História em Quadrinhos/HQ e Política

Y – O Último Homem: hasta la vista, chicos!!!!

De cara tenho de reconhecer que sou um fã fiel e ardoroso de Histórias em Quadrinhos. Gasto hoje em dia uns R$100 (os famosos cem pila) ou mais de minha suada bolsa de doutorado com revistas do Batman, Superman, Liga da Justiça, Lanterna Verde, Universo DC, além dos encadernados que são publicados da Vertigo (minhas atuais reais preciosidades e preferências). Estou fazendo esse “mapeamento” de revistas em quadrinhos porque estive refletindo, graças ao copo de requeijão cheio de cointreau ao meu lado, na delicada e, porque não, intrincada relação entre Histórias em Quadrinhos e Política. Para fechar um pouco mais esse foco de análise, vou me deter, neste post, especialmente numa polêmica história em quadrinhos publicada nos Estados Unidos da América pela DC/Vertigo: Y – O Último Homem de autoria de Brian K. Vaughan (escritor), Pia Guerra (desenhista) e José Marzan Jr (arte finalista).

Escapar da política é algo difícil. Ela nos cerca em tudo que fazemos ou deixamos de fazer. Não estou dizendo isto para garantir o “peixe” do meu trabalho de cientista político. É percepção mesmo. Viver em sociedade é fazer política e/ou sofrer os efeitos dela, queira-se ou não. Quando escuto ou leio alguém dizendo que isto é balela, que política “não tá com nada” e “a gente pode viver perfeitamente sem se envolver com a política” fico com a mais profunda sensação que esta pessoa é um ermitão, isolado nos rincões amazônicos. O que, no caso, não se configura verdade. Na maior parte de quem reclama da “política não existir para a vida dela/dele” encontra-se alguém que mora em cidade, que reclama da falta de ruas com bom asfalto ou boa iluminação pública ou de falta de água “da rua”, serviço de internet que falha porque a empresa que presta o serviço está sobrecarregando o sistema e por isso não atende adequadamente a demanda e por aí vai. E porque estou dizendo tudo isto? Porque até nas histórias em quadrinhos existe o embate político, das percepções de mundo em conflito através de inúmeros e muitas vezes cativantes personagens.

Que mundo é este que nasce com o fim do gênero masculino? Vão-se os pênis, mas ficam as ideias de seus donos? É o que veremos nesse post.

Imaginem que todos os homens e mamíferos machos da Terra desapareceram. Ou melhor, quase todos, pois um jovem mágico escapista e seu macaco foram os únicos sobreviventes de um gênerocídio que assolou todo o planeta. Se você ainda achava que “gibi é coisa de criança” já pode ir começar a mudar de ideia. Pois duvido muito que alguns pais deixariam seus filhos e filhas de cinco anos lerem essa história. É claro que não pretendo entregar a história (já inteiramente publicada nos EUA e atualmente sendo publicada no Brasil pela Panini). O que pretendo é discutir alguns aspectos relativos a política que existe na história em quadrinhos.

Clássica reprodução da desigualdade de gêneros

Quando pensamos que os homens desapareceram da Terra uma das mais naturais consequências é a falta de pessoas capacitadas ao exercício de diversos cargos/profissões. Desde pilotos de avião, maquinistas, engenheiros computacionais, etc. E também políticos. Esse quadro deriva da forte concentração numérica, no gênero masculino, de uma série de cargos e profissões. Enquanto reconhece-se as conquistas das mulheres no campo do Mercado, através da ampliação da ocupação de postos de trabalho antes exclusivamente masculinos, no campo da Política essa participação feminina ainda é incipiente. Nos dois casos, do Mercado e da Política, existem “clubes do bolinha” que restringem essa maior participação igualitária das mulheres. Mas, no caso de Y – O Último Homem, a ausência masculina impele às mulheres ocupar esse “nicho”. E ai surgem algumas questões interessantes.

Se existe um mundo sem homens, que oportunidade melhor para mudar o “mundo do patriarcado”, não?

Pois é. Aí vem um problema. Que mundo colocar no lugar, cara pálida? Talvez esse seja o maior dilema sócio-político desse mundo retratado na história em quadrinhos. Logo no início da HQ esse dilema é refletido na busca por alguma substituta ao Presidente dos Estados Unidos da América. Quem deveria ocupar esse quadro? O autor Brian K. Vaughan retrata esse momento quando algumas personagens entram em conflito sobre a ocupação do mais alto posto político decisório do país. E sobra para a Secretaria de Agricultura, já que todos os demais cargos sucessórios da Presidência eram ocupados por homens. O que me faz perguntar, os homens permitem que as mulheres venham a ocupar seus espaços políticos legítimos e de direito? De certa forma, a ausência dos homens no mundo da HQ Y – O Último Homem permite visualizar a reconstrução do mundo político sob o primado do matriarcado. Mas em nossa realidade a coisa é bem diferente.

Não é?

Retomando a HQ, a “surpresa” pela “escolha” da Secretária de Agricultura reflete, de certa forma, a realidade da maioria dos países do nosso mundo real. Vou reproduzir aqui matéria publicada no site Mais Mulheres no Poder:

Relativo ao objetivo 3 dos “Objetivos de Desenvolvimento do Milênio”, “Promover a igualdade de gênero e o empoderamento da mulher”, em 2010, há um recorde de 19% de mulheres ocupando postos parlamentares em todo o mundo, afirma a ONU. O dado representa um aumento de 67% em relação a 1995, quando apenas 11% de mulheres ocupavam os Parlamentos mundiais. Mas tais números estão bem longe da meta de 30% de mulheres em postos de liderança, que deveria ter sido alcançada em 1995, e ainda mais distante da paridade, meta dos “Objetivos de Desenvolvimento do Milênio”.

 Em Y – O Último Homem, as instituições políticas acabam por ser reproduzidas. Podemos perceber, na leitura da HQ (que é excelente, contendo humor, aventura, drama, etc), que a forma mais fácil para derrubar um modelo é redesenhá-lo. Isso acontece com as instituições políticas que permanecem e são ajustadas ao novo mundo feminino que surgiu. Até o regime político, a democracia, permanece nos Estados Unidos, enquanto, por exemplo, na Rússia, retoma-se, pela vontade das mulheres, o regime monárquico democrático. Uma Czarina e uma Duma (parlamento)? Não exatamente, mas é melhor lerem para perceber do que não estou dizendo. Nesse quadro, a política é adaptada. As cidadãs deste mundo necessitam dela, política, para se organizar. E, em alguns momentos iniciais da HQ, para poder enfrentar um terror amazona que inspiraria um Estado totalitário neste admirável mundo novo. Mas, assim como no antigo mundo dos homens, a face mais dominadora e perniciosa da humanidade se manifesta políticamente, no velho jogo do “nós contra eles” e passa a existir como certo programa de ação de alguns personagens representantes de instituições como as Forças Armadas, no qual a velha mentalidade da competição política pesa mais do que a cooperação e, num mundo onde homens são a excessão, tudo valeria a pena para se apoderar deste homem e transformá-lo num reprodutor nacional. Como já havia prometido, não entregarei nada da HQ, mas confesso que o final dela é apoteótico, mas triste.

Retomando a politologia da HQ, de qualquer forma, as instituições mudam. E aprendem. Seu aprendizado é pouco ilustrado na HQ, mas vale a pena, como recurso de imaginação, imaginar este admirável novo mundo com novas e velhas formas de organização política e como novos e velhos problemas em aceitá-la como parte de tod@s nós.

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