Literatura Podre

CIDIMAR, O VENDEDOR DE SAPATOS E OS HOMENS SEXUAIS

Um dia o sujeito, exausto do trabalho de vendedor de loja de calçados, esperando pelo ônibus para voltar para casa já fazia quarenta minutos mais ou menos, viu dois homens barbudos se beijando e quase teve um espasmo de ataque.  “Esses homens sexuais boiólicos sem vergonha!”, quase gritou, mas ficou com medo. Já tinha visto homens meio afeminados conversando baixinho na loja, mas dessas coisas nunca tinha visto de perto, até mesmo sua mulher, por sinal mulher direita, uma vez tinha tentado lhe mostrar a cena quando voltavam da igreja de Nosso Senhor, mas preferiu continuar olhando para a avenida para ver se o ônibus chegava.

Constrangido, o sujeito tentou evitar olhar a cena, porque considerava aquilo imoral demais para seus padrões de homem que migrara do interior para a capital. “Se meu pai visse uma cena dessas na rua, batia nesses safados com um pedaço de pau”, pensou amargamente o vendedor de loja de calçados. O vendedor sabia que esses tempos eram outros, hoje tudo isso era normal, mas ele achava que tudo tinha limite, esses imorais podiam até fazer as coisas deles dentro do quarto deles, mas na rua era uma questão de fazer desfeita a moral e aos bons costumes, coisa que não admitia.
Seu nome era Cidimar. Sempre achou seu nome, um nome de pobre, coisa que aceitou ser para o resto de sua vida. Mas Cidimar se orgulhava de viver com honra e criar os filhos nos bons costumes e com boa educação. “Eles não devem ter pai e nem mãe, se não jamais fariam isso na rua”, falou em voz baixa o vendedor de calçados. Como eram somente os três na parada de ônibus, os dois homens se voltaram ao vendedor de calçados. Fulminando-o com olhares de reprovação, o vendedor amaldiçoou a linha de ônibus. “Maldito motorista, cadê a porcaria do ônibus?”, esbravejou o infeliz usuário do transporte coletivo.Neste momento os dois homens se aproximaram de Cidimar, que sentiu uma comichão no braço esquerdo.

“Vou morrer, vou morrer como um indigente”, pensou o vendedor de calçados. Quando um dos homens tocou o ombro esquerdo de Cidimar, este desfaleceu no chão, tal qual um cadáver. Imediatamente os dois homens tentaram reanima-lo, mas de nada conseguiram. Ligaram do celular para o corpo de bombeiros avisando do infarto de um homem na Avenida Conde da Boa Vista, altura do shopping Boa Vista. Em menos de cinco minutos chegou a viatura com os paramédicos do corpo de bombeiros, as poucas pessoas que haviam na rua se amontoaram para ver quem era o desgraçado que passara desta pra pior, mas ninguém reconheceu Cidimar, um respeitado vendedor de calçados. E não demorou em chegar o ônibus de Cidimar. Mas um pouquinho tarde demais para ele.

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