Literatura Podre

HOBBY

 

Sofrimento diário…

Outro dia me aconteceu uma coisa engraçada. Comecei a cheirar o suvaco das pessoas no ônibus. No começo foi meio sem querer, é verdade. Mas quando me dei conta tava curtindo a coisa. Não pense que sou um porco. Todas as minhas ex-namoradas me diziam que eu era o homem mais cheiroso que já tinha namorado com elas. Gosto de gastar parte do meu salário de vendedor de celular com perfume. Por isso achei um pouco estranho ter sentido aquele tipo de sensação prazerosa ao ter aquele suvaco imenso grudado no meu rosto. Não nego que sou baixo, só não gosto que me chamem de baixinho, porque baixinho é coisa do show da Xuxa.

Como ia dizendo, naquele dia, na volta do trabalho às 18:30 de uma quinta feira 13 do mês de Abril, peguei o ônibus lotado. Sabe, nem tinha muita pressa porque ia direto pra casa nesse dia, não ia parar nem no espetinho do Seu Aranha. Quando vi que o ônibus estava com tanta gente, tive vontade de ficar e esperar o próximo, que passaria daqui uns trinta minutos, sabe, to dizendo essas coisas como se tivesse lá, sabe? Então, entrei no ônibus e como minha altura não é daquelas, me agarrei no primeiro lugar que pude para não cair com a arrancada do ônibus. Era gente apertando daqui e dali, tinha até uma mulher comendo uma malmita com muita farofa e carne de porco, ainda bem que tinha almoçado bem, porque senão ia apertar a fome na hora. Como tava dizendo, fiquei tão apertado no ônibus, e olha que quanto menor você é no ônibus menos as pessoas tem respeito por você, fiquei tão apertado que meu rosto ficou colado ao suvaco de uma senhora. A mulher não era muito bonita, tinha aqueles peitos enormes que devia dar de mamar pra uma creche inteira, o negócio é que a mulher estava com os braços erguidos para se segurar e assim toda aquele cheiro de carniça veio na minha direção. Fiquei quase sem ar no início, fiquei pensando em todo os perfumes que tinha dado pras minhas ex-namoradas e fiquei imaginando essa mulher sem ganhar perfume nenhum do namorado, cansada de trabalhar o dia inteiro que nem eu e tendo de pegar um ônibus lotado de gente fedida e cansada e eu com minha cara lá no suvaco dela, pedindo a Deus para o povo sair de dentro do ônibus e eu saindo junto, mas não era isso que acontecia, era o contrário, era mais gente entrando, o miserável do motorista devia estar se divertindo com tudo aquilo porque ele tinha seu lugarzinho garantido, enquanto o resto de nós se amontoava e ficava cheirando o suvaco dos outros, principalmente nós, as pessoas baixas, porque baixinho é coisa de show da Xuxa.

Eu sei que depois do primeiro e segundo momento de horror com aquele cheiro azedo comecei a sentir um prazer estranho ao cheirar aquela carniça, uma coisa muito especial que superava todos os perfumes que ficava cheirando nas lojas de perfume nos shopping. Naquele dia fui dormir com uma sensação de mudança, sabe, mudança mesmo. No outro dia tratei de pegar o mesmo ônibus, mas daí já não vi aquela mulher, confesso que fiquei um pouco triste, mas logo descobri um grupo de jovens com um cheiro de suvaco digno de simitério. Também cheirei, até que tentei disfarçar, mas acho que perceberam, porque ficava toda hora me movendo e fingindo tropeçar dentro do ônibus pra ficar perto deles. Eu confesso também que tive de reunir coragem pra ir sentir cheiro de suvaco de homem, mas acho que esse negocio não tem muito a ver, gosto é de mulher mesmo.

E por esses dias descobri que a mulher tinha de ter CC. Era essa a palavra, a palavra mais bonita do dicionário, mas eu acho que nem no dicionário tem, mas também nunca olhei porque não gosto muito de ler. Terminei com uma menina logo depois porque ela não tinha o cheiro, aquele cheiro suado azedo que me fez descobrir o mundo do CC das pessoas. Ela não entendeu e nem fiz questão de que entendesse. Essa minha nova paixão exigia coisas e eu estava disposto a romper com a namoradinha bonitinha e cheirando a perfume do Boticário. Agora o que me interessava era mulher com cheiro azedo debaixo do suvaco, coisa que ela não tinha mesmo.

Passei a só pegar ônibus lotado, principalmente o que leva pros bairros da zona norte. E descobri que ônibus que faz linha que tem obra de construção são os melhores, porque vem aquele povo suado, bando de pedreiro e aquelas cozinheira cheirando a carne de porco frita colocada na malmita, desde essa descoberta passei a demorar mais pra chegar em casa porque os ônibus pra zona norte demoram mais e vão por outro caminho, mais longe de casa.

A verdade é que estou apaixonado. Me apaixonei por uma mulher bonita, chamada Sandinete, empregada dum prédio perto da loja de celular que trabalho, é a mulher com o maior CC que já encontrei desde que descobri essa paixão. Ela nem desconfia que o que me fez apaixonar por ela foi seu cheiro azedo de fim de tarde. É moça direita também, claro, porque gosto das coisa certinha que nem papai ensinou. Ela acha que sou apaixonado por ela por causa do corpão violão dela, sabe, deixo ela acreditar nisto porque deve fazer bem pra ela, mas é aquele cheiro azedo dela de fim de tarde, mesmo depois de tomar banho no apartamento da patroa que me faz sentir arrepio na nuca por ela. Não sei se vou ter coragem de dizer isso tudo a ela algum dia, mas enquanto isso fico cheirando o suvaco dela e o de todo mundo do ônibus. É o que acho que deve ser meu Hobby.

 

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