belo tango de Gardel, tão belo, tão sem voz, tão morto, continuava o jogo, vivia o tango, mas decidi procurar por quem a matara, deixei seu corpo na cama e beijei-a, puxei sua língua e pude sentir a vicissitude da Beleza, da beleza da memória e da beleza da ingenuidade, todas elas, todas elas outrora castas.

Saí da casa calmamente, ruas ainda vazias, só fantasmas me olhando e rindo, e outros correndo ao meu redor, brincando comigo e eu desejoso de saber qual era o destino do matador de minha amada. Comecei a correr e enquanto corria ouvia vozes me chamando, gritando meu nome, algumas até familiares, os fantasmas vinham atrás de mim, não desistiam de sua mórbida perseguição, mas velozmente fugi, com os apartamentos com suas luzes acesas como testemunhas, nos iluminando e nos trazendo a tona toda a mentira que estávamos inseridos…

Foi então que parei aqui, de frente a você, chafariz, nesta praça que nem sei o nome. Por isto todas estas sirenes e fantasmas gritando, eu a matei, até gozei com o tiro, matei meu pai e minha mãe, minha esposa e minha filha, que era aquela nua na minha cama, minha filha e amante, minha bailarina, minha…

 

Sua água jorra contínua, ainda tenho uma bala no 38, daqui a pouco vai amanhecer e não quero estar vivo até lá, os fantasmas tentam se aproximar de mim, aponto o 38 e eles recuam, viro-me de costas para eles e retiro meu pinto da prisão e começo a urinar na sua água limpa, Chafariz, mas eu me recuso a rir, te respeito bastante, os fantasmas é que não me abandonam, sei de meus erros, grito a eles, sei de meus erros e minha redenção virá, beijo o 38 com muito carinho, desejo habitá-lo, 38, desejo habitá-lo, ser um fantasma na máquina, dou um tiro direto na cabeça, com meus miolos escorrendo para você, Chafariz, agora vejo através do 38, e dele sei que tudo me faltará para meus crimes compensar, vou dizer bom dia, já que a alvorada já se apresenta para os espectadores…”

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