Literatura Podre

PRISÃO DE VENTRE

O Trono

Meu nome é Astolfo Cruz e Silva, sou empresário do setor agro-industrial, tenho 47 anos, considero-me respeitado no circulo político e social que frequento na cidade de Brasília, moro em um condomínio de luxo fechado com segurança e conforto para minha família. Minha filha Andreza, a mais velha, está fazendo faculdade de Jornalismo e Fábio, meu caçula, iniciou este ano a faculdade de Odontologia. Minha esposa, Darlene, é uma mulher digna e respeitada que é Consultora de alguma coisa que não me lembro direito. Estamos casados há vinte e cinco anos, um casamento tradicional e de bom costume. Sou um sujeito religioso, faço questão de comparecer a Missa aos domingos e prezo para que a família me acompanhe. Sou um homem tradicional.

Tudo que consegui foi com esforço. Desde quando amansava burro e tinha de capinar quintal das outras famílias de Caiapônia, cidade que nasci no estado de Goiás, para conseguir algum dinheiro. Passei muita vontade junto com meus irmãos porque as coisas não eram fáceis para meu finado pai e minha finada mãe. Não era fácil para ninguém passou fome, porque o pai e a mãe tinham criação e plantávamos toda qualidade de planta. Nasci na roça e cresci na roça. Não sou homem estudado. Máximo que fiz foi terminar o colegial. O que fiz mesmo na vida foi trabalhar. Consegui tudo que tenho: carro japonês do ano, lancha pra passear no Lago, viagem todo ano para Europa e Estados Unidos, empresa cheia de funcionário, tudo isso consegui com muito suor, muito esforço ao longo da vida. Mas uma coisa me perseguiu a vida toda e nunca consegui vencer: a prisão de ventre.

É meu martírio desde que me conheço por gente. Gemo de dor as vezes. Fico dias e dias sem conseguir evacuar. Já procurei tudo quanto é tipo de médico e ninguém consegue me curar desse mal da vida. Tem muita gente que tem inveja de gente rica, eu não tenho inveja de gente rica porque eu sou rico, o que tenho inveja é de gente que consegue evacuar, sentar na privada e descarregar tudo que tem nos intestinos. Chego a sonhar em ter uma vida normal, de homem que vai ao banheiro lendo sua Veja. Da minha sala na sede da empresa consigo ver meus funcionários se encaminhando ao banheiro e aquilo corrói minha alma. Hoje mesmo, ao estar me abrindo aqui, tenho de confessar: tem semana e meia que não consigo evacuar. Só consigo me abrir falando, é uma vida miserável. E não é algo raro de me acontecer, é sempre, é a constante da minha vida e a coisa está piorando.

Mas aconteceu algo recentemente. Algo que está me fazendo perder noite de sono atrás de noite de sono. Dias atrás, na sede da minha empresa, escutei uma conversa que tem me perturbado muito. Camila Leite, minha diretora de recursos humanos, estava conversando com Adriano Boaventura, meu gerente de logística, em frente à sala de estar que mantenho para os funcionários poderem, em seus horários de almoço, relaxarem. Como era horário de almoço, tomavam um cafézinho e colocavam o assunto em dia, não sei bem o porque resolvi esconder-me atrás de uma pilastra para escutar o que falavam.

Camila disse mais ou menos isso, pelo que consigo lembrar: “Banheiro de mulher não é porco coisa nenhuma. Nós temos de usar muito papel sim, mas se você está se referindo à época da faculdade que, vez ou outra, o pessoal da limpeza ficava xingando a gente por causa de bosta nas paredes, isso não é mulher que faz, tá? É homem! Homens que praticam sexo anal gorfam depois, soltam o intestino, o esfíncter não segura mais merda nenhuma e daí já viu né, ocupam nosso banheiro feminino para poderem transar e ainda deixam o lugar empestiado!”

Aquela conversa me deixou profundamente abalado. Não sabia o que pensar. Sou um homem conservador, prezo o sexo segundo os mandamentos da Santa Madre Igreja. Não admito em minha família homem que se deita com homem. Foi meu filho inventar de usar um brinco que o ameacei de expulsar de casa porque homem que é homem não fica se fazendo de mulher. Brinco é coisa de mulher. Sou muito conservador, admito. Mas aquilo…

Pensar que esses homens conseguem soltar os intestinos dessa forma, com essa capacidade, é tudo que mais quero na vida. Poder evacuar sem medo. Mas…o que tem de fazer para que isso ocorra. Absurdo! Como algo assim passaria pela minha cabeça? Gosto de mulher, sempre gostei. Mas pensar que poderia me livrar de tanta merda que tenho dentro de mim que está acabando comigo, me fazendo ter péssimas noites de sono e dores horríveis ao dia…

Eu poderia tentar. Quer dizer, sou muito homem. Mas preciso resolver esse problema. E logo. Até me afastei da empresa por alguns dias para poder pensar tudo isto. Também comprei um jornal e vi nos classificados os anúncios de garotos de programa. Ativos e passivos. Estou interessado apenas em ativos. Quer dizer, não sei o que devo fazer. Se penso na minha vida, na minha família descobrindo ou na própria empresa, tenho medo, não devo negar. Mas a possibilidade de poder evacuar de maneira a jorrar merda por todo um banheiro…

Será que dá?

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