Literatura Podre

Entrevista com Vampiro

– Testando, Testando. Segue, neste instante, uma entrevista com Edgeilson, vulgo Vampiro, para o Documentário O Sabor da Desigualdade. Vampiro, tudo bem? Podemos começar?

– Mermão, pudemo çim. É limpeza isso aí, né não? E tu vai soutá um trocado aí na mão, gente fina? E ae, tá gravando já, ta?

“Vô dizê meu nome di verdadi primero antis de qolquer cosa. Eu quero que cê grava direitin o que vô dizê, ta sabendu, veio? Meu nome é Edgeilson da Silva. É a mistura do nome do meu pai, seu Wandeilson e da minha finada mãezinha, dona Edigeide. Moro lá no Planeta dos Macacos, lugá que to morandu já tem um tempinho já. Divido meu barraco com uma nêga, Francenilde, que trabaia num prédio de gente bacana lá em Boa Viagem.  Agente ta morando junto tem uns tempu já, mas não me lembro quando que foi, acho que foi logo na época do carnaval. Minha vida é um negócio brabo. Já fui servente, vendedô de pastel, picolé, verdureiro e agora sô vendedô de pipocão  e fasso uns bico La no Mercado de São José na barraca das minhas manas, a Roberlândia e a Robervândia. Daí qui eu vô juntando uns trocado pra ver se viro chavero, porque chavero sempre tem selvisso, mas enquanto isso fico o vendendu pipocão ou vendendo umas fruta e verdura lá no Mercado. Custumo trabaiá vendendo pipocão o dia interin, mas vendo pipocão mais quandu é fim do selvisso do peçoau. E to prati dizê que é um enfernu essa vida de vendedô de pipocão. É um calor de miséria e fumassa dos ônibus o dia inteiro na nossa cara. E agente fica lá gritandu pro peçoau comprá nosso pipocão purque já tem muitcho vendedô de pipocão na cidade. Lá na Guararapes eu sô conhecido como Vampiro, eu acho que é purque não tenho os dentes da frente, mas sabe, bacana, eu acho eçe nome de Vampiro muito do porreta. Eita! E tu não çabe qui esse nome bota esses vendedô de pipocão tudo meio encabulado, e eu vendo muito pipocão, acho que as pessoas compram meu pipocão mais pelo susto que pela fome de comer um pipocão durante a corrida du ônibus. Já sô tão chegado nas coisa, que até os motô me trata com muitcho respetcho, coisa que gosto.  Mas sabe duma coisa, bacana, já to ficandu de saco cheio dessa vida, guento mais não ficá acordandu cedo pra ir trabaia enquanto uns bacana que nem ocê fica ai fazendo pose de carrão e eu dentro da porra de um ônibus lotado e fudido. A única cosa que me bota pra frenti é ir ver o jogo do Sport, tomar muitcha pitu e passar a mão na bunda das nega, isso eu gosto mesmo, principalmente quando na volta do jogo eu poço acertá umas fuça no caminho e quebrar uns ônibus. Mas to pra te dizê que não güento mais nada mesmo. E acho que num guento nem mais ficar falando pra ocê nesse negócio que ta fazendo, to com um saco cheio de pipocão pra vender, tu vai comprar uns aí? E como é o nome da parada aí, eçe negósso que tu vai me pagá? Caxê? É, é isso mesmo, bacana, solta ai o caxê que to precisando me mandá, purque vô vendê meus pipocão e me mandá pro meu barraco pra ver o jogo do meu Sport na Libertadores. Falou aí, seu bacana!”

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