Literatura Podre

A DAMA DO LIMPA FOSSA

Não nego que sou homem apaixonado. Morro de paixão um pouquinho a cada dia. Sou tão apaixonado que, dizem meus amigos, chega a dar pena de dó de mim. Vergonha é passar fome, como diria meu avô falecido. Por isso não tenho vergonha de amar. Essa paixão, esse amor me deixa meio encabulado às vezes, principalmente quando fico chorando baixinho, até soluçando, quando vejo propaganda de margarina e pasta de dente. Todas aquelas pessoas sorrindo e cantando e dançando, todas com dentes e todos os dentes bem branquinhos. Veja, meu amor é tão grande que nem consigo sentir inveja dessa gente feliz e com dentes e cabelos bem tratados. Amo todos eles. Mesmo com meus dentes cariados e meu cabelo maltratado da vida que só vê sabão de barra pra lavar.

Dizem que sou meio trouxa, mas acho que isso é mentira. Sou sujeito trabalhador, que paga as contas em dia, assuste Raul Gil no Sábado e no Domingo, quando não tenho serviço de emergência, deixo as minhas roupas bem asseadinhas, gosto de comer de tudo, mas gosto mesmo é de arroz, feijão, alface, tomate e carne, principalmente se for carne de porco, uma carne muito gostosa por sinal. Esse pessoal que diz que sou trouxa diz porque não tem mais o que fazer. Digo isso sem querer falar mau de ninguém, mas é verdade. Bando de gente desocupada. Já tenho de trabalhar o dia inteiro e ainda tenho de agüentar mugido de vizinha reclamando da vida porque o marido não come direito. Sou homem direito, porque se não fosse ia dar um jeito nesse bando de mulher despenteada e desdentada que é vizinha minha.

Mas uma coisa é certa. Sou apaixonado. Inclusive pelo meu casebre, uma meia água que construí tem uns dois anos que cabe eu, a cama, a geladeira, o fogão, o armário , um sofá, uma estante com uma imagem de Nosso Senhor e de Nossa Senhora, uma televisão 14 polegadas e um aparelho de som e isso tudo já é muito. Sorte que teve espaço pra uma cozinha e o banheiro. Mas tenho de confessar uma coisa. Só tem duas coisas que posso dizer que sou mais apaixonado que tudo nessa vida. Meu trabalho e a dama. Só não sei o que amo mais.

Meu nome é Chico. Na verdade, meu nome é Antônio Jesus da Silva Filho. Acho um nome bonito que chama a atenção onde vou. Só não entendo até hoje porque todo mundo me chama de Chico. Deve ser porque tenho cara de Chico e não de Tonho. Sou motorista de caminhão de Limpa Fossa. Já até sei. Tem gente que revira a cara quando digo minha profissão. Eu acho besteira. Além de ser um trabalho como outro qualquer, ele ainda te dá umas coisas que não consigo encontrar em outros trabalhos. Por exemplo, vire e mexe eu encontro dinheiro na merda que a mangueira puxa. É mesmo. Às vezes encontro até nota de cinqüenta reais. Não sei bem o que uma nota daquelas faz na merda, mas de qualquer forma nunca ouvi falar de açougueiro que encontrou uma nota de cinqüenta reais no torresmo de um leitão. Isso me deixa mais animado ainda com minha profissão.

Uso uniforme e tudo mais. Me sinto gente importante quando to dirigindo o caminhão e as pessoas param pra me ver passar. Até me divirto um pouco com as caretas. Esse povo é muito cheio de frescura mesmo. Mais divertido ainda é gente rica tendo de cheirar toda aquela merda andando pela cidade. Fico mais apaixonado ainda pelo meu trabalho.

