Literatura Podre

O Galã de Churrascaria e a Lady da Coluna Social

Não apenas no começo, mas também agora enquanto estava com ele, nua em seus braços, dois meses depois daquele encontro na avenida Conde da Boa Vista, Luma Costa Brava ainda relutava em acreditar que estava louca e completamente apaixonada pelo impetuoso e sedutor Mauricélio da Silva. As crises morais e mesmo existenciais (que passou a saber existirem depois que fez um curso com o Professor de Filosofia Tarturello Pellicano) a consumiam um pouco a cada dia, mas também não conseguiam lhe impedir de sonhar ser dominada por aquele homem, sentir-se profundamente e imensamente amada, como nunca antes, mesmo namorando os melhores advogados e engenheiros bem nascidos do Recife.

Luma Costa Brava olhava-o com um misto de amor, desejo profundo, reverência, mas muito tesão mesmo. E ele sabia. Mauricélio da Silva sabia disso e sempre a lembrava enquanto a dominava na cama e sussurrava-lhe palavras doces e palavras depravadas no ouvido esquerdo. Luma Costa Brava não resistia a seus encantos e também sabia disso. A vida dos dois, entretanto, era um segredo. Um pequeno segredo, perdoa-se o trocadilho.

Mauricélio da Silva era anão e trabalhava como cantor de churrascaria na cidade do Recife. Luma Costa Brava era designer de interiores e sociality do Recife e circulava nas maiores e melhores baladas da cidade. Dois mundos opostos que se encontraram casualmente num pequeno e desastroso dia quente característico da cidade.

“Mauricélio, te amo!” repetiu Luma Costa Brava ao sentir aquelas pequenas mãos do anão percorrerem suas coxas. O anão, com um sorriso sacana, apenas respondeu: “eu sei”.

Quando se conheceram, Luma Costa Brava o desprezou de imediato. Ela caminhava, a contragosto diga-se de passagem, pela avenida Conde da Boa Vista, na altura do Shopping Boa Vista. Sua figura linda e esbelta, vestida num belo e caro vestido branco de grife, com dentes brancos e cabelos castanhos bem escovados, contrastava com as pessoas feias, desdentadas e machucadas pela vida de vendedores ambulantes e apreciadores de quentinhas que transitavam pela avenida. Procurava com o olhar sua empregada, Roberlândia, mas não conseguia encontrar a magra e desengonçada mulher. “Ai, essa Roberlândia me paga, me fazer vir aqui encontrá-la para pagar sua consulta médica, porque não pegou o dinheiro comigo ontem a noite antes de sair de casa?”, resmungava Luma Costa Brava.

Enquanto, desesperada por encontrar Roberlândia, Luma Costa Brava o viu surgir ao longe. No início quase não prestou atenção no anãozinho. Ele caminhava despreocupado, parecia alheio a tudo que o cercava. E seus olhos pareciam não desviar dela. Luma Costa Brava, percebendo a situação, voltou a procurar com o olhar e também a amaldiçoar Roberlândia por sua incapacidade de surgir. “Maldita!”

Luma Costa Brava, já desesperada, entregou-se a perceber aquele exótico anão que caminhava em sua direção. Seu visual revelava extravagância: camisa estampa havaiana aberta, algumas correntes de ouro saltando sobre seu peito cabeludo, óculos ray-ban (certamente comprado no camelô) ressaltando suas longas costeletas e calça jeans (que certamente teve de encomendar).Era preconceituosa sua análise, reconhecia, mas e daí?

Ao se aproximar mais ainda dela, o anão, num gesto de pretenso charme, abaixou seu óculos escuros ray-ban e a fitou selvagemente num estilo meio james jean. Luma Costa Brava sentiu-se invadida com toda aquela selvageria. “O que é isso? Esse anão está me secando?”, pensou a socialite do Recife.

Ao passar por ela, Luma Costa Brava sentia seu coração palpitar fortemente e não entendia o porque disso. Era surreal demais. Então o anão, com um belíssima voz, olhando-a de cima a baixo de uma maneira que nunca sentiu ser olhada, lhe dirigiu a palavra: “Ê, lá em casa!”

