Sci Fi no Cinema

Ficção Científica: um novo despertar

E ae, vai encarar?

Se você alguma vez leu ou escutou de alguém (e concordou) que ficção científica é assunto para os nerds de plantão vou pedir, humildemente, que abandone a leitura desse artigo. Aqui, ficção científica é um assunto que extrapolou os cercos nerds há muito tempo e vem, recentemente, ganhando maior estatura no cinema. E por estatura você pode entender por somas milionárias de bilheteria no mundo inteiro e/ou, melhor ainda, por filmes artisticamente capazes de inspirar a reflexão através da ficção.

É só escolher: naves viajando o cosmo através de dobraduras espaço-temporais, nobres e honrados cavaleiros espaciais empunhando, em nome da justiça, seus sabres de luz ou humanóides felinos de uma lua muito distante combatendo, com arco, flecha e muita coragem, a ganância e superioridade tecnológica dos terrestres. O cardápio é variado.

O que mais impressiona é a retomada de um gênero que parecia fadado a se tornar, para muitas pessoas, uma saborosa lembrança de clássicos, como as duas maiores “estrelas” (com o perdão do trocadilho): Star Wars e Star Trek. Legiões de fãs a parte, boa parte dos aficcionados por filmes de ficção científica vinculavam-se as duas sagas espaciais. Claro, existem boas e honrosas excessões, como os fãs de clássicos como Blade Runner, Alien, o Vingador do Futuro, o Exterminador do Futuro (1 &2) ou Arquivo X, três exemplos de diversidade e, na verdade, boa diversidade no que já foi feito no cinema e televisão na área de ficção científica.

Mas convenhamos: existiu um limbo de quantidade, na década de noventa,de boas produções do gênero (com as honrosas excessões antes citadas). E, especialmente no cinema, filmes de qualidade extremamente duvidosa (Independence Day, A Reconquista, etc) lançaram o gênero de ficção científica num vazio de qualidade de produções que muito lembra o que aconteceu aos filmes de faroeste. Mas assim como houve uma retomada no faroeste (só para citar Os Imperdoáveis, filmaço!), a ficção científica também começou a colecionar produções excelentes. já na decada de noventa na tela grande. E vou citar, em minha opinião, as três melhores. Vamos lá:

Muito além de muitas realidades...

* Matrix: como nao citar como o primeiro filme dessa lista de “renascimento” qualitativo do gênero? Conseguiu reunir qualidade de roteiro com inovações nos efeitos técnicos, ainda que devo reconhecer que muito do roteiro tenha bebido (ou melhor, se “embriagado”) de “Os Invisíveis”, História em Quadrinhos de Grant Morrisson publicada pela DC/Vertigo, entre outras fontes de “inspiração”. Primoroso e vale a pena um futuro post somente para esse filme. Por que como trilogia…

Uma obra prima do cinema com uma pergunta espinhosa: pode o "determinismo genético" vencer o espírito?

* Gattaca: outro filme excelente com roteiro simples, mas forte. Os atores também são excelentes. Tratando de um tema de ponta (a bioética) através da ficção científica, o filme conseguiu contar uma boa história e ainda apontar discussões fundamentais para a contemporaneidade.

O espírito dentro da máquina: adaptação fantástica da obra de Asimov

* O Homem Bicentenário: filmes inspirados na literatura de ficção científica tendem a ser “naturalmente”bons (claro, desde que caiam nas mãos de roteiristas, produtores e diretores responsáveis..rs..) e Philip K. Dick e Isaac Asimov são os devidos exemplos. O Homem Bicentenário deriva de uma produção literária de Asimov e é um filme excelente. Bem cuidadoso e humano, com a mais perfeita aplicabilidade do conceito. Esse é um filme que vale a pena ver de novo (trocadilho global) só pela atuação de Robin Williams.

Sinceramente, acredito que na decada de noventa do século passado esses foram dos três melhores filmes de ficção científica. Seja pelos efeitos especiais, seja pelo roteiro. E depois? Bom, ai começa o problema. Inicia-se o “dark times” da ficção científica com produções sofríveis como Independence Day, Armaggedon, Tropas Estelares (ok, nem todos acham ruim Tropas Estelares, mas não é meu caso) e chamo esse periodo, que se estende, de certa forma até hoje, como a “Ascensão do Império”, ou seja, os filmes “Michael Bay” com rarissimas histórias, muitas explosões e efeitos especiais que, muitas vezes, beiram os defeitos especiais.

Para mim, foi um período sofrível, com filmes, no máximo na média. E, lamentavelmente, tenho de incluir Star Wars. George Lucas cometeu o sacrilégio de revirar a “Trilogia Sagrada” e, pior, na nova trilogia, impôs roteiros medianos e clichês a torto e a direito. Somente “A Vingança dos Sith” foi um filme digno da “Trilogia Sagrada”, em minha opinião. Star Trek, sob a batuta de J. J. Abrams conseguiu a proeza de agradar aos fãs antigos e criar novos para uma franquia que muitos consideravam acabada. E o filme foi legal. Bacana de se ver. Nada muito profundo, mas atingiu o que se propunha.

Pois é, já estamos nos anos 2000. O que mudou então na ficção científica? Ou nada mudou?

Um novo despertar na Ficção Científica: para além das "pobres" explosões?

Bom, algumas surpresas aconteceram e vou apontar essas surpresas de forma comparada. E uma delas se chama “Distrito 9”. Filme de baixo orçamento (quando comparado aos orçamentos de filmes de ficção científica), mas com excelente história. E é justamente sua história sobre refugiados espaciais, preconceito de espécies (tão ancorada na realidade histórica da África do Sul  com seu passado segregacionista) que me faz pensar como a ficção científica é um excelente trampolim para se pensar nossa realidade, algo semelhante a Avatar.

E agora chego a Avatar. O bom de avaliar de forma retroativa os filmes de ficção científica é que podemos nos dar ao luxo de deixar nossa memória apontar de forma direta aquilo que marcou. Avatar é um filme muito recente, assim como Distrito 9. E ambos os filmes são muito bons e filmes que discutem, em suas entrelinhas e às vezes de forma direta, aspectos de nossa realidade que preferimos, muitas vezes, “deixar quieto”. Avatar é um filme multimilionário. Teve muita, muita grana investida e inovou de forma espetacular (comparável ao que Star Wars fez em 1977) a forma de se produzir filmes. E seu roteiro? Foi inovador? Não. Mas isso não tira o mérito do filme. Sua história simples evoca o momento de crise ambiental que se passa no planeta e a necessidade de fazermos algo urgentemente, por si só algo deveras complexo.

Ficção científica não é apenas duelos de sabres luz ou naves estelares que cruzam o espaço sideral através da “velocidade da luz”. Ficção científica é, acima de tudo, pensar nossa realidade. E, graças a Força, existem bons motivos para acreditar que outras produções de ficção científica despontarão. Dessas produções, espero que “Fundação” receba o devido tratamento e “Duna”, de Frank Herbert, também. Vale a pena ter esperança.

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