Literatura Podre

“Alta Gastronomia do Asfalto”: desejo, repressão e churrasco grego

Andou com vagar, quase em câmera lenta. Sentia seus pés tremerem e suas pernas fraquejarem de tanta emoção. Não podia mais ouvir nada: nem seguranças pessoais, nem sua namorada Walkíria. Os olhos brilharam com tanta intensidade que pareciam diamantes azuis. O alvo desse olhar? A barraquinha de churrasco grego que se encontrava a sua frente. Com muita gordura, ressaltou enquanto algumas lágrimas começavam a se juntar nos olhos azuis herdados de seu milionário e vegetariano pai. Martin finalmente havia decidido vencer seu medo: iria comer o famoso churrasco grego. E nada o deteria. Mas era um sonho ou pesadelo, mais um de tantos outros que lhe assombrava a mente nos últimos anos. Mas antes, um pouco de sua condimentada biografia.

Martin Feliciano Souza e Médici foi “criado no danoninho” e “soltando pipa no ventilador”. Estudou nas melhores escolas e, principalmente, comeu as comidas mais finas: Cassoulet e Carpaccio Tonnato, marcaram-no desde criança. Almoçou em restaurantes ótimos como restaurantes Charpentier e Le Foyer em Campos do Jordão. Viu seu pai promover inúmeros encontros gastronômicos em seu apartamento, nos Jardins, em São Paulo. Pessoas bem vestidas e de status na sociedade paulistana. Gente com dinheiro e bom gosto para comida e bebida. Martin cresceu em meio a apreciadores das mais exóticas e elaboradas comidas e dos mais saborosos vinhos, sejam franceses, italianos, sul africanos ou californianos.

Mas era uma vida que não lhe interessava de verdade. Nem quando criança e nem quando se tornou um homem adulto. Estudou na infância e adolescência no Colégio Vértice, fez uma graduação e especialização em Economia na FGV e sempre, em todo e qualquer lugar, comeu do bom e do melhor. Tudo lhe era servido, praticamente. Não corria atrás de nada. Menos quando conheceu a verdadeira comida das ruas e avenidas paulistanas. Como nunca foi de viajaar, com o avançar da idade, passou a percorrer de carro as ruas de São Paulo. E foi através da “gastronomia do asfalto” que conheceu de verdade o que era a comida do dia a dia de milhares de pessoas na cidade de São Paulo.

No início Martin fugia da escola ou da faculdade para poder apreciar saborosos cachorros quentes. Sempre preferia aqueles cachorros quentes localizados em esquinas movimentadas, onde impera a pressa e o quase desespero. Nestes lugares você pode encontrar o mais legítimo e verdadeiro fast food. Martin buscava com olhar milimétrico aquele “carrinho de cachorro quente” que transparecia pouco cuidado e que seu “comandante” tivesse a aparência mais descuidada possível. Talvez sua única exigência fosse que o preparador de cachorro quente (sim, era um preparo quase metafísico, pensou enquanto devorava um cachorro quente na rua Augusta) fosse fumante. Sentia certa satisfação em ver o cigarro na boca do sujeito (ou da “sujeita”) enquanto preparava o molho e imaginava, então, as cinzas do cigarro derby paraguaio se juntando ao molho baseado num extrato de tomate barato e quase vencido. Era uma satisfação indescrítivel.


Por longos anos percorreu a cidade buscando saborear o mais verdadeiro cachorro quente urbano de São Paulo. Mas seu objetivo de verdade era comer um legítimo “churrasco grego”. Mas, ao final da noite, no seu luxuoso e nababesco apartamento, quando se recolhia ao seu leito depois de tomar seu leitinho quente com nescau e tinha sua amada Walkíria ao lado, pensava sem parar num gorduroso, calórico e nenhum pouco saudável churrasco grego. O engraçado é que o desejo pelo churrasco grego, que sentia ser reprimido de certa forma, alimentava sua libido. Em bom português: imaginar aquelas carnes de segunda juntas num rolete, rodando e rodando o dia inteiro, sujeitas a muita poluição das ruas, estimulava alucinadamente sua sexualidade. É claro que era algo que ficava reservado para si. Jamais contaria a Walkíria. Ela era uma garota bem nascida e jamais entenderia essa fantasia sexual.


Mas toda repressão cobra seu preço. E Martin estava pagando o seu. Certa vez chegou a falar um pouco com Walkíria sobre esse desejo de comer churrasco grego. Ela, como esperava, foi radicalmente contra. Por todos os motivos de saúde possíveis de se dizer a alguém com esse desejo disse que era sandwich nojento, que só era comido por pessoas pobres que não tinham dinheiro para comer coisa melhor. Era uma argumentação preconceituosa, sabia. Mas Martin não se importava. Chegou a conclusão, nesta conversa, que seria melhor Walkíria não saber de nada.

O acúmulo de desejo pelo churrasco grego por todos os anos começou a pertubar-lhe o sono e também o trabalho. Seus rendimentos nas empresas de sua família eram menores e até mesmo a vontade de se casar com Walkíria diminuia consideravelmente, embora fosse apaixonado por ela. Assim nasce o desespero, pensou certo dia enquanto observava-se no espelho e se preparava para ir almoçar com os funcionários do escritório.

Nada valia mais a pena. Chegou então a conclusão que pesquisaria o mais tradicional churrasco grego de São Paulo. E nada o impediria, muito menos sua namorada Walkíria que, por sinal, era nutricionista.

Foi quando às 23:00 de uma quinta feira chuvosa, por acaso, ao passar de carro pelo Largo do Paiçandú em frente a Galeria Olindo, teve a “revelação”. Sua emoção, ao ver o rolete do churrasco grego, foi tamanha que soltou um grito. O motorista virou-se assustado para Martin perguntando-lhe se estava tudo bem.

– Está tudo ótimo. Pare o carro imediatamente. Preciso descer, Osvaldo.

-Dr. Martin, tem certeza? Ainda mais neste horário…

-Preciso sim. Pare o carro. Vou descer.

 

 

Martin desceu do carro e encaminhou-se a barraquinha de churrasco grego.  O atendente, já lhe foi sugerindo o churrasco grego com direito a um suco de laranja ou caju. ” Boa noite, dotô, sou o Mineiro, aqui tudo é muito asseadinho e o churrasco grego e o suco sai tudo por R$1,50, dotô, tá baratinho demais e mata bem a fome”, assegurou Mineiro.

Martin sorriu. Era o momento. Se realizaria agora ou nunca. Observou com um misto de temor e tremor o rolete de churrasco grego. “Esta carne que está a minha frente deve estar rodando o dia inteiro e a noite inteira, muita fumaça, muita gente espirrando, tudo isso…”

Era o momento mesmo. O motorista Osvaldo observava-o, atentamente. Sem entender muito bem o que ocorria.

– “Seo” Mineiro, quero um completo com suco de caju.

Mineiro olhou-o com satisfação. Osvaldo ficou apreensivo, imaginando seu patrãozinho “pegando” uma doença do “estrombo”, mas Martin? Martin parecia voltar a ser criança. E sentia-se o homem mais feliz do planeta. Graças a gordurosa, calórica e quase metafísica refeição de churrasco grego que lhe trazia Mineiro.

A palavra para definir tal momento?

Sublime. Nada mais e nada menos.

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