Luma Costa Brava tremeu. Não soube como reagir àquela inusitada situação. Virou-se pra trás e o anão seguia seu caminho, nem ao menos olhando-a por trás como todos os homens em geral fazem. Ela engoliu em seco. Neste momento chegou a sorrir e pensar em como um anão miserável que deveria sentir pena de si mesmo a todo e qualquer momento teve a audácia de abordá-la, uma mulher como ela. Sem ainda entender o que havia ocorrido, Roberlândia cutucou-lhe o ombro: “Ei, Dona Luma, tá tudo bem cocê? O ônibus atrasou dimais e a consulta no dotô é daqui a pouco…”

As palavras de Roberlândia se perdiam. De verdade, as coisas, neste momento, faziam pouco sentido.

1 semana havia se passado. Luma Costa Brava, neste período, ficou com aquele momento se repetindo e se repetindo em sua mente. E, claro, não teve coragem de dividir essa inusitada e surreal história com ninguém. Era algo tão particular que até chegou a pensar que deveria estar ficando louca. Decidiu, então, chamar alguns amigos e amigas para irem ao restaurante Entre Amigos – o Bode. Seria ideal: Robertinho havia chegado de Londres na semana passada e seria o momento ideal para ouvir boas histórias. Telefonou para todos e todas. Houve unanimidade no encontro e no local. “Vai ser perfeito!”, dizia para si mesma.

No restaurante, pediam chopp e petiscos. O papo estava animadissimo. Luma Costa Brava estava linda. Todos os homens e mulheres do restaurante lhe observavam. Alguns e algumas com inevitável desejo e outros e outras com certo espanto por tão bela mulher existir no plano desta realidade. Luma Costa Brava se sentia feliz. Parecia até uma mulher renovada e tudo graças a alguns olhares devoradores. Toda essa semana estranha desde o encontro com o anão se desvanecia, sentia em seu íntimo.

21:30 da noite. Algumas cervejas depois uma voz levantou-se. Grave, mas doce. Para Luma Costa Brava a conversa da mesa, embora estivesse ótima, deixava de ser tão importante. Queria escutar e apreciar aquela voz cantando “Love me Tender”, música tão bela sob a voz do rei do rock, Elvis. Curiosa, ela procurou com o olhar o cantor. Gostaria de parabenizá-lo depois. Não é muito comum bons cantores atuarem em churrascarias e restaurantes. Envolta pela música e sem ouvir mais nada a seu redor, Luma Costa Brava ergueu-se da mesa e deslizou pelo salão do restaurante, querendo visualizar esse cantor, mas estranhando por não conseguir vê-lo…

E lá estava ele. O anão, aquele mesmo anão que havia encontrado na avenida Conde da Boa Vista, o mesmo anão que havia lhe provocado coisas, que povoou sua mente por toda esse tempo desde aquele casual encontro. E ao vê-la, o cantor anão mirou-lhe os olhos e cantou apenas para ela, Luma Costa Brava sabia em seu mais profundo íntimo.

Love me tender,
love me sweet,
never let me go.
You have made my life complete,
and I love you so.

Dois meses depois do encontro na Churrascaria:

O escândalo em sua família foi avassalador.

– Descendentes dos holandeses e você está se deitando com um maldito anão cantor de churrascaria? gritava seu pai.

– Estou apaixonada por Mauricélio e nada vai me fazer jogar fora a felicidade que tenho com ele em troca de viver uma vida de namoros com homens grandes e fúteis como todos aqueles que me apresentou, papai!

– Mas que merda é essa, meu deus?! um maldito anão cantor de churrascaria chamado Mauricélio, meu deus! Mauricélio, maldito nome de pobre, deve ser a mistura do nome do pai e do nome da mãe! E você quer isto para você, minha filha?

– Quero, pai. Já vivemos juntos. Sou feliz como nunca antes fui.

– Que palhaçada de felicidade coisa nenhuma. Você tem nome e sobrenome. Não admito que você manche o sobrenome de nossa família. Se você quiser, te compro uma passagem para a Europa agora. Você pode viajar hoje mesmo. É só me dizer…

– Desculpe-me, pai. Não queria magoar o senhor. Ninguém mesmo. Mas preciso viver minha vida…

 

Luma, apenas Luma agora, foi expulsa de casa. E seu pai ameaçou mandar matar o anão, “como seu avô teria feito se estivesse vivo”.

Mas de verdade? Nada importava. Abraçada a Mauricélio, Luma chorava baixinho.

– Fique em paz, meu amor. Vamos embora do Recife, vamos para São Paulo, cantarei como cantou meu ídolo Nelson Ned. Que nos tornemos, então, retirantes. Retirantes do amor.

– Ah, Mauricélio, como você é brega….


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