Por falar em gente rica, a mulher que amo é dessas ricas. A menina é bonita mesmo. E não to inventando nada do que to dizendo aqui. Ela me ama. Do jeito dela, mas me ama mesmo assim. Nos conhecemos enquanto eu fazia um selvisso no prédio dela. Era quase fim de tarde. Ela voltava da caminhada como toda menina rica faz. Roupinha bem colada no corpo, peitinho duro, cabelinho preso em forma de rabo de cavalo, bundinha empinada. Achei ela um tesãozinho, mas como tava trabalhando, fiquei na minha. Mas ela parou na minha frente e ficou ali um tempo. Até hoje pergunto a ela porque tinha feito aquilo. Ela nunca me respondeu, mas tenho certeza que foi por causa do cheiro. Não sei se já disse, mas cheiro de merda de rico fede mais que merda de pobre. Acho que é porque rico come coisa diferente e não gosta de peidar muito.

De qualquer forma, fiquei preocupado com ela e perguntei se tava tudo bem. Ela disse que sim e me perguntou o que era aquilo. “Aquilo” que ela se referia era o trabalho de desentupir a merda toda do prédio de grã-finos que ela morava. Foi o que disse. Ela ficou com uma cara tão assustada que pensei que tinha dito algum palavrão pra menina cheirosa. Daí esqueci que ela era grã-fina e comecei a desabafar. Falei tudo que pensava sobre aquele monte de merda, sobre as diferenças de merda de rico e merda de pobre, merda de pessoa sem dente e merda de pessoa com dente, tudo que eu tinha pra dizer eu disse a ela. Quando me dei conta, ela estava quase chorando. Daí fiquei assustado e pensei: “fudeu, agora vão me colocar no casão!” Mas logo em seguida ela me abraçou com aquele corpinho que Deus, em sua Infinita Misericórdia, emprestou pra ela e me disse que pensava a mesma coisa, que também nunca teve oportunidade de se expressar por causa daqueles burgueses neoliberais do prédio e mais um monte de outras coisas que não entendi bem, porque só formei até o 2º Grau.

Ela me deu o número do telefone dela e me pediu pra ligar pra ela no outro dia, na parte da manhã. Aguardei ansioso pelo outro dia. Passei suando a noite inteira imaginando coisas que nem ouso dizer aqui. Então liguei. Ela se chamava Samantha e queria me encontrar num parque da cidade, o Mãe Bonifácia. Nos encontramos. E todos os dias passamos a nos ver. Até o dia que ela me pediu pra dirigir o caminhão de limpa fossa. Achei aquilo perigoso. Imagina se acontecesse alguma coisa? Ia sobrar pro pobretão desdentado e de cabelo lavado com sabão de barra. Mas ela insistiu. E mulher bonita quando quer alguma coisa com homem feio de doer o dente, como eu, consegue o que quiser. Conseguiu com dois beijos na minha cacunda. Só então ela me disse pra que seria essa aventura. Ela queria dirigir o caminhão da limpa fossa na Festa de São Cristóvão quando os caminhoneiros fazem carreata pra saudar o santo. Deus que me perdoe, mas tive vontade de largar mão daquele filezinho, mas pensei com a cabeça de baixo e sabia que nunca mais ia conseguir uma mulher bonita como aquela. E ela dirigiu. Sentiu-se a rainha da cocada preta. Os caminhoneiros barrigudos e desdentados ficaram todos salivando de vontade de pegar na minha sarapatelzinha, mas nada disso. Nem deixei chegar perto pra não pegar bicheira do bando de vagabundo. Aquilo tudo me fez ficar completamente apaixonado por ela.

O pai dela nem deve existir porque ela nunca fala dele e nem da mãe. Acho que são fazendeiros ali do Nortão. Imagina se soubessem o que se passa com a filhinha limpinha deles, pilotando caminhão limpa fossa e dormindo com um sujeito com poucos dentes e que lava o cabelo com sabão de barra. Mas minha paixão por ela só cresce, como cresce minha paixão pela minha profissão. Esses dias atrás ela me disse que queria largar tudo, faculdade de Nutrição, cursinho de inglês e francês, apartamento de luxo no Goiabeiras, tudo pra ficar comigo na minha casinha meia água. Morro de paixão só de imaginar essa menina limpinha morando naquele pardieiro que vivo. Mas que dá uma vontade da gente comer farofa com costela de porco assistindo o Fantástico, ah, isso dá.

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