Sci Fi no Cinema

Tron – o legado: bom de ver, melhor ainda de escutar

Quando vi o anúncio de que filmariam uma espécie de continuação de Tron, cráçico da decada de 1980, fiquei com os dois pés atrás. “Lá vem um pastelão da Disney. Devem até colocar o Mickey no meio do filme para garantir uma publicidade ao ratinho miserável!” Nem trailer tive vontade de ver. Acreditava que o filme seria cosmético e meio fifi. Trocando em miúdos: não valeria a pena gastar um centavo da minha bolsa para ver o filme, no máximo esperar alguns meses para ver passar na tv a cabo. Era isso e pronto.

Mas aí vieram as férias e com férias não se brinca. Melhor oportunidade para poder ver um par de filmes no cinema e achar que tá pagando de barão. Foi o que fiz. E, diriam os antigos, “caí do cavalo”.

Quão grande, melhor, enorme mesmo foi meu erro ao acreditar que Tron – Legado seria uma lástima. Errei feio demais. Primeiramente, devo reconhecer, o filme já conquistou minha confiança exibindo uma trilha sonora espetacular. Há muito não sentia prazer em assistir um filme escutando uma trilha sonora. Os arranjos são espetaculares. Parecem conduzir a percepção visual do filme, inclusive uma percepção lisérgica, afinal, toda a estética do filme beira o surreal. Sentado na poltrona relativamente confortável do cinema, fiquei pensando em alguém, após ingerir LSD, assistindo ao filme e sendo conduzido, por sua trilha sonora, ao emaranhado metafísico-tecnológico que perpassa cada cena. Seria interessante, no mínimo, ler algum relato deste tipo de aventura, mas não é o caso para agora e nem o objetivo.

De qualquer forma, o Daft Punk foi o verdadeiro maestro do filme. Não tiro o mérito, de forma alguma, do diretor. Na verdade, acho que a inserção da trilha sonora na estrutura narrativa do filme afina a percepção do mundo de Tron. E faz aos mais velhos rememorarem cráçicos como Sweet Dream’s do Eurythmics. Chegou em alguns momentos que eu queria fechar os olhos e apenas escutar as músicas e permitir a imaginação correr com as adequadas imagens para preencher as “lacunas” imagéticas do filme.

Mas nem só de música boa, muito boa, é feito Tron – Legado. O filme é bem conduzido, permitindo seguir uma trama simples (filho em busca do pai que enfrenta sua antítese que nada mais é do que seu reflexo do ” Lado Escuro da Força” ) ao mesmo tempo que permite “viajar” nos detalhes (importantissimos) da trama. E por detalhes refiro-me aos aspectos quase metafísicos contidos na trama. Imaginem, para um filme que tem os dois pés na cibernética e na nanotecnologia, as referências, em muitos dos diálogos, beira o teológico. Termos como “Criador” (Flynn), a rebelião da criatura (CLU, em português) e seu domínio e o final apoteótico entre Criador e Criatura imprime, ao menos pra mim, um verdadeiro avanço na complexidade do filme. A impressão que tive é que as realidades do filme (a “nossa” e a do mundo de Tron) são sobrepostas. E a realidade de Tron, tão minúscula a nossos olhos, é na verdade uma dimensão paralela, com todas as implicações físicas posiveis para isto.

Cráçico poster de Tron

Verdade seja dita: é um dos casos raros em que a continuação se sai melhor que o filme que o antecede. É irônico perceber, em Tron – o legado, a “herança reversa” de Matrix. Se formos comparar bem, muitos dos elementos deste Tron existem em Matrix, mas também não foi a história de Matrix fortemente influenciada por Tron (além da HQ Os Invisíveis de Grant Morrisson ou a trilogia do Sprawl de W. Gibson?) e, agora, vice-versa?

Jeff Bridges de certa forma rouba o filme para si. Digo isso porque consegue interpretar dois personagens diferentes no mesmo filme, distinguindo-os muito bem para o telespectador. E para conseguir isso, só sendo muito bom ator. O restante do elenco está razoável. Apenas. Nada que comprometa o filme, ao contrário. As cenas de luta estão no ritmo da nova trilogia Star Wars, mas o que empolga mesmo é como o cenário é utilizado nestas lutas (sim, a corrida de motos é espetacular). O espanto de Sam (o filho de Flynn e “protagonista” do filme) pelo mundo de Tron é o mesmo que tive (mérito do ator que esqueci o nome, mas até o final do post relembrarei), a diferença é que eu estava sentado tranquilamente na poltrona do cinema e ele quase tendo a cabeça decapitada por um daqueles discos. E aqui lembro novamente a trilha sonora: o mundo de Tron é apresentado tanto pelo visual neon quanto pela música. E nessa mistura, existe o mais puro e belo som & fúria, parafraseando Shakespeare.

Não sei se haverá uma continuação para o filme. Nem sei se precisa. O que sei é que vale a pena ver novamente o filme no cinema e ter o DVD em casa. E, claro, vale muito a pena ficar escutando a trilha sonora durante horas e horas, como estou fazendo neste momento. De lambuja, um vídeo do Daft Punk:

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2 pensamentos sobre “Tron – o legado: bom de ver, melhor ainda de escutar

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